Matheus Arcaro em Seis Poemas


Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela UNICAMP. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico e escritor, autor do romance "O lado imóvel do tempo" (Patuá, 2016) e do livro de contos "Violeta velha e outras flores" (Patuá, 2014). Seu próximo livro, "Amortalha", será publicado em outubro de 2017. Os poemas abaixo fazem parte de trabalhos ainda inéditos em poesia e selecionados especialmente para a revista POESIA AVULSA.




Amor amargo

A distância,
a andar de andor
por dentro dele,
bateu feito dardo
na carne.

Fincou-se.

E deus algum
pôde dissipar
aquela doença,
aquele sismo,
aquela dor
desembainhada.



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Análise Poética

Na visita ao analista,
a poesia reclamou dos amantes,
do arco-íris,
das íris coloridas,
dos céus estrelados,
dos lados luminosos,
dos postais, pontes e poentes.

À mostra com os dentes,
estava decidida a lançar um olhar
alijado de pedestais, flores e frases feitas.

Agora, quer rastejar pela lama,
trocar a dama pela puta. O amor pela secreção.
– Mais genitália e menos coração, senhores!

Pretende enfiar o sol no bueiro,
arrancar os testículos do absoluto
e esfregar o cu na cara do sossego.

Sim, ela precisa espedaçar a esperança.
E na dança, descalça, rodar pela praça
sem seguir receitas ou procurar clemências.

Vai, então, poesia!
Crava a língua na carne crua do presente.
Sobe a saia, goza com o sublime
e arremessa a eternidade na sarjeta.



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As lágrimas secam-me por dentro.
Não uma secura sertanezina
com as trincas da alma à mostra
e moscas a lamberem carcaças.

É uma secura que
cega as foices do ódio
do ascetismo
do remorso.

Uma secura que
lava as ausências
feito feridas.

Uma secura que
exorciza as súplicas.

Uma secura fértil:
o orgasmo dos olhos
como sêmen
do instante seguinte.




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Desfeto

Esquivei-me de mim inventando a esperança.
Fi-la alta, alva, veias à mostra, cabelos longos.
Logo que terminei,
ela atirou-me violentamente ao chão
e lambeu-me os vãos com seus olhos verdes.
Copulamos.
Engravidei do tempo,
que ficou tempo demais no meu ventre,
corroendo cada sílaba da palavra presente.

Nosso filho necrosou minhas perspectivas.
Frente ao espelho,
com lábios recheados de carnes não nascidas
lembro-me do dia em que a Esperança largou-me
E alargou a vala entre o desejo e os fatos.

Fiquei comigo. Sem futuro.
Somente com o tempo no útero.



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Eternidade nua

A penumbra invadia a janela
e realçava a rouquidão das retinas.
A voz envelhecida
revelava teu verso:
embaraço de traços,
traças num abraço suado.
Nos gestos encharcados,
vi o velório do sentimento
que um dia
tomou de sequestro nossos sentidos.
– Por que, amor?
– Não sei. Pergunte à rotina.



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Temporais

Há os que estão sentados na esperança,
aguardando o fim de semana,
o mês seguinte,
o ano em que os astros se alinharão.
O alívio dos dias úteis.

Na casa das máquinas ao lado,
há os acorrentados.
Mastigando as migalhas
endurecidas de Cronos.
Suspirando pela ferrugem dos ponteiros.

Há, por fim,
os que intuem o instante.
Os que dançam
sobre a mortalha da eternidade.
Há os que vivem.


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O prosador e poeta Matheus Arcaro
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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