Resenha: Vi e/ou Vi que o Vento é Aqui de Virginia Finzetto

Lançado pela Scenarium em uma bela edição artesanal, o livro de poemas de Virgínia Finzetto “Vi e/ou Vi que o vento é aqui” tem a feição de uma poesia que nasce madura. Uma coletânea de poemas que se fortaleceram antes de se darem à leitura, fruto do trabalho de uma poeta que se sabe tardia ou se quis tardia (em livro) talvez por um senso crítico axacerbado, ou por mera falta de vontade de publicar, mesmo. Tudo em Virgínia parece ser assim, espontâneo. Quem a conhece pessoalmente (e eu tenho esse prazer) sabe bem disso. Arrisco dizer que sua poesia é despojada, livre mesmo de procurar feições, estas ou aquelas, que possam atender qualquer escola que se insinue como ‘o caminho dos novos’, mas nem por isso deixa de ser nova.

Ao entrar no livro depara-se com o ‘eu’ da voz poética criada por Virgínia na primeira parte intitulada ‘Tudo Eu’. Um eu cheio de ímpeto e de atitude, de modo que poesia e poeta se lançam < quem não quiser que fique no parapeito, eu vou é voar >. Aprender com as quedas < eu só aprendo quando despenco > é aprender fazendo, aprender a voar depois que já se encontra em queda livre. Essa capacidade de compreender que a liberdade anda de mãos dadas com a libertinagem, essas duas forças são indissociáveis, são praticamente a mesma coisa.

Ao lançar-se à segunda parte, ‘Tudo Elas’, o leitor encontra uma poesia do embate declarado contra a figura formatada e padronizada da mulher submissa, das mulheres que < tomam té no palácio de cristal >. Ao contrário, a mulher apresentada por Virgínia é livre < no interior vivia Berta, a puta, que no bordel exalava certa fragrância de ausência >. Não se trata de poesia ‘feminista’, mas de uma poética da (tão necessária) libertinagem feminina. Uma poesia escrita por uma mulher que tem clareza da necessidade de ser livre e libertina.

Em ‘Tudo Nós’, Finzetto amplia a temática e torna-se o mais abrangente possível. No belíssimo poema Co[ser], percebe-se uma preocupação em reverenciar elementos da poesia popular < rico sem renda, marujo sem fita > o que torna o livro ainda mais interessante em sua pluralidade de vozes. Ainda e um pouco mais à frente, em ‘Humores’, o despojamento da poeta toma fôlego e encontra-se ‘rapunzel das candongas’, um poema que de alguma forma parece resumir o que a poesia de Finzetto, pelo menos nesse livro “Vi e /ou Vi, parece ter como eixo principal. A intenção clara de desconstruir divertidamente o que precisa ser desconstruído.

A experiência amorosa, tudo (tudo mesmo) que o amor pode ser é perseguido (mas não alcançado, é claro) por Virgínia na seção do livro intitulada ‘Amores’. Todos os gostos e desgostos do que se convencionou chamar de amor, ou do que pode ser amor para cada pessoa, são apresentados sob um pano do cotidiano como ele é, do amor como ele é, sem o encastelamento a que normalmente essa temática é submetida, sem os brilhos e as luzes exageradas que mais o escondem do que o revelam.

As ‘Dores’ e os ‘Dissabores’, como não poderia deixar de ser quando se trata da poesia de Virgínia Finzetto, não perdem um forte sabor de irreverência, o que em alguns momentos aproxima a poesia desse livro do conceito da blague e do poema-piada oswaldiano.

Esse despojamento e o trato irreverente e até mesmo bem humorado de seus versos, fazem da leitura desse livro uma experiência divertida e agradável. Quem tiver o coração sangrando, ou as veias satíricas saltadas no pescoço não deverá se aventurar em suas 106 páginas. Vi e/ou Vi é um livro para ser lido sem reservas e sem moderação. Um livro vivo, livre dos fantasmas e das assombrações. Uma declaração de que a poesia pode (e deve) seguir sendo o que ela e o poeta decidirem que ela seja.


Por André Merez

_
Arte da capa: Gravura digital da série Morada da Luz (IV), 2006, 
da artista plástica Juliana Serri
c_


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


_

Comentários

  1. André, seu olhar dissecou meu livro com a precisão cirúrgica de quem maneja um bisturi a laser. Com cortes precisos, e sem sangramentos desnecessários, você foi abrindo cada página com total domínio até o final. Sua leitura descreveu sensivelmente as veias importantes que percorrem no íntimo desse corpo, extensão do meu. Imensa gratidão, poeta.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Poetas mais lidos na Poesia Avulsa:

Conceição Evaristo: Cinco Poemas Definitivos

Patativa do Assaré: Poemas de Luta e de Terra

Três poemas de Raul Bopp

Adriane Garcia: Poemas de Quase Amor

Cesare Pavese: Três Poemas Traduzidos

Tarso de Melo: Íntimo Desabrigo

Roque Dalton: Um Poeta Guerrilheiro

Alberto Bresciani em Seis Poemas

Seis poemas visuais de Fabiano Fernandes Garcez

Micheliny Verunschk: Poemas Esparsos