Roque Dalton: Um Poeta Guerrilheiro

Roque Dalton nasceu em 14 de maio de 1935, em San Salvador, El Salvador. Estudou direito e antropologia nas Universidades de El Salvador, Chile e México. Desde muito jovem se dedica ao jornalismo e à literatura, obtendo diversos prêmios nacionais e centroamericanos. Publica seus primeiros poemas na revista Hoja, de San Salvador e também no Diario Latino.

Foi um dos participantes da renovação da lírica latinoamericana da década de 60. Obteve em três ocasiões o Premio Centroamericano de Poesía e uma vez o Premio Casa de las Américas, pelo livro “Taberna y otros lugares”.

Aos 22 anos entrou no Partido Comunista Salvadoreño. Sua atividade literária corre paralela à militância revolucionária e o reconhecimento do valor de sua literatura coincidiu com suas primeiras prisões e exílios. Exilou-se na Guatemala, México, Cuba, Tchecoslováquia, Coreia, Vietnam do Norte e outros países.

Mais tarde, foi um dos fundadores do Exército Revolucionário do Povo (ERP), uma base importante para o que viria a ser a guerrilha salvadorenha. Morreu assassinado no dia 10 de maio de 1975, atuando na guerrilha. Ele foi “justiçado” por seus próprios companheiros de organização, pois seu jeito heterodoxo, irreverente, provocativo, irônico e questionador foi interpretado pela moral conservadora desses militantes como uma vinculação com a CIA, como um infiltrado que tentava destruir por dentro a luta comunista. Assassinavam injustamente um dos poetas que mais lutou pela libertação de seu povo (El Salvador) e punham fim a escritura genial deste guerrilheiro.

Os poemas a seguir foram traduzidos pelos poetas Jeff Vasques e Lucas Bronzatto, que estão organizando uma antologia do autor, em português.



ATA


Em nome de quem lava roupa alheia
(e expulsa da brancura o sebo alheio)
Em nome de quem cuida de filhos alheios
(e vende sua força de trabalho
em forma de amor maternal e humilhações)
Em nome de quem habita um domicílio alheio
(que já não é ventre amável mas sim uma tumba ou cadeia)
Em nome de quem come pães amanhecidos alheios
(e ainda assim mastiga-os com sentimento de ladrão)
Em nome de quem vive num país alheio
(as casas e as fábricas e os comércios
e as ruas e as cidades e os povos
e os rios e os lagos e os vulcões e os morros
são sempre de outros
e por isso estão aí a polícia e a guarda
protegendo-os de nós)
Em nome de quem o único que tem
é fome exploração doenças
sede de justiça e de água
perseguições condenações
solidão abandono opressão morte
Eu acuso a propriedade privada
de privar-nos de tudo.


_




COMO VOCÊ


Eu, como você,
amo o amor, a vida, o doce encanto
das coisas, a paisagem
celeste dos dias de janeiro.

Também meu sangue ferve
e rio pelos olhos
que conheceram o brotar das lágrimas.

Creio que o mundo é belo,
que a poesia é como o pão, de todos.

E que minhas veias não terminam em mim
senão no sangue unânime
dos que lutam pela vida,
pelo amor,
pelas coisas,
pela paisagem e pelo pão,
pela poesia de todos


_




A NOITE DA CÓLERA


Em 19 de agosto de 1960 as forças repressivas do Governo de El Salvador, depois de atacarem selvagemente uma manifestação estudantil, sitiaram a Escola de Medicina, em cujo interior se protegeram e resistiram durante uma noite e um dia, quase trezentos estudantes universitários. Com esta ação de força começou a transbordar a barbárie que caracterizou o período final da ditadura de Lemus. O autor destes poemas permaneceu na Escola de Medicina cooperando na organização da resistência estudantil diante da força dos facínoras, representantes da oligarquia salvadorenha e do imperialismo norteamericano.


Perguntas, perguntas...


Mas, o que está acontecendo aqui? Que mudança é esta?
São estes jovens elásticos,
de ar vertiginoso e gesto enérgico,
os mesmos de algumas horas atrás,
os de todos os dias familiares e fáceis
os da namorada doce e a aula barulhenta,
os da alegre piada na cervejaria,
os do desvelo entre a parca flor do livro,
os do passo cordial entre os hospitais,
os do trato comum com Píndaro e Virgílio?

