A poesia necessária de Max Martins

Max Martins nasceu em Belém do Pará em 20 de junho de 1926 e partiu desta em 09 de fevereiro de 2009. Sua poesia, tão importante, mas tão pouco conhecida do público leitor desse gênero, transita entre o Modernismo, o Concretismo e o Experimentalismo. Porém, definir Max Martins nesta ou naquela corrente poética ainda é pouco. É necessário ir além das definições, compreender seu dialeto poético e se deixar dominar por uma utilização única da palavra escrita. Entre suas conquistas como escritor, destaca-se,  em 1993, o prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, pelo volume "Não para Consolar", uma coletânea de toda a sua obra. Quem esteja interessado em conhecer a obra desse autor, terá uma rica oportunidade de encontrar um poeta de grande força comunicativa. Entre suas obras, destacam-se O Estranho (1952), Anti-Retrato (1960), H'Era (1971), O Ovo Filosófico (1976) e O Risco Subscrito (1980). 


Estranho

Não entenderás o meu dialeto
nem compreenderás os meus costumes.
Mas ouvirei sempre as tuas canções
e todas as noites procurarás meu corpo.
Terei as carícias dos teus seios brancos.
Iremos amiúde ver o mar
Muito te beijarei

e não me amarás como estrangeiro.




Poema

Ocorre-me o poema.
Contudo há a religião,
A pátria, o calor.

Procuro ver na noite profunda
Quero esquecer no momento
Que sou o homem de vários documentos.
Forço.
Dói-me o calo desta vida "meu Deus!"...

Lavo as mãos.
Mas tenho de pôr a gravata,
E salvo a moral. Abano-me.

Rola o poema e o mundo.

E eu mudo.





A fala entre parêntesis

Das florestas de Blake aos topos da Ásia
quem, da confusão entre chão e carne
com seu púbis, seu discurso e chamas, 

QUEM DEFENDE TEU ROSTO DESTE SUDÁRIO INFERNAL?

Teu nome é Não em cio e som farpados
sinuoso grafito gravado no muro
mudo, contra o tempo Arfa
noturno, o olho do astro na memória

Este é o meu céu: numa bandeira turva
Incendeia seus últimos signos
Te insinua às sombras (que estão nos antros

e subsistem ao gráfico parêntesis:
Flechas ferindo-se no espelho. Reflexos

..............Dança indefinida





No lugar do medo

Todos os dias aqui tu te observas
E ainda está oculta (aqui) a tua semente
Comum será a tua raiz
                                     comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito
Sê criativo o dia todo
Te empenha o dia todo cauteloso
                                                   voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro
Quer sigas o fogo, quer sigas a água
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)
Ainda oculta (aqui) a tua semente

                                                    está




O poeta Max Martins -  Foto de Octavio Cardoso


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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 




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