Carlos Felipe Moisés: Breve Despedida

Carlos Felipe Moisés (São Paulo SP, 1942 - 2017) em 1960 publicou A Poliflauta de Bartolo, seu primeiro livro de poesia. Entre os anos de 1962 e 1994 foi colaborador dos jornais Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo, e nas revistas Istoé e Visão, principalmente como crítico literário. Formou-se em Letras, pela USP, em 1965. Nas décadas de 1970 a 1990 publicou diversos livros de ensaios, entre os quais Literatura para Quê? e Poesia e Realidade. Em 1972 concluiu o doutorado em Letras e assumiu a cadeira de professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na USP. Entre 1978 e 1983 foi professor de Literatura Portuguesa e Brasileira da Universidade da Califórnia (EUA). Na década de 1980 publicou os livros O Poema e as Máscaras e Poética da Rebeldia e traduziu diversas obras, como O Que é Literatura?, de Jean-Paul Sartre. Em 2000 organizou, com Álvaro Alves de Faria, a Antologia Poética da Geração de 60. Sua obra poética inclui ainda A Tarde e o Tempo (1964), Círculo Imperfeito(1978), Subsolo (1989), Lição de Casa & Poemas Anteriores (1998). Os poemas abaixo foram selecionados pela Revista POESIA AVULSA como forma de despedida e homenagem na ocasião de seu falecimento. 

Carlos Felipe Moisés foi embora. Foi encontrar novamente Margarida. Quando o conheci, ele era um livro, depois outro, depois outros, até virar um amigo que parecia estar desde sempre por perto, uma espécie de mestre, Mestre, um monge dessa religião sem deus chamada poesia, que agora virou livros novamente, infinitos livros e textos e ideias e gestos, muitos gestos de afeto que nada vai apagar. Falamos há algumas semanas e ficou no ar a felicidade com a campanha do Corinthians, o próximo encontro na Urca, um livro novo na sua infinita gaveta. Ele me contou de seu ‘calo na aorta’, eu disse que não havia nada mais apropriado para um poeta, rimos, mas agora eu queria que aquilo fosse apenas uma metáfora. Ontem, no lançamento do livro de que participamos juntos, sua ausência era o assunto. Sabíamos que estava lutando, mas não havia tristeza porque sabíamos que Carlão era o mais forte de nós. E vai continuar assim, titular absoluto”. 


Tarso de Melo






Dádiva devolvida

Birds in the Crescent trees were singing.
Dylan Thomas


O céu de tanto o contemplar
já se desprende de seus laços
e vem, menino, se abrigar
no vão inútil de meus braços.
Ah, um só instante bastara
(de amor?) para que minha história,
velha paisagem, se mudara
em puro canto só memória.
E minha voz, que não entendo,
a mim me fala e quase nada
do que me fala compreendo
: apenas rio ponte estrada.
Da boca um pássaro me voa,
no gesto uma nuvem passagem
pede e o mundo se despovoa
de mim para outra paisagem.
Onde a memória? Onde o canto?
Onde o bando de aves que um dia
voou em meu céu? E o encanto
que habitou esta alma vazia?
O céu já se vai de meus dedos,
a paisagem torna a seu pouso,
os olhos contemplam segredos
que tentar decifrar não ouso.
Fatigado agora caminho
a mesma estrada rio ponte
: um pássaro canta sozinho
e risca de azul o horizonte.
O céu de tanto o contemplar
eis se recolhe aos velhos laços
e à força de tanto o chamar
se me cerram os olhos baços.
*
Agora que não vejo vejo
tudo o que o céu me ofereceu:
satisfazer o meu desejo
perder o que ninguém me deu.



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Adágio para Jean-Pierre Rampal


O que não fiz, guardei no subsolo.
A flauta ardendo no escuro é meu consolo.

No ermo deste solo a dor é minha
ou é do acaso e nunca dói sozinha.

Dói no gesto já alheio ao se esboçar,
doeu em mim e dói na musica
                                                      no ar.

O que não foi deixou de acontecer
ou queima nesta flauta até ao amanhecer?

Do subsolo nada mais espero,
o sopro desta flauta é quanto quero.