Que fazem com esse sangue no cabelo?
Que fazem com esse grito feroz na garganta?
Que fazem com essas pedras nas mãos contraídas?
Que fazem com esse fogo saindo dos olhos?
Que fazem, de onde tiram seus gestos ásperos,
suas madeiras alçadas ao nível da ira?

Olhe para fora nas ruas, companheiro,
interroga a noite da pátria.
Você não vê o Coronel, pulcro e vil, com sua metralhadora?
Não vê o rude guarda nas esquinas
cuspindo a raiva que lhe pagam ao mês?
Não vê o policial, que ontem era meu irmão camponês,
meu irmão desempregado,
meu maltrapilho irmão escravo como todos,
esgrimir seu insulto e seu porrete
contra a luz que também o salvará?

Interroga a noite da pátria
e ela te dirá o amargo dos dias que vêm:
neles trocaremos a canção pelo grito,
a mão inofensiva pelo punho violento,
os livros e a caneta pelo rude fuzil.

Mas depois virá a luz que te dizia...



_




Meu irmão Luis e eu


Meu irmão Luis e eu temos falado seriamente,
e é a primeira vez. Se os policiais
e os guardas atacarem a Escola,
vamos resistir até o fim;
temos pedras e corações maiores que as pedras
e
o que é mais importante, conhecemos
as causas da luta.

Se algum dos dois cair lutando
o outro levará flores à mamãe
e lhe dirá que para ela também
há lugar em nossas fileiras.

É estranho,
mas até diria que me sinto feliz...


_



Cólera


São cinco da manhã
e chove com a fúria que todos esperávamos.
Faz frio na nossa pele molhada,
somente na pele molhada,
porque no coração
o fogo acordou violento
como uma nobre fera por algum tempo adormecida
Meu companheiro Rivera solta sangue pela boca
- sei que isso não é poético
mas é o que acontece agora -
meu companheiro Ramirez tem um ombro quebrado,
meu companheiro Escobar morde os lábios de dor e raiva
mas com seu braço sadio pinta cartazes de protesto.

Nos cortaram a água e os bombeiros cúmplices
alçam as escadas de assalto

Mas, o que está acontecendo?
Por que tanto vacilam os canalhas?
Será que têm medo dos fracos?

Que venham os covardes com seus rifles!
Que venham com suas ordens de morte!
Nós estudantes também conhecemos a cólera
quando os porcos mancham as salas do decoro!

19-20 de agosto, 1960




_



ALTA HORA DA NOITE



Quando souberes que morri não pronuncies meu nome
porque se deteria a morte e o repouso.
Tua voz, que é o sino dos cinco sentidos,
seria o tênue farol buscado por minha névoa.
Quando souberes que morri diga sílabas extravagantes,
pronuncia flor, abelha, lágrima, pão, tormenta.
Não deixes que teus lábios achem minhas onze letras.
Tenho sonho, amei, ganhei o silêncio.
Não pronuncies meu nome quando souberes que morri:
Desde a escura terra viria por tua voz.
Não pronuncies meu nome, não pronuncies meu nome.
Quando souberes que morri não pronuncies meu nome.


_




OS POLICIAIS E OS GUARDAS



Sempre viram o povo
como um montão de costas que corriam pra longe
como um campo para deixar cair com ódio os cassetetes.

Sempre viram o povo com o olho de afinar a pontaria
e e entre o povo e o olho
a mira da pistola ou a do fuzil.

(Um dia eles também foram povo
mas com a desculpa da fome e do desemprego
aceitaram uma arma
um cassetete um soldo mensal
para defender os que causam fome e aos que desempregam).

Sempre viram o povo aguentando
suando
vociferando
levantando cartazes
levantando os punhos
e também dizendo-lhes:
Cachorros filhos da puta o dia de vocês vai chegar!”

(E cada dia que passava
eles acreditavam ter feito um grande negócio
ao trair o povo do qual nasceram:
O povo é um monte de fracos e sem vergonhas -pensavam-
que bem fizemos ao passarmos para o lado dos vivos e dos fortes”).

E então era só apertar o gatilho
e as balas iam da margem dos policiais e guardas
contra a margem do povo
assim iam sempre
de lá pra cá
e o povo caía sangrando
semana após semana ano após ano
quebrados seus ossos
chorando pelos olhos de mulheres e crianças
fugia espantado
deixava de ser povo para ser tropel vermelho
desaparecia na forma como cada um se salvava
para sua casa e logo nada mais
só os bombeiros lavando o sangue das ruas.

