Claudia Aguiyrre e a poética dos silêncios

Nascida em Santiago do Chile Claudia Aguiyrre adotou a brasilidade há mais de 40 anos. Graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo e pós-graduada em Estudos Culturais, ambas pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalhou por 15 anos como docente nos Curso de Cinema e Realização Audiovisual, Comunicação Social, nas habilitações de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Possui uma vasta experiência como documentarista, dentre as realizações encontra-se o documentário mata... céu... e negros (2005), que recebeu os prêmios Revelando os Brasis, 2005 e Melhor Documentário, Direção e Trilha Sonora Original em outros festivais. O filme foi veiculado pelo Canal Futura e pelo SESC TV, compondo o programa Curta Doc. O mesmo foi um dos 16 filmes selecionados pela Mostra Brasil Plural 9, o maior festival itinerante de cinema brasileiro pela Europa, que percorreu países como a Alemanha, Áustria e Suíça, entre os anos de 2006 e 2007.

Trabalhou também em diversas emissoras de televisão desenvolvendo funções de produção a assistência de direção na área de teledramaturgia, além da produção e direção de programas culturais e de comportamento. Atualmente desenvolve pesquisas na área imagética fundindo estéticas e linguagens de diversas heranças artísticas.

Como poeta adotou por algum tempo o pseudônimo Morgana Adis, com o qual foi publicada pelas revistas literárias Diversos e Afins, Gueto e Zunái. A criação com letras surge impulsionada pela editoração de livros onde atua como editora e revisora de obras, principalmente de poesia. Atualmente desenvolve residência artística no Ateliê Casa das Ideias, sob orientação criativa da artista multimeios Silvana Leal Nunes, com um projeto multidisciplinar e artístico que resulta na exposição Como se pensa algo que nem corpo é?, na qual inaugura um novo momento em sua criação.

Nos últimos anos Claudia optou por uma vida mais integrada aos quatro elementos, pelo que escolheu viver no interior da cidade de Rancho Queimado, na Serra Catarinense, onde desenvolve projetos artísticos que contemplam diversas áreas e saberes, que vão desde a criação de poemas até a experimentação de linguagem em audiovisual, neste momento direcionada para a realização ficcional e de videoarte, tendo o suporte virtual como seu principal canal de veiculação.





[tatear]

Proponho sentir às cegas,
palpitar: sem desfecho!
De súbito, o arrebato
da silenciosa vigília-terna,
ecoa em repousos arredios
– na caligrafia que
se fez soar.

Miúdas cintilâncias
recortam a ausência
que se impõe sem dor;
Centrados nos sempres
estamos libertos da
instância, mas não da infância.

Da seta cravada na espinha
lateja um unicórnio insólito.
Mergulha em sombras
transparentes ao fazer
da teia o orvalho que
quebra acalanto em penas.

Estampa nas veias
o cósmico grito de duas
esferas feitas do mesmo pó e
das constelações dos medos.





[indizível]

Como posso te contar o que devo?
Da sordidez dos beijos.
Da miséria, da fraqueza.
Das línguas que espalham superfícies líquidas
por onde podem escorrer as defesas
viscosas e róseas, ignorando tudo,
em órbita desgovernada,
e com o peso na linha tênue?





[ontem]


Hoje caíram todos os dentes: foi indolor.
Quem com eles cerziu entornou o tempo.
Rasgou as horas: todas elas.
Ecoou o uivo em silêncio.
Desmoronam, sinto,
as paredes do útero, já alvas:
drenadas por asas que gotejam na areia.


Hoje fugiram os inocentes: todos eles.
Lacerada a ingênua outorga,
rompe a seta sem permissão:
desfaz a jura feita em sonho e
no círculo desnudo liberta os nós.
Sentir no desfazer das sílabas,
tormentas de sangue na imagem precisa.


Desfazê-la em fogo: não se deve:
cresceria sem vestígio.
Vertê-la em água: não se pode:
leva consigo a contrição.
Ouse calar ao vento a matéria
de que é feita. Resta ao insulto
deitar sob a terra e parir em dor.





[cala]

Há um lugar claro-escuro
onde quero pesar
as dores por orifícios
de ardores nas fibras:
que fogem aos edifícios
erguidos no querer.

Derme em som impuro.
Pôde nela se pensar
por rancores e pelos
ofícios minúsculos
salpicar as faces que escolheu
como sorte do saber.

Recolher o espanto em urros.
Hora de abarcar, e espelhar,
as lamparinas para que ores:
para que peças os muitos
a que tens direito no céu.
E um canto se perder.

A temperança no murro
aponta o azar e a honra
do menino que fores.
Em gelos de tempos e tréguas
esticas debaixo do véu:
o sentido e o padecer.




[quero ser]

De súbito, uma mui
pequena falta de atenção,
provoca toque inestimável
entre elementos
transmutados em respiro
sem piedade.

