Sérgio Rocha e a prosa poética

Paulistano dos altos de Santana, o poeta Sérgio Rocha é um filho de Oxóssi cafeinado até a medula. Cursou filosofia sem arrependimentos. Publicou o livro "Um poema depois da chuva", 2018, Ed. Triver (esgotado). Ministra oficinas de criação literária, além de se virar como revisor e editor.




I

para esquecer-te precisaria mesmo de outra morte mais definitiva, de um rio ainda mais enfurecido que me afogasse para sempre dentro das cenas escolhidas, que me mantivesse incapaz de gesto, vidente destas alucinações enquanto algum dia passasse lá fora e me acenasse um adeus calculadamente gelado; precisaria, ao invés de uma cena qualquer, apenas pedir-te um beijo, e mesmo que eu ficasse pelo caminho, beijar-te simplesmente.



II

Não guardava segredos. Todos os dias a si mesmo contava o quanto a queria. Contava aos espelhos, aos reflexos nos móveis, às frestas das janelas, às réstias de sol pelas mesmas frestas. Cuidava de abrir os potes para que estes também ouvissem seus segredos e espalhassem entre os cereais e os biscoitos. Não havia um canto na casa que não soubesse. 
Lá fora também tudo sabia; cada flor no jardim, embora contar-lhes exigisse apuro e cuidado, afinal, não contava esse amor para qualquer um. Haveria de ser especial aquele que o soubesse. Era um querer cuidadoso que vez ou outra se perdia entre as cartas que nada adivinhavam, pois um querer que é amor não se adivinha na sorte, mas nas vezes que se acha nos recados deixados nos muros e por menos que se saiba há um saber que queima a face num rubor de anjo que ao saber desse amor estremece, e por menos que se saiba o amor se adivinha dia após dia. Contava do seu querer às pedras na calçada para que melhor recebessem os pés da sua amada, e contava às avezinhas do fim de tarde para que espalhassem o que nem era mais novidade, mas sempre se dizia diferente como um cântico que sempre ganhasse uma nova voz, uma voz que não guardasse segredo e para si cantasse contando a todos o amor todo e tamanho que tivesse.



III

desci 10 vezes ao inferno e sempre te achei numas de my sweet lord nem mora mais aqui então me ajuda a subir depois faço a janta e de certo modo te salvo também é assim não é? essa mão lava aquela e você me leva pela escuridão.



IV

Promessa

Juro que tu serias minha vida, déjà-vu perpetuado por todos os meus poros e instantes e meu instante absoluto, cósmico, um instante diabólico tatuado no plexo, um instante divino em você e na criação, nos cuidados com as plantas, durante minhas expedições lunares ou minhas audições malucas de Creedence Clearwater Revival e mesmo que o desatino do fim da vida me levasse ao espelho e fosse um estranho que me olhasse, mesmo assim este estranho perguntaria de ti, e de ti falaria a noite toda, contaria nossas estórias, lembraria nossas andanças por ruas e becos e matas, nossos pés tão ágeis transpondo o limo das pedras e depois acarinhando um ao outro, e mesmo que de mim já não fizesse a mínima ideia, de ti lembraria todos os detalhes. Hoje e por tantas outras vidas, lembrar de ti não seria nenhuma ave sem rumo, mas uma revoada migrando para teus confins que, certamente, estariam brilhando no espelho quando eu me olhasse procurando por ti.



V

Retratos

De todos os seus sorrisos 
guardo intactos os que perdi.



VI

Finalmente,
mexa bem até ficar no ponto de poema.



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O poeta Sérgio Rocha

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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