(Os coronéis acabavam de os convencer:
É isso homens -lhes diziam-
duro e na cabeça com os civis
fogo com o populacho
vocês também são pilares uniformizados da Nação
sacerdotes de primeira linha
no culto à bandeira ao escudo ao hino aos próceres
à democracia representativa ao partido oficial e ao mundo livre
cujos sacrifícios não esquecerá a gente decente deste país
ainda que hoje não possamos subir vosso soldo
como é nosso desejo”).

Sempre viram o povo
franzido no quarto das torturas
pendurado
espancado
fraturado
inchado
asfixiado
violado
furado com agulhas nos ouvidos e nos olhos
eletrocutado
afogado em urina e merda
cuspido
arrastado
soltando fumaça em seus últimos restos
no inferno da cal viva.

(Quando resultou morto o décimo Guarda Nacional. Morto pelo povo
e o quinto rato bem esmagado pela guerrilha urbana
os ratos e os Guardas Nacionais começaram a pensar
sobre tudo até porque os coronéis já mudavam de tom
e a cada fracasso jogavam a culpa
aos “elementos da tropa tão moles que temos”).

O fato é que os policiais e os guardas
sempre viram o povo de lá pra cá
e as balas só caminhavam de lá pra cá.

Que pensem muito…
que eles mesmos decidam se é muito tarde
pra buscar a margem do povo
e disparar dali
ombro a ombro
junto conosco.

Que pensem muito…
mas, enquanto isso,
que não se mostrem surpreendidos
nem ponham essa cara de ofendidos,
hoje, quando algumas balas
começam a chegar até eles vindas deste lado
de onde segue o mesmo povo de sempre
só que a esta altura já estufa o peito
e traz cada vez mais fuzis.


_




A GRANDE BURGUESIA


Os que produzem a aguardente
e depois dizem que não tem que aumentar o salário
dos camponeses
porque vão gastar tudo em aguardente

Os que na vida familiar
falam exclusivamente em inglês
entre quadros de Dubuffet e cristais Bohemia
e fotografias de tamanho natural
de éguas trazidas de Kentucky e de Viena
e nos cobram diariamente em suor e sangue
seu doloroso despertar cotidiano
neste país de índios sujos
tão longe de New York e Paris

Os que compreenderam que Cristo
quando se olha direito as coisas
foi realmente o Anticristo
(por tudo isso de amai-vos uns aos outros
sem distinguir entre os esfarrapados e as pessoas decentes
e isso dos cristãos primitivos conspirando
na cumplicidade das catacumbas
e da agitação contra o Império Romano
e o peixe tão parecido com a foice e o martelo)
e que o verdadeiro Cristo nasceu neste século
e se chamou Adolf Hitler

Os que votam em El Salvador
no presidente eleito dos Estados Unidos

Os que propiciam a miséria e a desnutrição
que produzem os tísicos e os cegos
e depois constroem
sanatórios e centros de reabilitação de cegos
para poder explorá-los
apesar da tuberculose e da cegueira

Os que não tem pátria nem nação aqui
mas só uma quinta
limitada ao noroeste com Guatemala ao norte com Honduras
ao sudeste com o golfo de Fonseca e Nicarágua
e ao sul com o Oceano Pacífico
quinta na qual os americanos vieram
pra montar algumas fábricas
e onde pouco a pouco foram surgindo
cidades povos vilas e aldeias
cheias de brutos que trabalham
e de brutos armados até os dentes que não trabalham
mas mantêm em seus postos
os brutos que trabalham

Os que dizem aos médicos e aos advogados e aos arquitetos
e aos agrônomos e aos economistas e aos engenheiros
que quem a boa árvore se acolhe boa sombra o cobre
e que é preciso fazer a cada ano Códigos Penais mais drásticos
e hotéis e casinos iguais aos de Miami
e planos quinquenais iguais aos de Porto Rico
e operações civilizadoras
que consistem em eliminar a mancha azul do cu
dos distintos senhores e senhoras
e regadios que levem a pouca água de todos
exclusivamente para a terra onde cresce
essa boa árvore que tão boa sombra dá
principalmente aos que não estão profissionalmente dispostos
a deixar de ignorar tantos fedorentos e tantos descalços

