Lalo Arias em Cinco Poemas


Lalo Arias, autor do livro de poemas Cartas para Naíma (Editora Patuá), nasceu na cidade de São Paulo em 1953. Como todo bom geminiano, é um sujeito afeito às constantes variações no seu estilo de vida e, portanto, já abraçou inúmeras ocupações profissionais. Foi jornalista por mais de vinte anos na área de edição de arte da maioria dos grandes jornais da capital paulista. Foi dono de bar, gerente de pousada, cantor de banda de rock, escrevinhador de manuais de treinamento e viajante solitário. Foi também funcionário público no início da fase adulta. É poeta desde a juventude. Já viveu na maioria das regiões do país. Hoje em dia reside em Cunha, lugar suficientemente distante e perigosamente próximo à cidade que tanto ama e, ao mesmo tempo, tanto odeia: São Paulo.




DORMIR AO RELENTO


De onde vem
essa doce lembrança
e o simples hábito
de despertar feliz
neste tempo
de ausência
de misericórdia
e de uma palavra
com 4 letras?
De onde vem
a sensação
de que o vento
a passagem dele
corta e afaga
magoa e acolhe?
Pense no vento,
digo a ela,
ele é poderoso
só por ser invisível


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NÃO LEIO MAIS


Nem mesmo
os bilhetes da Scarlett
Os comunicados de proibição
Os classificados
Os poemas de Jose
As mensagens terroristas
As cartas de Paulo
Os mandados
Passeio pelas vitrines
Preste atenção:
há um fabuloso produto
recém-lançado
Os rótulos não interessam
Muito menos as contas
Nem a previsão
O tempo não mais importa
Chegou a hora
de deitar
acender o abajur
Teu livro está aberto
, irmão irmã: - Estou cego.


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A CAIXA DE COSTURA DE DONA ANA


Este é um lugar cheio de fraturas
Pequeno osso
transformado em botão
Outro pequeno osso
outro botão
As cores são magníficas
e elas resistem há várias vidas
Estou cheio de fraturas
e agulhadas
Também
demorei meses para abrir
a caixa
E as linhas
então
enfileiradas
continuam enroladinhas
como se estivessem prontas
Carretéis de todos os tons
prontinhos pra partir
Certamente a espera
é a minha bagagem


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O CÉU NÃO NOS PROTEGE


já fui onça pintada
aqui na beira
do rio Hovy
fui peixe lá dentro
vagando lento
meu avô também
meu bisavô
toda a estirpe
sem pressa esteve por aqui
corri na cabeceira
saltei da pedra mais alta
o rio
me acolhia
era um abraço do deus
uma ternura
desci com o vento
rolando pela mata
fui árvore
colhi frutos sem nome
afaguei macaco
plantei mandioca
criei meus filhos
dancei a sagrada música
bebi da sua mágoa
grande noite de chuva
me embebedei
de chuva
amei as mulheres
já fui pássaro
e ninho
adeus céu
adeus rio
adeus terra
não tenho mais pra onde ir


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MARIANA


há algo de errado comigo
o livro do Whitman
está de ponta-cabeça
a lata de lixo, vazia
as garrafas de água estão cheias
e não tenho sede
batata corada
é coisa que faço só pra mim
um pulmão está seco
outro, afogado
certas lembranças são impossíveis
de conter
quando penso que você pode voltar
Mariana
e que iremos até Ouro Preto
naquele trem que suspira
e nos joga um contra o outro
um abraço não nos bastaria
estou de volta
louça lavada
roupa enxuta e dobrada

a serenidade
bem que pode matar


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O poeta Lalo Arias
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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