Quem disse? Meu corpo...
em resposta à língua
que bem preciso entender.

Como se pensa algo que
nem corpo é? Onde o
nunca é matéria!

Tem enfim uma centenária
no jardim que veste
sandálias de compaixão, pois
só assim consegue futurar ruína.
Compaixão por quem?
De mim é que não.

Clamo por concentrar
nas mãos o bem que desejo.
Seria como tocar o nada. Olhar
fixamente as lambidas de luz que
emanam o pulso intermitente e intuir
a força que emerge de todas as veias
conjuradas nas artérias,
num latejar mínimo,
que passaria incógnito se não fossem
as arteiras meninas dos olhos que,
pensativas, seguem de perto
o movimento da carne
que envolve o vulto oculto
e sem pele. Inconveniente
momento para perceber que
basta oferecer o intento para
escorregar pelos sistemas de
sóis e luas invertidos,
reconfigurados e ativos, recuperados
pela calma do respirar inteiro e... ser
ar para tocar as claves do
íntegro sabor e do suave
brincar das pontas.





[do sacrilégio de sugar as delicadezas do vento]
                                             (para Marcos Aurélio)


Sobre matizes de náufragos
descrevo minha teia.
Centro o vagar a inscrever
o amigo ido, pois terá
que nascer um olho d'água turvo
em meus pés, para lhe resgatar do
vento.


Caminho na álgebra, sem
imaginar as delicadezas que
levou na cintura. Nem soube de
peixes voadores que
lhe rumoraram pro Sul sem cantar:
“Que perda, deusas, que dor!”...
Fraternos: nos nasceram
entrelaços sem nome.
Por inomináveis: de tudo
atentos.


Numa brincadeira sem batismo
um ser lhe quis e nunca o devolveu.
Temo encantamentos, e que
desaprenda a ler os selos.
Ao livro de cabeceira preferia
prender a pipa que lhe carrega e
garantir o mel... Sabe
o pobre, o poeta e o bode:
– há cântaros de sanar
no equilíbrio perfeito entre o
pó que somos e
o pó que fomos, pois estamos:
tempo.


Na urdidura brilha agora a imagem
que independe de horário luzente e
cria duplos em todos os sentidos prismais.
Em devaneios repensar caminhos:
do conhecimento sagrado do corpo
sobe a volúvel sina, e solta
rebojos, que um dia...
hão de te alcançar, entre os verbos,
para sugar as delicadezas por dentro
do centro do ventre do
alento.





[silêncio]

Dou sete voltas imensas
em teu sexo pra te sentir imerso
e encontrar o duplo (im)perfeito
do saber, que sei, resvala e cai
no escuro terno de mim.

Ungido, tateia os sons
da injúria que ecoam do íntimo
(que ao invés de conter o feito),
enredam os mares
iluminando aquele sim.

Submersa nas coisas emanadas,
vestígios cálidos pulam e
volteiam ao sabor do peito,
das partículas impalpáveis
do provir de um fim.

Na superfície da dor da vez,
derramamos o sentido ilícito.
E derradeiro tocas o leito
que alarga a veemência
de que assim...

... mantido o calor da tez,
nos comemos aos pedaços
e pelos cantos, e com respiro,
e lisonjas. Vastidão em demência,
relegar a decência:
Sim!

Pelos sonhos!
Já que por serem tais
desconhecem o perigo.
Encontrar brechas e passar por
rachaduras ao esparramar por
goteiras frestas a serem seguidas.

Como quem persegue honestidades
revoltas em lodo transparente,
ungidas de versos próprios.
Que ainda fedem a valas e saem
retorcidas dentes afora e atravessam
malemolentes e escusos a fala pertinente.

Espúrio legítimo.
Nobre como animais em extinção.
Qual sátira sangrenta,
elevada pelos concretos
de ossos, que vertem madeira
sobre carne triste.

Quanta humanidade
cabe numa rua descalça?
Quantos sistemas nervosos
assopram o litígio?
Quantas vias circulatórias
cabem em cada humanidade?
Que origens evocam os corpos
que sobre outros corpos rememoram
verdades no autêntico adulterado
de suas crenças?





A poeta Claudia Aguyrre


_


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 




Comentários

Poetas mais lidos na Poesia Avulsa:

Conceição Evaristo: Cinco Poemas Definitivos

Patativa do Assaré: Poemas de Luta e de Terra

Três poemas de Raul Bopp

Adriane Garcia: Poemas de Quase Amor

Cesare Pavese: Três Poemas Traduzidos

Tarso de Melo: Íntimo Desabrigo

Roque Dalton: Um Poeta Guerrilheiro

Alberto Bresciani em Seis Poemas

Seis poemas visuais de Fabiano Fernandes Garcez

Micheliny Verunschk: Poemas Esparsos