Os que para ter liberdade de imprensa
e direitos constitucionais
compraram jornais e rádios e centrais de TV
com tudo e jornalistas e locutores e câmeras
e compraram a Constituição política com tudo e
a Assembleia Legislativa e a Corte Suprema de Justiça

Os que para dormirem seguros
não pagam o vigia do quarteirão ou do bairro
mas sim diretamente ao Estado Maior Conjunto
das Forças Armadas

Os que
efetivamente
têm tudo que perder


_




DATILÓGRAFO


Você sai de sua casa nas manhãs
com cheiro de sabonete pensando nos vasos
de cravos no dano que as crianças lhes causam
você já está bem do resfriado o sol
tem gosto de conhaque barato bebido em goles longos
seria a manhã um copo indescritível um copo
em cujo fundo fica sempre a ressaca
das alegrias de ontem de outros ontens como ontem?

Você não se importa
pega o ônibus em frente à Penitenciária
aí ficam –faz frio faz febre– os propensos à violência
os assassinos os ladrões os poetas os loucos
os revolucionários os santos do alto-falante
os imprecadores pelo amor
com os olhos abertos

Mas você não se importa
desce perto do escritório
e compra um jornal como todos os dias:
invadiram –finalmente– Cuba
do alto o fogo matou crianças nas praias cidades e
[mais crianças
você passa logo para as tirinhas a solução –cantarola–
das palavras cruzadas o horóscopo Gêmeos e sua boa estrela
ela nasceu em touro com seus olhos azuis–
a partida do domingo foi suspensa
por causa do estado de emergência nacional –lamentável–
novos presos políticos a polícia baleou um operário
grande campanha anticomunista persegue-se
com grande ardor patriótico as organizações clandestinas

Você não se importa
sobe as escadas bom dia doutor
muito bom dia senhor chefe de seção
muito bom dia –você abaixa a cabeça– como vai
senhor –você sorri– diretor

Logo você se senta em frente à máquina
resplandescente como uma opala na barriga de um grande peixe
beatífico o sorriso satisfeita a pele
nua entre a roupa e os sapatos–
alonga seus dedos brancos de pianista
(eu vi num filme o Chopin o pobre
morreu tísico – sangue no lenço – por excessos de amor)
seus dez dedos pulcríssimos e tac
tac tac tacatac você não se importa
nada tacatac
eternamente tac
tacatac
o poço é fundo tac
tacatac tac
tacatac


_




TERIA DITO OTTO RENÉ CASTILLO* PENSANDO EM LENIN


Ninguém vai à montanha buscar a glória. Ninguém
que não seja um imbecil, quero dizer. No fundo
ninguém elabora sua poesia pela glória. Ninguém
que seja um poeta, quero dizer. Admito
que os que vão à montanha, em ocasiões
se colocam o problema da morte eventual
em forma quase sensualista. Mas os poetas
costumam ser sensualistas e até obscenos, pode-se dizer.
Ir à montanha hoje na América Central
é aceitar o problema pessoal da vida e da morte
em uma proporção de sessenta por cento para a morte
e de quarenta por cento para a vida.
Assumir estas cifras
não é um desvio católico do marxismo. O inimigo
é mais forte que nunca porque nós
somos mais débeis e estamos mais divididos que nunca. Ir
à montanha é um ato político-militar
e não uma atitude poética tradicional. Se trata de por
uma pedra em nosso prato da balança
e não de uma efusão espiritual. Assim
cada um é livre para ir-se à montanha com
sua poesia, suas efusões espirituais, seus amuletos**.
Na verdade, as unidades guerrilheiras transbordam de poesia,
efusões espirituais e amuletos, mas se servem mais
e melhor da boa pontaria, da resistência física e das facas de caça.
Estas são algumas verdades que honram sobremaneira ao poeta guerrilheiro.
Em geral, é certo que o sacrifício
que não tenha uma eficácia real na história é idiota.
Creio que esta é uma conclusão de espírito leninista.
Porém, quem pode saber antecipadamente o que terá
eficácia real na história? Tratar de obter essa eficácia
arriscando a vida é a maior grandeza do homem.
O camarada Lênin estaria de acordo. Ele, que sempre
nos buscou a mística chaga da dignidade e da honra.
Ele, que vive em suas palavras unicamente para aqueles
que vão mais além das palavras.

