Jussara Resende: Um Conto Sobre Folhagens, Goiaba e Feijão

Jussara Resende (Brasília, 1969). É graduada em jornalismo e direito, atuando profissionalmente na área jurídica, com produção de textos técnicos. É no momento de lazer, entretanto, que sua escrita encontra sua melhor face: ensaios, poemas e contos que a autora divulga em seu perfil no Facebook. Escritora amadora, com algumas publicações em revistas literárias digitais. 



Sobre folhagens, goiaba e feijão


Pulam milhos na panela e, da janela, olhos à espreita. Pois que vieram todos antes do grito, hipnotizados pelo cheiro. Também, onde já se viu comer pipoca escondido? Impossível. Essa arte não se apronta. E nem se deseja, já que bom mesmo é ver a criançada fazendo a festa. Mãos brigando pelo espaço na tigela. Bocas cheias. Vez ou outra, uma branquinha escapa pelo chão. Pega logo, menino, que vitamina S também é bom. Pecado mesmo é passar fome. Cá na roça não tem doutor. Mas tem mesa farta, servida com amor. Como tem larva na folhagem, bicho na goiaba e caruncho no feijão, não vai ser sujeira do chão a atrapalhar a farra da molecada. No mais, pelo sanitário, tudo se vai. Uma dorzinha daqui, outra dali. Tritura semente de abóbora e come. Santos remédios da sábia natureza. Ou seriam sábios os remédios da santa natureza? 

Fico confusa no saber daquilo que não sei. Vi Cadú aprender que dois mais quatro é seis e quatro mais dois é seis também. Todo caso, nesse caso, resolvido está: santo, sábio, sábio, santo, o que importa é se curar. E voltam todos pra acolá, correndo atrás da bola. Da cozinha, penso eu, é hora de a preta descansar. Sozinha, solto a caraminhola pra pensar, contar botões, enquanto esfrego sabão na panela. Mas que vontade a minha a essa hora! Sento um bocado e me preencho do vazio do espaço. Resolvo fazer café. Gosto de tomar um pretinho ouvindo o cantar dos passarinhos. Gosto do rádio não. É falação que cansa. No sossego, esqueço moleque, marido, farinha e fubá. Louça pra lavar, nem pensar. Só não me atentei que coada de café é que nem cheiro de pipoca, num demora pra alguém se aproximar. Num falei, lá vem Dona Diana rumando pra cá. Que diacho de fim de mundo é esse que ninguém fica só?! 

Dia desses, Seu Totonho contou que filha de Miguel, a que mudou pra cidade no começo da colheita passada, mandou carta se queixando de não ter com quem conversar. Acho mesmo é que deve a moça sofrer de parafuso frouxo. Sempre achei, com aquele jeito manso, debruçada nos livros. Gosto de livro não. É palavreado que cansa. Como pode viver no meio de tanta gente e experimentar a solidão? Pode não. Tanto carro, tanto mercado, tanta bicicleta. Cavalo? Cavalo, acho que não. Mas tem parque, salão, motocicleta e até televisão. 

Aqui, não posso dizer que gosto daquilo não, porque nunca vi. Mas imagino que cansa. Deve ser muita informação. Encerro o pensamento, pois minha colher não mistura angu do vizinho, olho pro meu umbigo e espanto a lembrança com a mão. Até porque Diana trouxe o pão e a prosa, pra acompanhar o café fumegante servido na caneca. E quando dei fé, lá vinha chegando marido meu, pra compor a roda, trazendo Seu Tião. Fala-se de chuva, plantação, bicharada, assombração. Do tempo quente e dos dias bons de banho no córrego do Guaçu. Da Maria que casou com o Antônio, na véspera do festeiro de São João. Da filharada solta na rua, ou ajudando na labuta, estudando o beabá, contando estrelas, apontando com a mão, fazendo nascerem verrugas. Das frutas, do pasto, da procissão. Do Padre que vez ou outra aparece pro sermão. Da benção. Da devoção. Que por estas bandas a vida passa assim, agarrada no divino. De outro jeito, passa não.



A poeta e prosadora Jussara Resende



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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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Comentários

  1. Da pra sentir o xerim de pipoca na bacia de esmalte*. Belo texto descritivo.

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