Beth Brait Alvim: A febre e a mariposa

Beth Brait Alvim, de São Paulo, pertence à chamada geração baby bommer, os nascidos pós-guerra. Mas, desta geração, só se identifica com o make love not war. É graduada em Letras Neolatinas pela FFLCH - Faculdade Filosofia Letras e Ciências Humanas  da USP; pós-graduada em Ação Cultural pela ECA - Escola de Comunicação e Artes da USP e é Mestre pelo PROLAM - Programa de Integração da América Latina da USP, com o tema: “Desvelando uma atitude poética para o mundo contemporâneo: experiências com poesia em Diadema e Catamarca". Poeta desde sempre, recebeu vários prêmios, e tem poemas traduzidos para o espanhol e francês. Tem poemas em cerca de 40 antologias revistas e sites nacionais e internacionais, além de ensaios, artigos, prefácios e tradução de livros. Foi contemplada com bolsa de Especialização Profissional em Política cultural,Programme Courants du Monde, França. 
Representou o Brasil em Sonora, México, nos VI e XVI Encuentro Iberoamericano de Escritores Bajo el asedio de los signos (2008 e 2018); autografou seus livros e palestrou em vários encontros, como a FLIPORTO, Feira Literária de Porto de Galinhas (Recife, 2008), e FLIP, 2008 e  em 2018, também apresentando sua performance líterodramática e musical na Casa do Desejo e Edições Sesc, como escritora convidada para seleção do Prêmio de Poesia OFF FLIP pela segunda vez. Tem promovido oficinas, cursos, mediação e curadoria  de literatura e teatro. Como curadora e júri de seleção, participou do Prêmio Nelson Seixas, da Secretaria Municipal de Cultura de São José do Rio Preto e Poesia Lusófona, OFF FLIP, Paraty. Participa de debates, palestras, oficinas, e saraus, apresentando-se na performance A febre e a mariposa ao lado do multiartista Daniel Joppert.  É membro do Núcleo Musical da Cia do Tijolo e membro fundador do Sarau da Paulista, colaboradora na Revista Digital Entrementes. Escreve artigos literários; os mais recentes, na revista E, do Sesc, e na Conhecimento Prático - Literatura. Teve resenhas críticas veiculadas no Entrelinhas da TV Cultura. Organizou várias antologias literárias.  Tem vídeos documentários sobre sua vida e obra: Louca e In si nua ação, realizados pela multiartista Mercedes Guarnieri; vídeo- poema declamado por Celso de Alencar, participação em vídeos documentários como atriz e narradora. Assina várias direções teatrais, além de participar como atriz em vários espetáculos; o mais recente, Mistério do Fundo do Pote ou Como nasceu a fome, de Ilo Krugli, do Teatro VentoForte. Destacam-se suas obras Mitos e ritos(Scortecci Ed, 1987), Visões do medo (Escrituras Ed., 2007, Prêmio PAC -Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Estado de São Paulo), A febre e a mariposa (Ed Patuá, 2018), poemas.Ciranda dos tempos - espaços do desejo, 1ª ed 2005, 2ª ed 2006, ensaio.



poemas de A febre e a mariposa, Ed. Patuá, 2018





a febre e a mariposa 2

o desejo de todas as terras
me abraça e me suga violento
me enlouquece pelo que sinto
me liberta pelo que
invento



quase 

tudo boia
outro pedaço de mim
nada dói
ou quase tudo

vivo tímida ou como que mole
um desfalecimento nas plantas dos pés
uns soluços descontínuos no couro cabeludo
uma umidade nos tímpanos
marulhar de bacias d'água dentro da cabeça

ou é um suspiro por algum motivo
um túnel sem fim
  
acho que não deveria ter nascido
acho que não nasci



eu nunca quis ser madona

na noite um tango me desconcerta
uma luta me encolhe e me expande
feito fantasma
não sei se ando ereta ou se pareço
torta
ou se sinto estar torta e só talvez esteja
reta
ou se no fundo tudo é só medo por ser
essa vida coisa tão pouca
e no fim tudo é simples demais
e isso no fundo é o que choca
vivo de ensaio e de arremesso
e se me considero um projeto

para um ou outro extremo
confesso

o que é vero é que no meio

escolho sempre um desmaio
que é bem mais difícil mas incólume e
certo
só sei que o sério não se sustenta
e no fundo me dá um baita cansaço
um enjoo profundo e não compensa
então boto pra fora o que camufla

e busca explicar cartesianamente
desse encolhido ocidente
um tamanho coma
pouca gente entende ou gosta
e quase ninguém aguenta

sorry, gente,
eu nunca quis ser madona




sinais
"Eu sou uma metralhadora 
em estado de Graça / Eu sou a pomba-gira do Absoluto". 
(Roberto Piva)
  

o tempo ampliado na insônia
ousa
desloca ao absurdo o dia 
a incompreensível pressa

o tempo pousa

nada me consola
como o de não ser profundo
o que é breve

é noite e voo no horizonte reto e leve
derrapo na curva de saturno
e me atordoo

lambo os pés do índio noturno
babo em sua língua impiedosa
seu tremor não me constrange 
nem seus uivos nem suas garras
nem sua alma que range
no submundo dos anjos

seu peito arfa forte e lento
distante e irônico ele ensaia um jazz

danço ao seu redor sem bengalas

nada me salva
o tempo pousa
a cidade treme

minha cabeça zumbe de  mariposas 


poemas de Visões do medo, Escrituras ED, 2007, Prêmio PAC Secretaria de Estado da Cultura 


Visões do inferno

desconheço pedras e facas que
extirpem o peixe sorrateiro que insiste em necrosar
o sangue do meu sangue

sumos escorrem na saliva de meu
ser inteiro diante dos meninos que têm  
fome fome fome

lambo o enxofre
dos vultos do século
diante das esguelhas do homem 
no estertor dos sóis e das geleiras

nada brilha mais que a insônia
escorrendo  
até meus calcanhares


Dante

é certo
 arreganha
os dentes em minha nuca


Visões baldias 

ah se a menina de cinqüenta anos sucumbisse  menos às visões do juízo final e vagasse  mais nas feiras e terrenos baldios à beira do surto daqueles dias onde o muco anterior às boas maneiras mantinha o sinal o segredo a magia e rompia o novelo da mãe da avó e das tias por certo ela desfilaria todas as noites e dias sua saia de absinto meias de cereja e seus dentes de ninfa pulsando nas esquinas



a poeta Beth Brait Alvin



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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 




Comentários

  1. Uma alegria, um bocejar de sol, nestes tempos indigestos. Grande abraço, André Merez!

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