Resenha: Afronta Fronteiras de Lucas Bronzatto



O poeta mídia-ninja


Lembro de quando conheci o Lucas Bronzatto, lá em 2013. O furor das manifestações tinha acabado de passar e levado um pouco de nós todos, como se uma carruagem infernal tivesse nos atropelado e arrebatado parte de nossa alma. Sujeito simpático e com sotaque político lá de São Paulo, volta e meia encontrava o Lucas nos saraus do Rio. Vê-lo lendo seus poemas em público era uma espécie de epifanía. Poeta combativo, ao falar seus poemas punha tudo de si, exorcizava seus políticos corruptos e problemas sociais. Era um processo de purificação, de catarse. O Lucas tremia da cabeça aos pés de raiva. Lembro que os papéis onde levava seus poemas escritos farfalhavam nas mãos dele, como folhas secas de outono e não sei como ele conseguia ler aqueles papéis que cada vez ficavam mais amarrotados, imitando a própria alma dele. Vai ver ele tinha os poemas decorados e olhava para o papel buscando consolo para a terrível realidade que se abria diante dele. Assim como o gato que vomita bolas de pelo, as palavras saíam da boca dele como se ele estivesse prestes a vomitar bolas de papel, previamente devoradas. Tinha muito medo que o Lucas estivesse se alimentando de manuscritos apenas.

Lembro depois de ter visto uma foto em que o Eduardo Galeano recebe de alguém o primeiro livro de poemas do Lucas Bronzatto, o “Cantos Tortos”. Eduardo Galeano que eu não consegui ver em 2014, porque no dia em que ele foi à PUC, eu tive muitos imprevistos, o maior deles foi estar apaixonado. Então, não pude ver o Galeano. Era o amor ou a literatura. A história que eu estava vivendo era meu próprio “Livro dos abraços”. Escritor da minha terra materna, eu admirava muito o Galeano já naquela época, e o Lucas também, mas disso eu não sabia. Fiquei imaginando aquele livro do Lucas viajando com ele por aí, indo para o Uruguai, que estava muito distante de mim por causa da saudade que sempre aumenta as distâncias. Um Uruguai que eu não sabia quando veria de novo. O “Cantos tortos” nas mãos do homem que escreveu o Livro dos abraços, sendo lido sabe-se lá onde, com um destino tão surpreendente e misterioso. Que vontade de ter um livro também para entregar ao Galeano. Depois eu comprei o livro do Lucas Bronzatto, num sarau, da mão do próprio poeta, autografado, só para ter o mesmo livro que o Galeano tinha e talvez chegar a ter algum pensamento parecido ao uruguaio. Ou vai ver comprei antes disso. Os anos provavelmente estão me traindo e me fazendo dizer o que não houve, o que não senti e sinto agora.

Aí pouco tempo depois o Eduardo Galeano morreu. Eu fiquei sem entregar o livro que eu ainda nem tinha escrito para ele e o livro do Lucas foi parar vai saber onde. Talvez ainda repouse na biblioteca do escritor morto. As bibliotecas nunca morrem, pelo menos isso. Não lembro de ter tido oportunidade de comentar o livro dele com alguém, nem mesmo com ele. Faz tempo que li. Lembro que tinha uma divisão de poemas por cores e de não saber como sei hoje que o título do livro é, possivelmente, uma referência a uma música do cantor Belchior, também morto recentemente. Agora, lendo o segundo livro de poemas do Lucas Bronzatto, sensações parecidas às que tive ao ler o primeiro livro me voltaram. Ou vai ver que tenho agora as impressões que não tive. Ou ainda estou criando as impressões que devia ter tido. Ou quem sabe sinto neste livro as impressões que eram do outro livro. Toda memória poética é dèjá vu.

Afronta fronteiras” acentua esse canto torto feito faca que vai cortar a carne de vocês. Vejo um canto aperfeiçoado. Um canto mais afinado. O segundo livro dele revela uma poesia que fez aula de canto e agora projeta melhor a voz, aprendeu a respiração diafragmática. O poeta precisa aprender a extrair de si o seu canto, dar vazão a ele, e este canto vem mesmo de dentro.

