Fêre Rocha: Cinco Poemas Escolhidos


Fêre Rocha é Jornalista, escreve no Blog da Fêre há oito anos, espaço criado para publicação de seus escritos e divulgação de música brasileira. Tem algumas parcerias musicais em Floripa e Sampa, participou da revista digital Itinerário Imprevisto e é editora da Libertinagem, revista online de arte e literatura. Cotidiano Horizonte, uma reunião de poemas e aforismos, foi seu primeiro livro publicado pela Fundação Cultural de Lages, em 2015. Sua mais recente parceria é com a marca Ame Você, com a linha Poesia de Vestir, a marca produz camisetas estampadas com versos de sua autoria. A Poesia de Vestir esteve em algumas feiras de arte de Florianópolis, como a FAF e a Entremostras da Fundação Cultural Badesc. Fêre ama pássaros e sotaques, não sabe desenhar. 

Qu4tro


quatro anos antes você jurou que era a última vez
beber seria então só em datas especiais
você deixou todas elas especiais, e tomou todas
aos quatro não se sabe bem
de palavras escritas
que pais são humanos
e os humanos nem todos são pais
ou o que te aguarda lá na frente, ao acordar, crescido
não se percebe se é drama ou quando
ou comum ou complicado
aos quatro se supera, se vive apenas
coragem de criança e resistência
inimitáveis
irreproduzíveis
quatro vezes você jurou aos quatorze
não ter mais medo
depois prometeu parar de jurar
você jura?
quatro para às onze e acabaram
os comprimidos
os soluços
os abraços antes de deitar
e você nem jura mais
aproveita, cresce, tropeça
se diverte de quatro ou
na missa às quatro e quinze
chama seus antigos amigos invisíveis
e saem os quatro a cantar na rua, agora mesmo
faltando quatro linhas pro final
saiam cantar na rua!
vocês, os amigos tortos, os velhos, os invisíveis
até os indizíveis, vão! jura?

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Dos ombros


De atravessar o chão
mergulho sem aviso
sabia de cor as linhas
da calçada e
curvatura dos tombos
os ombros de desdém
das gentes olhando a
contratura do espaço
que abrigaria corações
(ou deveria)
de lamber o meio-fio
decepções
em desaviso
a cada abraço
frio e liso
solto, esquivo
foi largando
a cada esquina
sacolas de expectativas
meses tantos idos
ainda encarava
linhas de calçada
o meio-fio lambia
ainda vinha abraço frio
(as sacolas menores)
o liso, o liso e
os ombros das gentes
(sacolas findam)
esfrega as mãos, de poeira
ali então
nariz no meio do meio-fio
se encanta por passarinha
que sem ombros
não desdenha
e com penas
só abraça
nunca liso, nem frio.


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pé de coelho


o coelho está vestido
de preto
remói em dores
o coelho
corre de náusea
tritura o tijolo
que o pé prendia
corre da náusea
o coelho, o preto,
dores no pé
farelos do tijolo
não assopra
porque é coelho
salto em branco
madrugam dentes imensos
sonha
pato, colibri, pavão
sonha
gato, bem-te-vi, leão
desponta sol
estranha os dentes
acorda
em preto
não voa
não ruge
nem salta
morde a língua
dói o pé
não assopra
ainda é só
o coelho


_

Costuraria tuas respostas evasivas
Faria vestido
Fita bonita
O vestido arrastando 
Já pensou
Eu na rua
Teus monossílabos 
No meu peito em decote?

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toda mastigada
de horas compensadas
em alimentos que
damos
são o troco
das dentadas
porque não gritamos
não brincamos
nem dançamos
não gozamos
não gozamos

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A poeta Fêre Rocha
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 

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