* Otto René Castillo foi um poeta guerrilheiro da Guatemala amigo de Roque Dalton. Otto foi assassinado nas montanhas, na guerrilha para libertar seu país.
** A palavra original é ‘guardapelos’, daqueles pingentes que se pode abrir e ver uma foto dentro, geralmente trocados entre amantes…


_



CARTA A NAZIM HIKMET


I

Camarada Nazim:
esta manhã recordo sua casa em Peredélkino
parecendo o coração do bosque entre os pinheiros gigantes,
recordo sua ampla fraternidade de olhos antárticos,
a cristalinidade de sua poesia.

Conservo seus presentes: a colher
de madeira multicor e o retrato de Lenin
e espero que a terrível cabeça de barro de Izalco
que deixei em suas mãos
lhe fale às vezes de meu pobre país
e de seu pão difícil.

Camarada Nazim: lhe escrevo
da vizinhança do sobressalto
daqui do Quinto Calabouço da Penitenciária Central
de El Salvador.

Não pude fazê-lo antes porque eu estava livre
e com a brincalhona e borbulhante liberdade a gente não pode
elevar as palavras ao alto dos presos,
dos antigos presos que como o senhor indicaram a rota
para ver a prisão como um minúsculo passo de pedra mais
no caminho para merecer um pouco da futura liberdade de todos.

II

Me têm preso, camarada, há dezenove dias.
Os mesmos que com ácidos ferros candentes
marcam a rosa escura, o coração da sua pátria,
tomaram minha liberdade como um objeto simples
e me rodearam de ódio, sentinelas e muros
e me tiraram as andanças do ar,
as estrelas, as ruas, os olhos das moças,
a chuva franca destas latitudes
que nos busca a pele para encontrar o fogo.
E aqui estou: junto do pobre assassino contra sua vontade,
junto do ladrão e do estuprador e do equivocado,
compartilhando o lodo e o insulto nossos de cada dia,
entremesclando o hálito no clamor comum detrás das grades,
vendo passar os dias como andorinhas exaustas, de lastimáveis asas,
acusado de qualquer coisa por amar a esperança e defender a vida
e ter começado a ser homem de uma vez por todas,
rapidamente, como um mar revolto,
sem nem menos parar para inspecionar
o meu evidente orgulho pelo sucesso.

Quando sairei daqui? Isso não importa.
O que interessa é que apesar do ódio, da dor, da incerteza,
devemos seguir com a firmeza ao lado do coração,
sempre junto da luta, de frente para a esperança,
e alegres, muito alegres, muito alegres...

Perdoe a desordem de minha expressão e minhas ideias:
há um pouco de febre, um pouco de desvelo
entre minhas loucas mãos e o cérebro;
além disso o jornal
diz que há outros companheiros capturados...

Mando junto uns poemas destes últimos dias
em que falam os amigos de cela
(somente alguns deles, somos trezentos e vinte).
Mande um abraço ao Memet? E seu coração
é preciso cuidar muito dele.
Ainda mais agora que América
tem múltiplas portas para o senhor e seus versos.

Não quero tirar-lhe mais seu lindo tempo
- já se liquefez a neve em Moscou? -
e termino essas linhas com um abraço forte.

Até logo. Sigamos
içando a manhã.


_



ONTEM


Junto à dor do mundo minha pequena dor,
junto à minha detenção colegial a verdadeira prisão dos homens sem voz,
junto ao meu sal de lágrimas
a crosta secular que sepultou montanhas e japus,
junto à minha mão desarmada o fogo,
junto ao meu fogo o furacão e as frias derrubadas
junto à minha sede as crianças afogadas
dançando interminávelmente sem noites nem estaturas
junto ao meu coração os duros horizontes
e as flores,
junto ao meu medo o medo que venceram os nossos,
junto à minha solidão a vida que percorro,
junto ao disseminado desespero que me oferecem,
os olhos de quem amo
dizendo que me amam.


_
O poeta Roque Dalton
c_


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


_

Comentários

  1. Não conhecia esse poeta.
    Muito interessante e sempre oportuno esse resgate! Parabéns, André, pela publicação.

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  2. Poesia forte e bela. Doi e dá ânimo. Devolve a fé no homem mesmo que se esteja rodeada de homens maus. Meu respeito admiração.

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