Rubens Jardim: Sete Poemas Selecionados

Rubens Jardim, 71 anos, jornalista e poeta. Publicou poemas em diversas antologias no Brasil e no exterior. É autor de três livros de poemas: Ultimatum (1966), Espelho Riscado (1978) e Cantares da Paixão (2008). Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA, em 1973 e publicou JORGE, 8O ANOS – uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento CATEQUESE POÉTICA, iniciado por Lindolf Bell em 1964, logo após o golpe militar. Nosso lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares. Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008). Em 2011 passou a dedicar o seu blog –www.rubensjardim.com—exclusivamente à série AS MULHERES POETAS... No final de 2012, uma seleta de seus poemas, Fora da Estante, foi publicada na Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo. Em maio de 2014, organizou e participou das comemorações dos 50 Anos da Catequese Poética, evento especial do Chama Poética, realizado na Casa das Rosas.
Em setembro de 2015 começou a fazer curadoria, em parceria com o poeta e ator Davi Kinski, do Sarau Gente de Palavra Paulistano. Em 2016 criou o Sarau da Paulista que acontece no último domingo do mês na Paulista esquina com Peixoto Gomide. Os poemas abaixo foram selecionados pelo autor especialmente para a Revista POESIA AVULSA.



TRANSFIGURAÇÃO


Mudas, no papel, as palavras
pronunciadas voam
que nem passarinhos.

Será que elas criam ninhos
... nos teus ouvidos?


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DERRAMAMENTO

Minha alma é pequena
e minha memória menor ainda.
Não fosse isso estaria mais perto
daquilo que me corrói:

o leite derramado.


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AMOR É PERDIÇÃO


Procuro entender os sinais
da tua ausência: teus sapatos
imóveis no guarda-roupa,
tuas calcinhas indiscretas
na gaveta.
Busco compreender essa falta
e aceitar essa carência.
Mas olho para os lados
e não decifro nenhum
dos teus inquestionáveis
enigmas.
O amor é a perdição de achar.


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POEMA INSPIRADO EM CICIO DE Márcia Maranhão de Conti


Prefiro a palavra que inaugura
um espaço novo na mente
do leitor. Aquela que o arranca
do torpor e o faz embarcar no trem,
na carroça, no ônibus ou avião.
A palavra que o arranca do chão
ou da poltrona. No poema a palavra
é travessia. Por isso, venha comigo

Vamos descarrilhar esse trem


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POEMA INSPIRADO EM A FLOR DO SEXO de Lilian Maial


abaixo do teu umbigo
                        existe uma caverna
                        de rochas ígneas,
magmáticas.

dizem que elas são formadas
                        de feldspato,
                        quartzo,
                        anfibolitos,
                        mica
e minerais preciosos.

mas abaixo do teu umbigo
eu não encontro nada disso:

eu vivo a nascente e a foz
                        simultâneas.



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HOMENAGEM AO 25 DE ABRIL*


É aqui, longe das praias solitárias
que eu ouço a voz das águas
e as canções do mar. E o mar
que não é português, nem grego ou brasileiro
despeja suas ondas em meus versos
que se recusam a caminhar sozinhos. 

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

E é em pé e de cabeça erguida que
eu chamo os poetas da nossa língua:
Camões, Fernando Pessoa, Castro Alves
E todos que manifestaram nosso lirismo
sem esquecer que as palavras tem garras
E podem ajudar a transformar o mundo.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

Eis aí o mistério marinho e poético
Que mistura nossas almas e nos torna
Navegantes resistentes. As cartas
de marear são belas mas a poesia está nas
ruas, nos seios das mães e nas funduras                              
sociais da língua. Importante é a travessia                        

Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!

Sim, o mundo era outro. Eu também era outro
Mas a voz do mar era sempre a mesma.
E apesar da terra girar, Portugal continuava
Com Sal e Azar e as colônias africanas
Mas às 22h55 do dia  24 de abril de 1974
As rádios de Lisboa tocaram a canção-senha
Que deu início ao movimento libertário.

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Na celebração desse Abril, um quadro
Ficou famoso. Trazia um título sugestivo:
A POESIA ESTÁ NA RUA”.E foi ocupando
As ruas que o povo português mostrou
Com cravos vermelhos amansando fuzis
que a soberania popular pode ser
Sufocada—mas não pode ser morta.

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!

(* esta poema foi lido no plenário da Câmara Municipal de São Paulo, nas comemorações dos 39 anos da Revolução dos Cravos)



RETRATO


Até que enfim
Não dei em nada
Dei em mim

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O poeta Rubens Jardim
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 

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