A poesia aqui comunga com os latino-americanos, o que é pouco comum no Brasil. O sentimento de “latinidade” aqui aparece bem forte. Influência, entre outros tantos/cantos hispânicos, do próprio uruguaio(Galeano), escritor de “As veias abertas da América-Latina”. Lucas parece ter escrito esses poemas com o sangue dos pulsos recém cortados de nosso continente que foi e continua a ser devastado por colonizadores e ditadores. A comunhão do poeta com seu próprio continente tem muito a ver com uma revolução que ainda precisa ser feita, dos países irmãos dando as mãos e curando as feridas da América-Latina, que padece na enfermaria de uma guerra sem fim por direitos iguais, distribuição de renda, preconceitos, corrupção política, saúde pública, educação, educação, educação, cultura para todos, democracia(real), fim da miséria, etc ad eternum... São muitos os etcéteras. Por afrontar a fronteira de seu próprio país e se situar como nativo de todo um continente, essa poesia já tem seu valor, o Brasil amplia suas fronteiras para receber os povos irmãos que vem rejeitando há anos. Afinal de contas “Pátria é negócio de patrão”(poema Vermelho, p.6).

O poema é visto como lugar de manifestação, de movimento social em que a bandeira dessa luta, o estandarte, são os pezinhos de um menino pobre cuja infância é roubada. Uma ação direta é urgente. Pois, ao que tudo indica, nem os mais tocantes versos sobre a injustiça convencerão um latifundiário a ceder suas terras aos camponeses. Lucas Bronzatto faz da poesia um verbo de ação, um ato sem partido que não seja a liberdade de expressão. É o direito de ir e vir de um devaneio a outro sem passar pela realidade. Quase tudo neste parágrafo deveria estar entre aspas, mas não resisti a afrontar a fronteira entre a primeira e a terceira pessoa do discurso.


Persiste


Enquanto você lê um poema de três páginas
cinco mulheres são espancadas por homens no Brasil
Enquanto você lê um poema de cinco versos
quem contava quantas foram humilhadas
perdeu a conta”(p.19)


O poema convoca à vida, a sair da página e olhar a realidade. Assim como o teatro brechtiano, que suspende a catarse do público para fazê-lo se sentir incomodado, desperto, lúcido, a poesia de Lucas não deixa o leitor se comover, nem deleitar. A catarse purifica e o espectador precisa ir para casa impuro, consciente, para poder tomar uma atitude, intervir, provocar a mudança. O tempo todo o leitor é lembrado de que está lendo um livro em vez de agir. Como quem diz a realidade é tão grande, não nos afastemos, vamos de mãos dadas, igual aquele poema do Drummond que também não é necessário citar corretamente nem entre aspas. “Graças aos pés na rua/ só foi embora o que era ingênuo”(poema Purgatório, p.27)

Os poemas de Afronta fronteiras são escritos por um poeta mídia-ninja e cada poema é uma denúncia, algo que não vimos, que faltou passar no jornal, que faltou dizer. Perpassa o livro uma poética da denúncia. Com a diferença de que Lucas Bronzatto diz seu nome e sobrenome. Diferente do disk-denúncia, aqui a revelação do paradeiro do problema não é feita de maneira anônima e não é paga nenhuma recompensa enquanto a utopia não for moradia popular. Amanhã vai ser maior. E o amanhã vai ser maior.

Um recurso muito utilizado no livro é o da paródia. Podemos ver isso nos poemas “Águas da Samarco”, “Desconstrução”, “Quintanar anti-fascista”, “Sem a outra face(Ou ‘usando o quintanar anti-fascista’)” e “Quando os pacientes perderem a paciência”. O que parece muito natural diante de uma realidade tão deformada quanto a atual. A paródia parece um artifício contra o desespero, o “rir para não chorar” que todo mundo já está tão cansado de saber que também nem precisava de aspas. A apropriação de discursos alheios e enunciados do povo, bem como de outros poetas, é uma característica da poesia de Bronzatto, que assim parece querer revalorizar essas sentenças, mudando seu contexto. Há, portanto, a procura de uma fala comum, de uma linguagem em comum, pela repetição, pela apropriação, em que eu tento mais me parecer com você e menos singularizar minhas próprias falas. A procura do entendimento geral, do coletivo, prioriza um lugar comum(e por isso habitado por todos, não só por mim), numa espécie de altruísmo linguístico, onde é mais importante o que você diz do que o que eu digo, mais importante também o que nós todos entendemos do que você diz do que o que você quis dizer. Afronta fronteiras foi publicado pelo autor de maneira independente e ele diz nos “dados de catalogação” do livro que os seus poemas foram escritos para serem espalhados por aí, citando, se julgar necessário, a autoria. Daí se entende um pouco do que está em jogo aqui.

