Ingrid Morandian e o exílio quântico


Ingrid Morandian nasceu em São Paulo(SP), onde reside. Participou de várias antologias. Publicações: Água Terra Fogo Ar – Crônicas elementais, Ed. Uapê, 2011 – História intima da leitura, Editora Vagamundo, 2012 – Revista Plural 1900 e Revista Plural La barca, 2016, Ed. Scenarium Livros Artesanais, Senhoras Obscenas, 2016, Editora Benfazeja - Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmargens, Diversos Afins, Liberoamérica.
“Como titereiro, no silêncio, brinco com as palavras na composição de textos. Estanco na fronteira do real e da ficção, e esvazio de todo eu através da escrita.” 



Da sala

Por dentro um silêncio incômodo,
da janela vi uma mulher arrastando garrafas
numa noite fotográfica

por hábito, abandono os dias medíocres nas fendas do chão
enquanto não ouço vozes
enquanto não arranco as minhas asas

por fora, várias vezes absorvi um turbilhão de sons
e perdi a retaguarda, o prolongamento dos tendões
sequer alcançou os joelhos

por alguma razão, a cortina regula a luz de fora,
e nas paredes, projeções surrealistas
bordam o esvaziamento de garrafas




Nocaute

amaldiçoei o vento porque
tomou a quietude das flores
e inundou o meu rosto de sombras,
as esporas do sapato
raspam com fúria os despojos do tempo
o meu silencio noturno foi nocauteado
pelo berro dos lenhadores
sonhei com os apelos das árvores
e o sopro de asas de garças,
não revelo aos deuses
as sementes que apanhei
não falo das dores e lacunas
deixadas na narrativa
a escrita vicejante externa folhas
de plumas em aço
meu quarto despovoado
de silencio
inalienável, rota obscura
para o Norte
você rompeu a constelação de poesias
tivéssemos guardado no baú,
na nave de memórias,
o que somamos de epistolar e sonoro
dessas horas
foi desconstruído cada osso, depurado
filtrado nas dimensões da palma da mão,
por sorte a janela da sala
dá-nos a visão do lado Sul da lua




Auto exílio

a mala no canto do apartamento
num canto qualquer da tua ideia
na desordem do quarto imperfeito,
antecipa-se o medo

o ritual da afirmação perde-se
na margem do caderno
mergulhamos no exílio quântico
Berlim ainda nos acena: uma praça, uma cerveja e o sofá cama

não escrevo cartas
não faço declarações
não faço objeções
concluo o relatório do absurdo de-ser

estranhamente, o poema tomou conta
do azul das rosas e das begônias
o incômodo marulhar da vitrola soa,
aponta para o acolhimento

trancada por dentro, não suporto uivos
e meias verdades
aguardo a anistia,
enquanto danço o pós moderno na sala




Ferrovia leste

meu estado de neblina encobre
os trilhos da longa ferrovia,
incontáveis esporas saem
do meu corpo
e machucam
como palavras afiadas

a quem pertence estes caminhos?

o funcionário da estação não deixou
as correspondências de Deus
falta-me a noite e seu entorno,
falta-me a realidade atrás das montanhas

por que os deuses repartiram o sol,
se não haveria mais tendas
no frêmito das horas?

a estrada continua nebulosa,
a luz do poste flutua na estação,
o funcionário esqueceu de deixar
uma cópia da chave
preciso abrir as ondas
para limpar o oceano

preciso partir

o funcionário dizia:
qualquer camada que se aporte no
prurido das vírgulas causa incômodo
e eu não entendia

atravessei os quartos da casa
como se fossem continentes
infinitos de histórias
o rumorejar de passos no assoalho
decompõe a química das sombras
o arredor borrado de escritas

preciso partir

na véspera, uma senhora
embarcou no último trem,
levando a existência de sonhos
a carregar a impermanência
das palavras




Escrituras

o timbre de tua voz se desprende
do descascado das paredes
os pés descalços, o frêmito do piso
enregela meus escritos

as letras grafadas no anverso das mãos,
testemunha (de) outros povos,
emerge o cheiro ocre das tuas saias
o silêncio nos rodeia

os olhos coreografam o sentir,
enquanto ventarolas
espraiam a sede
os postais diluem
o paradeiro da morte




Mulheres da Cordilheira dos Andes

eram três figuras
três figuras femininas que caminhavam unidas
na noite fria de setembro
haviam se encontrado na esquina da morada
embrulhadas em casacos e xales

dos seus braços nasciam folhas comestíveis
derramando líquidos pensamentos
nas paragens

eram três figuras
três mulheres que peregrinavam de casa em casa,
atravessavam corredores e salas,
buscavam seus filhos na noite vazia de sons

das suas pernas surgiam raízes tabulares
agregando imagens oníricas àqueles
que perderam os sonhos

eram três figuras
três mulheres que carregavam bacias de água
para que as pessoas pudessem
atravessar a Cordilheira

das suas mãos excretavam flores amarelas
e açucaradas que alimentavam as crianças
dos Andes




Trecho do mar

as ranhuras do corpo transformaram-se
em pequeninas flores
que descascam ao vento
mulheres carregam baldes d’água
carregam minudências, e
as fatias do sol ao píer

sopro de afluentes vicejam
no entardecer
o cantos dos pescadores arrancam
as dores de dentro
as dores de fora não podem ser vistas
o meu horizonte amputado de sonhos
sob o calcanhar de incertezas.




A casa da colina

o que restou das sombras?
a marca da maçã no rosto do pai:
ele apreciava maçãs verdes,
aquelas colhidas atrás da casa

eu criava pássaros no quarto
quando escaparam pelos meus ouvidos,
levando a canção de júbilo
que fora composta por mim

o meu corpo ainda precisa de banho,
do arco íris cíclico da cobra,
da beleza um dia estampada
no sorriso do pai

encerrei as gaiolas no peito
para que nenhuma ave sucumba
aos devaneios dos meus olhos




Apontamentos

restos de sombra
na incompletude dos gestos

teus olhos nas curvaturas
rabiscam meu corpo,
mapeiam desejos desembaraçados
que caem sobre o asfalto
e, acometida pela incerteza do amor,
rebobino aquela noite
e o querer escrito por extenso
e rebobino mais uma vez:
a voz ancorada no meu sexo




Inventário zimbro

dos olhos desabotoados
um mundo sem cor
aprumam-se charcos em flores
o inventário, tremura das sombras
sobrevida de aroeira,
talvez a salada de alface
permaneça no prato
habito-me na superfície do olhar
sarcófago-folhas




A poeta Ingrid Morandian



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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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