Micheliny Verunschk: Poemas Esparsos


Micheliny Verunschk é autora dos romances O peso do coração de um homem (Patuá, 2017), Aqui, no coração do inferno (Patuá, 2016) e nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Patuá, 2014) – projeto com patrocínio da Petrobras Cultural. Também é autora dos livros Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003) e A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom como livro Geografia Íntima do Deserto. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O romance nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida - ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2015 - categoria melhor romance de 2015 - autor estreante acima de 40 anos e foi finalista do Prêmio Rio de Literatura 2015. O livro Aqui, no coração do inferno, está finalista do Prêmio Rio de Literatura 2016. A seleção de poemas abaixo foi feita pela própria autora, especialmente para a revista POESIA AVULSA. 


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a palavra amor
comporta todo esse desastre
todo esse choro e desencontro
todas as guerras pelo nome 
Helena 
ou Fatma 
ou Maria 
ou César 
ou Miguel 
etc etc ao infinito?
a palavra amor 
comporta todas as tecnologias
para um abraço
o avião o trem 
a velha carroça encostada nos fundos da casa
e essas cartas 
essas músicas
essas joias e penduricalhos?
a palavra amor 
comporta todo os filmes
do cinema americano
as balas zunindo de ciúmes e desengano?
a palavra amor comporta
todos os verbos 
e esses versos mal escritos
que envergonhariam os primeiros 
habitantes das cavernas?
a palavra amor comporta 
tanto bicho morto
pilhas de livros
tantas fogueiras 
e luas ao redor do sol
e ainda as vozes que pairam sobre as cabeças
eu te amo te amo te amo?
a palavra amor
[esse móbile girante
objeto perfuro-cortante]
comporta a minha vida 
e a tua?


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a mulher de Lot
se voltou para trás
a tempo de ver Orfeu
voltado para trás
a tempo de ver Adão e Eva 
voltados para trás.
a mulher de Lot
o mesmo sal a mesma solidão.


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os meninos
no farol
fazem malabares
com bolinhas velhas
e sujas
são ratinhos correndo
dentro da roda
os meninos
do farol.
de dentro do carro
observo
os ratinhos
girando
enquanto as bolas
se sustentam 
no ar
uma duas três quatro
bolinhas velhas e sujas
e sigo correndo
girando
a minha roda
observando
o mundo
do lado de fora
da gaiola
sigo correndo
girando
correndo
e girando
interminável
interminável
interminável.


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era um homem a andar sobre o mar gelado. nenhum jesus, nenhum moisés com um cajado a dizer essas águas para lá, essas outras do outro lado. era um homem a andar sobre um enorme bloco congelado de água salgada. o céu por cima, baleias e peixes por baixo. era um homem, só um homem, nenhum maomé entre anjos ou garças, seus olhos de mel dourado, sua barba como raízes, suas mãos como peixes prateados. era um homem a andar sobre o mar gelado, nenhum jesus, nenhum buda alucinado debaixo de uma árvore de sonhos. só um homem, seu nome escrito no centro de um coração.


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nada peço aos deuses
ou ao deus
mas no verso simples 
e exato
eu creio.


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A poeta e romancista Micheliny Verunschk
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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Comentários

  1. Gostoso demais embarcar na escrita feita travessia, em cada nervura de passo uma geografia tão franca quanto acesa - é como sinto as boas e graves surpresas ao ler Micheliny. Abraço, André!

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