Lau Siqueira: 8 poemas + 1 inédito


Lau Siqueira é gaúcho de Jaguarão. Nasceu no dia 21 de março de 1957. Reside na Paraíba há três décadas. Publicou sete livros de poemas, participou de diversas antologias nacionais, regionais e internacionais. Escreve (sem regularidade) para jornais, revistas e portais. Possui parcerias musicais com diversos artistas, muitas delas já gravadas. Pretende este ano lançar uma coletânea de poemas dos seus quatro primeiros livros e finalizar um livro de artigos e ensaios sobre leitura literária. Possui um disco gravado em parceria com o músico Paulo Ró e interpretado por Dida Vieira. Pensa que já viveu muito. Está certo de querer mais.


TAPERA


O tempo é uma casa
desabitada e esquecida
no meio da estrada.

Quem passou por ela
e viu apenas uma
casa, na verdade não

viu nada.



DO ACASO
E SUAS DELÍCIAS



essa sensação
que a porta vai abrir

e que o seu abraço
derramado no meu
abraço derramado

vai molhar o piso



ESGRIMA

metade de mim
é um beco sem saída

caminho sem volta
traçado sem tropeço

lonjuras disfarçadas
desde o começo



RESISTÊNCIA

o que me sustenta
sobre a carne e o osso
é não ter aprendido
a desistir

viver é voar
até sumir



VAGINAL

do lado de dentro
entre a pele e o motivo

entre o ritmo e o estilo

no meio
no exaro epicentro
do infinito

no extremo íntimo
umedecido do riso

onde a força bruta
ejacula delicadezas

onde o caçador
é a presa



POÉTICA
DA IMORTALIDADE


eternas mesmo são as nuvens
essas dissonâncias do infinito

eternas e mutantes

com suas dobras de estupidez
e coragem

mas a vida é aqui e agora

e é frágil
como uma caipora

tão frágil que uma única
morte não basta

todavia eis aqui
um poema
besta

(e hoje nem é sexta)



PARADIGMA


a vida
é um eterno
ir-se embora

costura de
instantes diluídos
na eternidade

tempo
de retornos
irreparáveis

e encontros
irreconciliáveis

viver é delicado
argumento de samba
sentimento de fado



TESE
DE MACHADO

no entalhe
a madeira se reparte

com porte de quem
cumpre o rito criador

o machado parte

a árvore tombada
já não é a mesma

virou linguagem
substrato e signo de
abismo e arte



COMBUSTÃO

O que se mostra nu
não é o corpo. Porque
o corpo nu está sempre
escondido debaixo
da pele.

O que se mostra nu
é o avesso.
O que não meço.
O tropeço. O que não
posso, mesmo quando
imerso.

O que se perdeu por dentro
não pode ser exposto. A
menos que a morte aponte
o oposto.

(Eis a vida e seu rosto.)

O que se mostra nu não
é o espírito porque este
nem de pele se veste. É
vento que se espalha
pelo ar. Sem cheiro
de nada.

Apontamentos
apenas...

Daqueles que transtornam,
mas também se derramam.

Como se derramam os
idílios e as bússolas
da travessia.

Necessárias cordas de fio
afiado. Rapel de caminhadas
íngremes e árduas.

Mensurações do abandono
enquanto lado reverso
da solidão.

O que fica além de nós
é a rua do espanto...

No que era tudo
No que era tanto...

Tenho versos para dizer.
Falo de um silêncio que não
cabe no abismo.

(Lau Siqueira - agosto 2018)

Os três primeiros poemas, estão no livro A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas; Os três seguintes, pertencem ao Livro Arbítrio; Seguem mais três do livro Poesia Sem Pele. Todos publicados pela Editora Casa Verde, de Porto Alegre – casaverde@casaverde.art.br . Combustão é um poema ainda inédito.

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O poeta Lau Siqueira



A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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