Oswald Barroso e a Poesia Clandestina


Raimundo OSWALD Cavalcante BARROSO, cearense, de Fortaleza, é poeta, jornalista, teatrólogo, Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e Pós-Graduado em Gestão Cultural pela ANFIAC/Paris. É professor de Antropologia, Cultura Brasileira, Estética e Música nas Tradições Populares da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Tem mais de quinze livros publicados. Sua luta contra a Ditadura Militar de 64 lhe rendeu vários anos na clandestinidade e em presídios de Recife-PE e do Ceará. Foi violentamente torturado pela Ditadura, tendo sido solto em estado de loucura. Após vários anos de alucinações e de tratamento, conseguiu se recuperar. Hoje vive uma vida pacata, escreve livros e cria animais domésticos.



CONCLAMAÇÃO


Poeta,
a ti cumpre escrever
o trágico poema
desse tempo submerso.
Mesmo que te doa
a lembrança
resgata o suprimido verso
sem omitir nenhum instante.
É preciso desvendar
o subterrâneo
desse circo de horrores
para que ele seja
cada vez e sempre
uma coisa insuportável.

Escrito no presídio de Aquiraz-CE, abril de 1979. Barroso, R. Oswald C. – “Poemas do Cárcere e da Liberdade”. pag. 9. Palma Publicações e Promoções Ltda. Fortaleza, 1979




ACALANTO


Não, irmão,
eu não posso te prometer
uma aurora para amanhã.
Talvez depois de amanhã,
ou mesmo, depois de depois,
se aplaque o temporal.
Eu não posso te dizer
que é só um minuto,
ou mesmo um dia,
embora eu o quisesse muito.
Porque mais vale a realidade
do que a frase vazia.
Sei que é difícil, irmão,
muito difícil mesmo.
Mas pense num dia claro
como uma coisa concreta,
muito viva e colorida.
E veja nesse lume,
trêmulo e pequenino
que abrigas no peito
o ante sol dessa alvorada.
E durma, irmão,
e sonha profundamente
o sonho dos justos.

Escrito no cárcere do Corpo de Bombeiros de Recife-PE, 1974. Barroso, R. Oswald C. – “Poemas do Cárcere e da Liberdade”. pag. 15. Palma Publicações e Promoções Ltda. Fortaleza, 1979




LEMBRANÇA


A lua te recordará
a branca noite
em que ela se despiu
e, vermelha,
se fez cúmplice
do nosso amor.
O mar te lembrará
nosso costume
de caminhar nas tardes
até o horizonte,
pois que o mar
também é cúmplice
dos namorados distantes.
E quando vires, amor,
num vão de céu
uma estrela,
tu não chorarás,
porque, então,
aprenderás o meu caminho.
Mas, quando o povo
andar triste pelos becos,
tu saberás do meu luto
e sentirás a dor
da dura separação.

Porém, se a multidão
ensaiar um canto,
tu saberás do meu riso
e nele me encontrarás.

Escrito no presídio de Aquiraz-CE, 4 / 2 / 1977. Barroso, R. Oswald C. – “Poemas do Cárcere e da Liberdade”. pag. 25. Palma Publicações e Promoções Ltda. Fortaleza, 1979




QUEM FALA PELO POETA


Falo através de não ter nome
através de ter fome
de falar.
Sou o poeta do que os outros dizem.
Do que eu digo pela boca dos outros.
O povo é um barco
e nós somos ele.
Não somos a proa ou o leme.
Somos o casco
o corroído casco flamejante
que luta contra a bagagem.
Por isso vamos troando
dentro das ondas
e somos o mar também
o invencível mar que fala pelo poeta
e vai além
desses dias malvividos.

Barroso, R. Oswald C. – “Periferia, poemas e canções”. pag. 15. Secretaria de Cultura de Desporto do Estado, Fortaleza, 1985




ODE AOS MEUS BOLSOS EM MUNIQUE


Não tive olhos, bela Munique
para teus lagos
e castelos encantados.
Escondiam-se jardins de crianças mortas
nas letras douradas do passaporte
e ao sul
um cruzeiro enchia de falta meu coração.
Não tive olhos, bela Munique
porque só tive boca.
Quando o pálido sol
anunciou o verão
exibi acintosamente minha fome
nas ruas da Baviera.
E nada mais extraordinário havia
que os bolsos famintos
da minha jaqueta –
dois relâmpagos
contra o cinza de Munique.
E da louça branca que me coube
recolhi todas as sobras –
nos meus lindos bolsos abarrotados!
Sorrindo, atravessamos o Atlântico.
Mas na volta
eles se mostraram tão miúdos
que mal deu para distribuir
uma lembrança
com cada amigo mais próximo

Barroso, R. Oswald C. – “Periferia, poemas e canções”. pag. 130. Secretaria de Cultura de Desporto do Estado, Fortaleza, 1985




COMO VELHOS AMIGOS


Poesia é também esta amizade
que já era antiga
antes mesmo da gente se conhecer.
A união do povo é igualmente
uma canção de amor.
E onde o homem for oprimido
e sua labuta
lá estaremos nós
que somos tão numerosos
quanto os grãos da madrugada.
E se acaso esse homem luta
por um dia que não seja
igual à noite
nós o chamaremos de companheiro
e como velhos amigos
poderemos sentar à sua mesa
e fazer planos
para que nunca estejamos sozinhos
quando a noite
não mais se sustentar
de tão escura.

Barroso, R. Oswald C. – “Periferia, poemas e canções”. pag. 137. Secretaria de Cultura de Desporto do Estado, Fortaleza, 1985




NAS MINHAS PALAVRAS


Quando está longe
vou para você
nas minhas palavras.
A caneta brinca no seu corpo
eu digo alegria
e escrevo.
Quando falta tinta
é meu silêncio
a linha branca que cala.
Soubesse eu transmitir amor
e coloria toda a página.


Barroso, R. Oswald C. – “Periferia, poemas e canções”. pag. 115. Secretaria de Cultura de Desporto do Estado, Fortaleza, 1985

O poeta Oswald Barroso
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 

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