André Capilé: de Rapace a Rebute

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Tem previsão de lançamento e relançamento este ano pela editora TextoTerritório. Saem agora, em 2019, os livros Chabu e Rebute, ambos pela editora Texto Território. 




[rapace, 2012]

zangarreio

enquanto cadeiras
são lotadas por
esquecidos
(cadeiras latifúndio tipo luxo
lotes baldios) leis
com todo vigor
prendem mas não pegam
enquanto cadeias
são lotadas de
ex-famosos
deslembrados
andam na linha
e vão cada vez
mais dentro
enquanto cadeias
estão lotadas por
esquecidos
futuros tipos de esquecidos
fazem fila para
entrar e estar
cada vez mais dentro
e uma vez dentro
formar quadrilhas (cirandas
entre cadeias e cadeiras)
enquanto no pátio
outros atores que são
de dentro fingindo
querer estar fora
zumbis cavam
com colher pequena e
mineram em covas
de outros esquecidos
que amontoados feito ratos
(do dentro e do fora
cabeça a cabeça
espremidos corpo
a corpo) atritam
cotovelos esperando
fogo de ideias
que são as mesmas
ideias de cadeiras e
cadeias embora
cadeias e cadeiras possam
ser mais que só ideias
quando ideias passam
a ser mais que fogo
textos menos cinzas
territórios menos escombros


ácaro
para fábio andrade

sem rastros na entrada da cena
gasta sem luz e fumos um corta
a imagem da emoção possível sem
interesse pelo necessário
um continua a escritura sem tropeço
e toma dos objetos a sombra do gesto

pela cartografia do cartório
um caminha despreocupado
fiando digitais e dígitos
não faz por cifrar topografias
mas por valores de uso um
natural do número seu valor

(rótulos marcados insistem
em datas seguras há ventos
de embaralhar os fichários
borrar documentos de trajetória
soprar a poeira dos catálogos
rasurar alfabetos artificiais)

um manuseia papéis sem luvas
possível a boa luz para terminar
o trabalho sem lupas o salto
resiste e roça um cria categorias
entre correspondências de atalho
em volta tudo em seu devido lugar

há próteses de memória feitas
sob medida para esquecer que
houve um corpo não há nada
que aparente nas demarcações
presença alguma há menos que
gente na assepsia dos acervos de luto

(cenário de coisas postas
à imagem da ordem as caixas
emparelhadas em pilhas
elementos de entulharia
se arrastam desde seus fundos
ilhas de caixas as mesmas de sempre)

na saída o contínuo exercício
para limar de afeto carne unha
quando ao inventário não resta
o prazer de dizer não obrigado
tal que o falar prático sempre
lhe pareceu rifa barata


[balaio, 2014]

balaclava frank

estava a saltitar ao largo e súbito
começou a chover e ventar muito.
me disse: “canivetes te saúdam”.
canivetes não são cordiais; furam
as cabeças, mesmo as duras. e veio
o dilúvio (tinha tufão e tudo);
quando corri pra te encontrar, entrou
em cena, assim, do nada, tão sincrônico
com o céu, o engarrafamento. foi
num repente que vi uma manchete:

“o carnaval vai ser um ai jesus!”

(não há ciclones no rio, tampouco
dilúvios na bahia - e são notícias
ruins que movimentam os bons dias.
se quer saber, rendem assunto em festas,
te enturma nos melhores grupos; tipo
assim, impedem os maiores micos,
mas dão margem aos menores vexames
— o que é importante, se humanizam.)
tive um colapso; leve, um breve surto.
com amor, o mundo acaba em purpurina.



praia
para mariano marovatto

amanhã pode dar sol
e nós temos tudo a ver:
música, livros, cinema,
miniaturas de temas,
entre nós vai tudo bem.
eu não vou te aborrecer
com a tv fora do ar.
os nossos melhores planos,
eu te conto e você ri.
talvez dê certo pra nós,
vamos ver no que vai dar.
vamos tentar outra coisa,
mas isso vemos depois. a
nossa praia é logo ali.

(coragem, meu bem; paciência.
as aves voam bem por lá.)


[rebute, 2019]

capricórnio

dos nós de nosso contexto,
textos são feitos diversos.
de muitos fios que se tecem,
no conforme de portar
os ciclos, e suas voltas,
por dentro de vias e vaus.
e seguimos, por cuidado,
em turnos e tubos, mas
só comemos o coturno
dos dias. do singular
agudo de um rio vivo —
natural — embarco o trecho
não medido pelo fundo,
nem pelo estanque das margens.



estilo
para fernando fábio fiorese furtado

os pincéis apontados
com a língua põem guarda

nos traços da retina
e se venta nos grãos

a coleta de mimos
nas tetas da memória

dá alinhavos aos punhos
lustram com o grafite

espátulas e régua
também areia e entulhos

lâminas que rasuram
sem acidente o engano

da água-forte nas pranchas
a cura de pensar

o que torna tão vivos
o papel arruinado

e a tinta que pressente
cair o homem efêmero

à sombra do perene
fantasma nas paredes

quando respiram prontas
dentro do ateliê

as peças penduradas
dão-se por construídas

o que é próprio das telas
na tinta que sugere

em seus mundos de telos
flama e ar mar e terra



[chabu, 2019]

faço questão de saber
se ainda caibo no corpo.

reformar a casa trouxe
desditas. nada enquadra

a alvenaria dos palmos
que mentem gostar o toque.

despede o cheiro, caibro
pouco pra servir de arrimo

aos segredos que resolvi
guardar contigo. não há

aluguel. o despejo, inevitável?



deitam cinzas nos olhos.
são os fumos de sobra do manga

rosa. descasco flores no casco,
fiando tapete e roseira. caco

de fala, sem tato. da rosa
diz a mangueira; delas, não digo.

no fundo, vazio inteiro, privo
a vontade de osso exposto. quero

minhas meias vestindo seus pés
nos dias que estiverem mais frios.



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O poeta André Capilé

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

[+ informações ] 

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