Reynaldo Damazio e a poesia do incômodo

Reynaldo Damazio é editor, crítico literário, escritor e gestor cultural. Formado em sociologia pela USP, com especialização em Propaganda e Marketing, pela ESPM, e Gestão e Políticas Culturais, pelo Itaú Cultural. Foi co-editor do Caderno de Leitura da Edusp e colaborador do guia mensal de livros, CDs e DVDs da "Folha de S. Paulo” e das revistas “Cult”, “Mente e Cérebro”, “Arte Brasileiros” e “Nossa América”. É coordenador do Centro de Apoio ao Escritor do museu Casa das Rosas. Autor de “O que é criança” (Brasiliense) e “Poesia, linguagem” (Memorial da América Latina), e dos livros de poemas “Nu entre nuvens” (Ciência do Acidente), “Horas perplexas” (Editora 34) e “Com os dentes na esquina” (Dobradura Editorial); organizador, com Tarso de Melo, de “Literatura e Cidadania”, “Subúrbios da caneta” (Dobra), e “Outras ruminações” (Dobra), com Tarso de Melo e Ruy Proença, entre outros. Traduziu “Calvina” (SM Editora), de Carlo Frabetti. Os cinco poemas abaixo foram selecionados pelo próprio autor especialmente para a Revista Poesia Avulsa. Três deles são inéditos em livro e outros dois já foram publicados em outras revistas de poesia.  




não tem graça
esperar que a história
surpreenda e seja do avesso
que tiranos caiam
e a gente brinque sem fim
nas esquinas da igualdade
como gatos no cio

não tem graça
esperar de braços cruzados
que a opressão se acomode
na sala diante da tv
que o preconceito e o ódio
abram displicentes a geladeira
como alguém de casa

não tem graça
covardia omissão apatia
não tem a menor graça
medo abuso violência
só tem graça se a gente
resistir e fizer folia
virando o jogo
na festa da anarquia

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talvez aguente que ninguém leia
o que escreveu não entenda o que disse
com tanto cuidado o trabalho inútil
de muitos dias presente guardado na gaveta
talvez não olhe pro lado e faça de conta que
é só um dia como outro qualquer
enquanto a estrada some na janela
do ônibus e anote outras palavras
no banco de sangue dos desenganados
pode rodopiar nu como falso índio e pedir
socorro em silêncio
talvez esqueça as perguntas que faria
às velhas edições e nem perceba como se perdeu
no mood de sua comédia particular
sem palco ou plateia


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recolhe no prato
os últimos farelos de pão
fio de café resiste quente
no fundo da xícara lascada
bagaços da laranja na pia
ensaiam um sorriso
renascentista
como se a manhã ensolarada
simulasse molduras
mas não há vestígios
de graça
nem tíquetes de acesso a
paraísos artificiais
só o movimento estético
destes dedos
ao redor do prato


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uma parte de você
me persegue como
cisco no olho
final de campeonato
coreografia da torcida
no calor da arquibancada
canção tatuada na cabeça
tarde ensolarada de junho
um mimo essa taça de vinho
o traço além do grafite
linha antes do infinito
a parte maior que a soma
das partes
gole de cachaça
um disparate
essa parte de você
como um livro aberto
na página mais bonita
que fica em mim sem
estar e que me atravessa
como a curva entre dois
braços


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o corpo
quer o toque
leve que a
palavra não
suporta
um arrepio
além da
metáfora
um risco
no calendário
o batom
rodopiando
no toca discos
a tradução do
poema pela
metade
distâncias
dor
blues no café
da manhã
pro corpo
insone
sorrir

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O poeta Reynaldo Damazio I Foto de Nícolas Damazio
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 

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