Tarso de Melo: Íntimo Desabrigo

Tarso de Melo (Santo André. 1976) lançou os seguintes livros de poemas: A lapso (Alpharrabio, 1999), Carbono (Alpharrabio, Nankin, 2002), Planos de fuga e outros poemas (CosacNaify, 7Letras, 2005), Lugar algum (Alpharrabio, 2007, apoio da Bolsa Vitae de Artes), Exames de rotina (Editora da Casa, 2008) e Caderno inquieto (Dobra, 2012, apoio do PROAC/SP), reunidos no volume Poemas 1999-2014 (Dobra, E-galáxia, 2015). É autor também dos estudos História da literatura em Santo André (Fundo de Cultura, 2000) e Direito e ideologia (Expressão Popular, 2009). Organizou diversos livros, entre os quais: Vidas à venda (com Eduardo Bittar, Terceira Margem, 2009), Cidades impossíveis (com Eduardo Bittar, Portal, 2010), Literatura e cidadania (com Reynaldo Damazio, Dobra, 2013, apoio do PROAC/SP), Subúrbios da caneta (com Reynaldo Damazio, Dobra, 2014), Outras ruminações (com Reynaldo Damazio e Ruy Proença, Dobra, 2014), Para a crítica do direito (com Celso Kashiura Jr. e Oswaldo Akamine Jr., Outras Expressões, Dobra, 2015) e The 42nd St. Band, de Renato Russo (Cia. das Letras, 2016). É também advogado e professor universitário, com doutorado em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Os poemas abaixo foram selecionados de seu livro mais recente, Íntimo Desabrigo, especialmente para a Revista POESIA AVULSA.



Íntimo desabrigo


daqui ouço a voz dos seus talheres inúteis
seu colchão em que afundo a cabeça que já não me serve
chinelos sapatos passam sapatos chinelos pousam

daqui corto os pulsos em suas tesouras cegas
de suas facas o ferrugem escorre como lava como larvas
de pregos faço o castelo em que vai deitar minha hora

os calendários todos que a água podre funde à pedra
as pedras tortas que desaguam nos calendários podres
os dias todos que as pedras podres rasgam do calendário

o céu de concreto o sal dos afetos o mal o mar de asfalto
é sob eles é sobre eles é deles que tento falar mas não
mas não falo a língua gira em sua sopa rala em sua vala

o zíper de sua mochila oca o caco de seu copo tosco
os tocos de sua voz a foz da minha fala nela desaba
onde guardei minha história onde morei até ontem


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Não sei


Não sei se é o caso de fazer outros versos
quando tudo que quero já cai pelas bordas
e as palavras não grudam mais no que gostariam.

Não sei se sou eu ou se é essa história
que ouvi de alguém, de alguém que não sei,
sobre o fim dos tempos em que plantávamos
nossa feliz ideia de futuro, de poesia, de amor.

Não sei se é por causa de um céu carregado
que não quer mais sair desse estranho horizonte
que em nossas cabeças ainda serve ao propósito
de levar nossos pés um passo além, que seja.

Não sei se é a hora, se é a falta de tempo,
se é a folha em que cedo ou tarde vão cair
as letras que não dizem nada que eu saiba.

Não sei se é vingança não fazer qualquer força
para que nossas preces tragam mais que o vulto
do que nem sabemos quanto roubou de nós.

Não sei se, ao acaso, ao fingir esse drama,
eu conquisto bem mais do que a chuva de tédio,
do que o mar de desprezo, de frieza e recusa,
que costuma vazar entre os dedos do tempo.


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Companheiro
para Antonio Possidonio Sampaio (in memoriam)


água parada, sabíamos, não era sua vida
mais cedo ou mais tarde iremos, você iria

tantos anos, quase todo dia,
gostávamos tanto de falar
quanto de um não dizer que mais dizia
e assim estávamos sempre conversando
cada um lendo suas coisas
escrevendo suas coisas
mas num assunto sempre mesmo
ao nosso modo, fundo, mudos

e hoje, um hoje tão longo
passei o dia a dois metros da última conversa
certo de que ela não terminará
a milhas da coragem do último abraço
o corpo frio que não lhe cabe
o corpo frio que não nos cala

foda, amigo, foda
foi olhar da porta da sala
em que você sempre estava
as fotos das crias, das lutas, do que importa
e ver que até a cadeira chorava

e alguém, talvez um eu que juntos fizemos,
folheava um a um os seus livros
procurando o leitor que lhes falta


_



Inóspitos
para o Heitor


é preciso
exercitar
e desadestrar
continuamente
os ouvidos
para sacar
dos versos
sua sinfonia
insólita
nada óbvia
de mil vozes
discordes


_



Mais leve


vejo as fotos
das suas pequenas
alegrias
de fim de semana

brilha na tela
o sorriso
das suas férias

como a lua
é mais intensa
quanto mais intenso
o manto negro
que o céu põe
ao seu redor

é mais leve
o seu alívio
quando à volta
se concentra
todo o peso
que da foto
pra fora
nos desespera?


_



Dizem


no país
(dizem)
mais feliz
do mundo

na melhor
(dizem)
empresa
para trabalhar

na hora
em que
ninguém
guarda
riso algum

a tristeza
deve doer
um pouco
mais 

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Íntimo Desabrigo
Autor: Tarso de Melo
Coedição Alpharrabio e Dobradura
Gênero: Poesia
Número de páginas: 104
Preço: R$25,00 + frete
Para comprar o livro acesse: https://pag.ae/bhmd6b2
(Os exemplares, numerados e assinados, serão enviados a partir do início de agosto)
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O poeta Tarso de Melo I Foto de Ilana Lichtenstein
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 

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