O poeta abre mão da poesia pela revolução. Poderíamos dizer que o projeto ideológico é mais importante que o projeto estético. Isso me faz lembrar dos surrealistas Paul Éluard e André Breton que se filiaram ao partido comunista e acabaram expulsos pouco tempo depois. Enquanto Louis Aragon abandona o Surrealismo em função do partido comunista. Qual revolução fazer, a política ou a literária? Uma pergunta que sempre paira no pensamento de um poeta. E Lucas Bronzatto diz “com a caneta de lado/ fizemos um poema/ e era verde/ como os olhos da meninazinha”(poema Feito as mãos, p.41). O poeta relata na parte Sobre o autor do livro que o melhor momento de sua carreira foi quando trabalhadores de uma ocupação chamaram um de seus poemas de ‘ode à real mudança que queremos’ e difundiram nas redes sociais versos de “Quandos os pacientes perderem a paciência”.

Tantas as urgências, que o livro reflete bastante sobre o papel da poesia, a utilidade dela e a relevância dela em tempos como este, numa espécie de dualidade, em que a necessidade de fazer se choca com a culpa pelo fazer. ‘Não era bem de poesia que precisávamos, precisávamos da revolução, do prato na mesa, de político na cadeia, mas já que por enquanto não dá, ficamos com a poesia e, já que é para ficar com a poesia, vamos tentar fazer dela um grito de vem pra rua’, imagino o eu-lírico dizendo algo assim.


Chega, né?
Você já não tem mais cidade
para acreditar em contos de fardas”(p.43)


É configurada desde um primeiro momento, uma arte poética da barbárie, em que a palavra é, ao mesmo tempo impotente contra o mundo, e necessária ao eu de nós todos, um artefato de defesa anti-fascista, uma barricada. Uma atividade criativa que é a cara de nosso continente e que pode até mesmo ser a única forma de fazer arte na América do Sul, dialogando com a barbárie. Num dos poemas, lemos “as dores sem pátria/ tão minhas”(poema Arte poética de los Andes, p.53) e é mesmo sobre isso que Afronta fronteiras fala, sobre todos os desterrados que tem de ir além de sua fronteira porque ainda não há uma fronteira possível, sabemos apenas que estamos além dela, aquém dela. É preciso falar sobre todas “as estrelas silenciadas pelos generais nas ditaduras”(p.54) e sobre todos os exilados, os ninguéns. Fomos educados pela barbárie. E feliz ou infelizmente, “Fronteira é uma palavra/ de algum idioma que não se fala aqui”(poema Playa, p.56). A poesia é sempre um lugar de fronteira, fronteiriço ao nada, onde a fronteira pode ser tanto criada quanto atravessada e onde os idiomas que ainda não se falam começam a ser praticados. “Carrego um exército de oprimidos nos ouvidos”(poema Sem a outra face(Ou ‘usando o quintanar anti-fascista’, p.86), as opressões, as mortes, os desmandos, os genocídios, os extermínios latino-americanos são como fantasmas falando nos ouvidos de Lucas Bronzatto e, o poeta, médium da humanidade, precisa reverberar essas vozes. As vozes de nosso continente fantasmagórico, mágico, em que muitas ilusões se perderam e a desilusão é o nosso melhor truque.


Arte poética da barbárie


Feito um defeito desfeito
deixar transparecer nos versos feitos
as causas dos efeitos
como um desilusionista” (p.68)



por Vinicius Varela

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Detalhe da capa do livro Afronta Fronteiras 

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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Comentários

  1. Parabéns André Merez.
    A Revista "POESIA AVULSA" está show.
    Abração.

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  2. Ótimo texto!" O poeta abre mão da poesia pela revolução"... porquê a revolução é poema soco no estômago...

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