Resenha: Sumi-ê de Nydia Bonetti

Por André Merez


Dizer muito em poucas palavras é tarefa árdua, ao contrário do que se possa equivocadamente imaginar. Economizar palavras na feitura de um poema não é arte das mais simples. Esse poder de síntese exige do poeta um trabalho anterior de envolvimento profundo com o tema e conhecimento da carga semântica das palavras que pretende utilizar. Poetas como Orides Fontela na maior parte de sua produção ou mesmo Giuseppe Ungaretti em seu famoso “M’illumino d’immenso” o fizeram da maneira mais exemplar que se possa imaginar. E é dessa mesma forma que se dá a experiência da leitura do Sumi-ê de Nydia Bonetti.

São poemas curtos porque condensam em suas poucas e exatas palavras o essencial que é fruto da contemplação e da vivência mais íntima com o universo temático a que a autora se propõe. Habitados por pedras, árvores, flores e ventos, os versos de Sumi-ê imprimem no leitor uma visão ocidental (sim ocidental) de uma poeta que soube captar da cultura oriental a instrumentação necessária para registrar o íntimo natural e sua espontaneidade. Seria um equívoco delimitar a área de atuação da poeta apenas à mera reprodução desse universo oriental. Há mais coisas envolvidas nesse livro, assim como há muito mais a ser observado na trajetória poética de Nydia. Mesmo advindos de uma motivação nascida nas artes orientais como o próprio sumi-ê, o haiku e em alguns momentos até o wabi-sabi, os versos de Nydia deixam entrever um aroma de terra, uma atmosfera interiorana e uns silêncios de cidade pequena; atitude de quem foi criança perto do mato, brincando com folhas e dialogando com as singelezas dos passarinhos.

nada havia no caminho
rodeado de nadas
- sertão
surgiu a flor

A imagem da flor muitas vezes é personificada e tratada quase como um ser pensante, protagonista dos cenários minimalistas que a poeta cria; os palcos vazios onde ela, a flor, encontra o isolamento necessário para o seu simples “ser flor”. A solidão não é triste, mas necessária ao exercício da contemplação. Como se o ambiente de isolamento fizesse a flor ser mais essencialmente flor, sem a necessidade doentia de ser contemplada, sem a obrigação de ser bela, sem as armadilhas do pensamento do que convencionalmente espera-se que seja uma flor. Em Sumi-ê a flor simplesmente é flor em si e se basta.


mas de que serve
a flor
no vale rude
onde
a chuva
não
chega
e o vento
se nega a soprar?

Os caminhos do rio, seus silêncios e sua avidez <de lua e mar> são percorridos pelas águas <que se despedem das nascentes> e seguem sob o pressentimento de Nydia. Tudo em Sumi-ê é eivado de uma relação de intimidade muito aparente entre a poeta e a natureza que a habita e transborda dos seus poemas como um jorro manso de um riacho distante e solitário. Todas as sonoridades do natural em seu estado de existência mais puro são ouvidas sutilmente, quase imperceptíveis como um background que acompanha o leitor ao longo dos caminhos do livro, já que o o silêncio é elemento de importância capital para a contemplação.

peço silêncio
há uma flor: - se abrindo
no jardim

O livro de poemas de Nydia Bonetti não foi feito para se ler com pressa , o ritmo da leitura tem de se apoximar do ritmo da natureza, acompanhar o tempo próprio do que é natural, e essa condição é de extrema importância para que o leitor retire de sua leitura tudo o que o livro tem a oferecer. O verso <de barro> precisa de quem o sopre, de quem o observe como se observa um galho, uma pedra, a calma de um lago.

de que me vale o verso feito
de barro
se não houver
quem
o sopre?


Conhecer o Sumi-ê é também uma forma de compreender a poesia como ‘devoção interna’, como um exercício de afastamento temporário de qualquer manifestação do intelecto para, aí sim, aproximar-se adequadamente da disposição necessária para sua revelação. E há muito mais a ser apreciado calmamente nesse livro que, a cada vez que retornamos, nos apresenta uma outra folha antes ignorada, uma pequena pedra a um canto, um resto de vento, uma estrela, um lago e um sol.

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Detalhe da capa de Sumi-ê

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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