Neste sopro arde o país de onde venho.
Como perder aquilo que não tenho?

É este o meu país e não sou eu,
é o corpo onde meu corpo se estendeu.

Minha pátria, esse corpo. Nele vivo,
nele reparto meu sonho cativo.

Inútil esperar o que não vem.
Se tenho, não é meu. Nem de ninguém.

Mas tenho: meu corpo estendido no escuro,
as mãos errantes noutro corpo mais puro.

Nada do que tenho lembra o que mereço.
Perdi, hoje só tenho o que não peço.

Da flauta o solo cresce no espaço
entre as dobras do sono e o meu abraço.

No sub deste solo a flauta arde,
antes solo do que nunca ou já bem tarde.

O que-não do que-sim é coisa morta
ou antes: mal nascida e pouco importa.

No sub deste solo a flauta chora,
o choro passa e não fica, passiflora,

canto solto no ar: melhor assim.
E ali que a flauta soa e não em mim.

O que não soube nem fiz se mudou
neste solo: o que-não do que, sim, sou.



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Este sol


Eu não estava presente
quando tudo começou
nem vou estar
quando tudo se acabar.

Entre o primeiro
e o derradeiro instante
só me interessou
o que não tem
começo nem fim.

Poderia até
dizer este Sol
que agora brilha

brilha
para quem
senão para mina?

Como não estive
nem estou presente
digo este Sol

brilha
porque sim.



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O Dia Segue o Curso Itinerante



I


Assim te amei, amada, assim te amei
de amor tão grande e puro que secou
no peito meu o rio que corria
submisso e atento para os braços teus.
Nos ermos vales agora percorro
os gestos esquecidos, densas brumas
do rio que fui, o rio que fomos,
largas águas seguindo o mar da noite.
Assim te amei o amor maior que pude.
E, mais ainda, a minha vida foi
uma desfeita nau vagando a esmo
o mar do tempo, o mar janeiro, o mar
que perdi. E agora, de ti disperso,
nos desertos de mim, sem fim, caminho.



II


E vou por outras águas procurando
o manso pouco, o malvo campo onde
apascentar o rebanho de mágoas,
o carro de afectos que mantenho
guardados no denso peito, tangidos
pelo vento no dorso do horizonte.
Largos desertos! abrandai a pena
sem fim que me domina! Alvos lírios,
rosas, boninas, nardos e outras flores!
Vinde ao menos cobrir-me a branda fronte
de púrpura, de orvalho e calmaria.
Eis que me vou por este vasto mar
de afagos e carícias inconstantes,
vivendo sonho e morte a cada instante.



III


E sempre neste calmo amor prestante
o peito nu crescendo em solidão.
A tarde passa, tudo passa quando
amor refaz o pó de que foi feito.
O dia segue o curso itinerante
e é sempre neste ocaso o tom de afago,
o ar desfeito, o mundo ignorado
apascentando o peito de quem ama.
É o vago som de um gesto soluçante.
Amor, um nome, o deus que nasce e vai,
o passo incerto em direcção da noite
que vem. É treva, é o sono agonizante
de quem, por muito amar, deixou o mundo
inerte e foi empós do amor errante.



IV


E em cada instante o sonho que não cessa.
O coração que diz: o amor não basta!
O peito se alargando na amplidão
da tarde, o frio, o mundo vasto e o sangue
que circula omnipotente, destino!
Distantes e vaguíssimos contornos
do ser que por meus olhos se derrama!
O corpo é lenta força que palpita,
é paz, é mundo, é vida que desvia
o inconstante curso e brota em cada
pensamento, emoção, transborda e vai
pela foz destas águas perguntando.
É sono, é pausa, ali onde resume
o humano amor a mágoa que é divina.




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As formas do branco


Caminho pela neve
e o mundo principia neste branco.
Tenho a verdade, sonho breve,
branco retido no branco.

Girassol amanhecido longe,
a verdade apareceu-me nesse branco.
Tempo devorado como carne, corpo ferido,
vermelho sobre o branco.

Os pássaros nascem nas nuvens,
azul distante.
Tinha a verdade, perdi-a:

branco escondido no branco.

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O poeta Carlos Felipe Moisés - Foto: Emerson M Martins

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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