silvana guimarães: 6 poemas de amor & raiva


Silvana Guimarães, escritora, nasceu em Beagá/MG. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi socióloga, especialista em transporte público. Participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: 29 de abril: o verso da violência (Patuá, 2015), Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Terracota, 2009), Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Publica seu primeiro livro de poesia em 2019. Se não chover.



o acrobata
para carlos augusto lima

eu sou a mulher barbada do semáforo
e você me olha de esguelha com nojo
fecha as mãos ao volante com força
trinca os dentes aumenta o som e se
apavora com o brilho do meu dente
aquele de ouro no lugar do que perdi
com um soco numa noite de chuva
não sou mais o triste fantoche que
amava o engolidor de fogo e vivia
com o atirador de facas: sobrevivi
a minha miséria & a minha ousadia
lhe deixam constrangido: agora você
ignora meus panos de prato de chão
acelera de volta para casa onde lhe
espera a mesma solidão às avessas
o seu silêncio debatendo-se entre a
louça na pia & o recibo da pensão
alimentícia: sim o que lhe resta então
broder: improvisar um samba-enredo
louvando as espetaculares conquistas
femininas da última década: a mesma
daquelas almas fêmeas que existiram
para seu usufruto: apenas meras biscas
aí incluída a mulher armada que partiu
o estômago embrulhado você girando
girando girando no globo da morte
e essa vontade de rasgar os pulsos
antes de despencar no despenhadeiro
enquanto murmura: el gran ilusionista



mínima via

um pássaro pousou
no relevo côncavo
do meu ombro

sede de dilúvio e
essa dor que o tempo
não estanca

certeira
como a solidão das uvas verdes
como o rumor dos rios secos

boca a boca
aspirar o ar
rarefeito

aos poucos
afagar o ardor
do amor baldio

a vida alumiada
o turbilhão do nada
o raio do não

nessa noite que nos afasta



sucinta

nostalgia do próprio corpo:
a fratura exposta na janela
: conjugar a palavra antigo
no presente do pós-futuro

somos uma orquestra:
e eu só quero confessar
meu amor sem dançar
um foxtrote em dublin

mas toda paixão se molda
em espanto: nasce entre
precipícios: pirotecnias
a cada transfusão de dor

o velho espelho incendiado
a alma sorrateira escancarada
a gente se acabando aos poucos:
mijando a mágoa da vida inteira



armazém

o preço do cará anda
pela hora da morte como
a maldade dos homens

a indiferença
a insensatez
me tres
passam

sobres
salto

nem átona
nem tônica
nem ostra
nem âmbar

ando farta da vida
e de você, meu bem

mas às vezes o coração
bate tão forte que
mal me reconheço

a ponto de cair
como manga espada do pé:
inocente & madura



anúncio

a minha casa guarda silêncios
ausências e soluços

em cada canto meus absurdos
naquela janela um par de asas

bem ali a ração dos
cachorros e a solitude

sob os tapetes as cicatrizes
sobre a pia as máscaras

trancado a chave
o armário de incêndios

atrás da porta
a minha sede

no terraço uma rede
de renúncias

no jardim, entre os antúrios
um antro de amarguras

no alpendre
o breu o breu o breu

quem comprar minha casa
leva minha alma dentro



furores

a prima C. despedaçando no meio-fio a cabeça de louça da minha primeira boneca
os dentes de leite
a apatia da Santíssima Trindade
a cor branca
o corpo de Hitler descendo aos infernos
o vestido do primeiro baile, de veludo, me consumindo
o fogo que arde sem se ver
o silêncio de Guantánamo
um gato molhado
a letra A
o último tango em Paris
o olho amputado de Abu Ghraib
a sandália havaiana do atropelado revirando-se pela avenida
as jaulas
uma mulher morrendo por lapidação na Arábia Saudita, Paquistão ou Nigéria
a banda de música do 11° Batalhão de Infantaria de [ilegível]
às 12h31m na Av. Paulista
o tempo: as rugas os fracassos os vícios: o tempo
o terceiro movimento da Nona de Beethoven
o responsório de Santo Antônio
as quintas-feiras
a hipotenusa
play it once, Sam, for old time's sake
a sombra da solidão no escuro
o poema As Coisas, de Borges
o signo de Escorpião
a distância entre o estampido do revólver e a parede
a palavra in-can-des-cen-te
Genaro, quando abro as pernas e deixo-o entrar



____

A poeta Silvana Guimarães
_
A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

[+ informações ] 




Comentários

  1. adoro sua arte, seu ritmo. eu viajo no pulso forte que as palavras de Silvana/Adelaide imprimem em suas poesias. beijos!

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