Um conto de Carlos Antônio Jordão

Escrevo todos os dias, inclusive aos sábados e domingos. Escrevo nos feriados, no Dia de Natal e em 1º de janeiro. É disciplina total. Não Há folgas. Não há férias. Essa rotina de trabalho tem 20 anos.
Uso sempre frases curtas, e prefiro o discurso indireto. Ele favorece a leitura em grupo. Todas as minhas estórias podem ser lidas em voz alta. Meu objetivo é chegar o mais próximo possível da oralidade. Todos os contos são breves. Podem ser lidas entre um ponto e outro de ônibus. Sou um velocista literário, descobri. 100 metros rasos e nada mais.
Tenho estórias de cidade grande, de povoados, de roça, de terror, de tempos antigos, de futuro. Todas se passam num país fictício, e na maioria delas predomina o humor. Já publiquei dois romances e dois livros de contos. Tenho outros três inéditos.



O MENINO E A MORTE.


Dito acordou pelas cinco. Sua mãe já havia feito café. Estava fritando biscoitos de polvilho. Era uma moça bonita, de lenço na cabeça. Só calçava sapatos quando havia alguma festa para ir, e mesmo assim voltava com eles na mão. Estava grávida quando seu marido foi embora. Viviam num pedaço de terra de um tio dela. 

O filho tinha agora seis anos, era magro e também andava descalço. Ele comeu um biscoito e tomou café. Sua mãe já havia selado o cavalo. Saíram. Ela levava uma carabina. Dito levava um estilingue. Tinham de encontrar logo a vaca parida. Um gavião poderia comer os olhos do bezerro. Sua mãe avistou uma raposa. Mostrou para ele, Dito se virou tarde demais, não conseguiu ver. 

Suavam, desceram para beber água. O cavalo bebeu até estufar. Era um zaino malcriado, e andava descalço também. Nem mesmo conhecia ferradura. A vaca havia feito seu ninho num mato difícil de chegar. Eles desmontaram. Melhor seguirem a pé dali em diante. Sua mãe cortou um porrete. Vaca parida era perigosa. Bem, nem todas, Coruja foi boazinha, saiu de lado. Sua mãe carregou o bezerro ainda molhado. 

O dia esquentou mais. Dito sentiu ou imaginou sentir cheiro de café torrado. Onça cheirava a café torrado. Falou de seu medo pra mãe. Ela fez pouco caso. Seguiram adiante com seu bezerro. Coruja logo atrás deles. Tranquila. Chegaram onde estava o cavalo. Sua mãe pôs o bezerro atravessado em cima dele. Voltaram devagar ladeira abaixo. Havia um incêndio distante. O capim alto e seco ondulava em volta. 

Uma hora sua mãe puxou as rédeas. Ficou olhando em frente muito quieta. Dito via sua nuca suada sob o chapéu. Estavam perto da estrada. Havia algo diferente por lá. Dito evitou fazer perguntas. Sua mãe desceu e pegou a carabina. Foi adiante meio abaixada. Dito queria muito chorar. Logo ouviu um tiro. Correu para junto de sua mãe. O homem ainda estava vivo. Era seu pai, tinha certeza. Viu uma mala barata perto dele. O homem tentava falar, mas sua mãe atirou de novo. Deixaram o bezerro em casa e voltaram. Fizeram o cavalo arrastar o corpo para um ermo. Sua mãe furou um buraco bem fundo. Levou nisso cerca de duas horas. Jogou o corpo lá dentro e tampou bem tampado. Mais uma vez Dito não fez perguntas. Não era preciso. Estava quase feliz. Jantou e foi dormir cedo.

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O escritor Antônio Carlos Jordão
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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