Antonio Cícero: Seleção do Próprio Autor


Antonio Cicero Correia Lima (Rio de Janeiro, RJ, 1945). Poeta, filósofo, ensaísta e compositor. Inicia os estudos na sua cidade natal, mas, em 1960, muda-se com a família para Washington, Estados Unidos, onde conclui o curso secundário. De volta ao Brasil, ingressa no curso de filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O contexto político brasileiro, no entanto, o leva novamente ao exterior. Transfere-se para Londres, em 1969, onde conclui a graduação em filosofia. Em 1976, volta aos Estados Unidos para realizar curso de pós-graduação.
A partir do fim da década de 1970, destaca-se como compositor no cenário da música popular e rock nacionais, tendo canções gravadas por artistas como Zizi Possi (1956), Maria Bethânia (1946) e, principalmente, por sua irmã Marina Lima (1955). No início dos anos 1990, organiza, junto com Waly Salomão (1943-2003), o Banco Nacional de Ideias, composto de ciclos de palestras e debates. O Banco traz ao Brasil, entre 1991 e 1993, artistas e intelectuais como o poeta catalão Joan Brossa (1919-1998), o filósofo alemão Peter Sloterdijk (1947) e o poeta norte-americano John Ashbery (1927).
Em 1995, Antonio Cícero publica O Mundo Desde o Fim, livro que reúne ensaios filosóficos. No ano seguinte, edita o primeiro volume de sua poesia, intitulado Guardar. A partir da década seguinte, volta a publicar ensaios na área da filosofia (centrados em seus estudos sobre estética e filosofia da arte) -Finalidades sem Fim (2005), Poesia e Filosofia (2012) - e novas coletânea de poemas - A Cidade e os Livros (2002) e Porventura (2012). 
Os poemas abaixo foram gentilmente selecionados pelo próprio autor, especialmente para a revista POESIA AVULSA. 




 Dilema


O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu. 
No fundo
sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imerso num universo
que não é feito de mim.
Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.
Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.



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Logrador


Você habita o próprio centro
De um coração que já foi meu
Por dentro torço pra que dentro 
em pouco lá só more eu.
Livre de todos os negócios
e vícios que advêm de amar
lá seja o centro de alguns ócios
que escolherei por cultivar.
E pra que os sócios vis do amor,
rancor, dor, ódio, solidão
não mais consumam meu vigor,
amado e amor banir-se-ão
do centro ruma a um logrador
subúrbio desse coração.



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A Cidade e os Livros
para D. Vanna Piraccini 




O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia — e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim —, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm. 



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Huis Clos


Da vida não se sai pela porta:
só pela janela. Não se sai
bem da vida como não se sai
bem de paixões jogatinas drogas.
E é porque sabemos disso e não
por temer viver depois da morte
em plagas de Dante Goya ou Bosh
(essas, doce príncipe, cá estão)
que tão raramente nos matamos
a tempo: por não considerarmos
as saídas disponíveis dignas
de nós, que, em meio a fezes e urina
sangue e dor, nascemos para lendas
mares amores mortes serenas.



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Balanço


A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus primeiros versos.


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Nihil

nada sustenta no nada esta terra
nada este ser que sou eu
nada a beleza que o dia descerra
nada a que a noite acendeu
nada esse sol que ilumina enquanto erra
pelas estradas do breu
nada o poema que breve se encerra
e que do nada nasceu


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Fonte da biografia: Itaú Cultural
O poeta Antonio Cícero
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 
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