Tito Leite em oito poemas


Tito Leite (Cícero Leilton) nasceu em Aurora/CE (1980). É autor do livro de poemas Digitais do Caos (Selo edith, 2016). É poeta e monge, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem experiência na área de ensino de Filosofia, com ênfase em Filosofia política, Ética, Filosofia da Ciência e da Tecnologia. É curador da revista gueto. Tem poemas publicados em revistas impressas e digitais. Aurora de Cedro é o seu segundo livro.  


AÇÃO

Eu e você na Ágora
o diálogo
não é a pomba
da paz
que transborda
as pupilas da tarde.

Na luta pela liberdade,
uso outras armas.

O desafio
é nascituro,
nas ruas, nas redes
e nos dentes
dos tubarões.



SEM GARANTIA

Nos ventos alísios
tudo tão coerente
e a flor amanhece
em sol poente.

Não há deserto
de retirada,
o cupido não
tem asas,

as magnólias
são ignoradas,
a solidão pede errata
e a vida exige
código de barra.



STRAVINSKY

A vida, ainda que hercúlea,
é estreita: não há iluminuras
sem o extermínio de uma estrela.

Em cada ode, o poeta canta
uma morte: como quem recria
uma semente de alegria
no recreio dos segregados.

Rosa primavera sacrificada.
Queremos o insonhável:
a sagração do juízo inicial.



PAISAGENS

A José Lira

Festa do Buda:
o gato toma saquê
e foge da contemplação.

O mundo morde
e não sente as
cinco estações.

Distante do mercado,
seria o corvo
um ermitão?

Asas de papoulas lembram
pétalas de borboletas.

Vão-se as cerejeiras
e fica o haicai.
Flor de túmulo: as lágrimas
de quem parte.



KERIGMA

O navegante
é uma tarde esmagada
na barca.
Violáceas
são as águas.



ETERNIDADE

A poesia é avis rara
num mundo raso.

A dúvida faz parte
de cada bago do poema.

O poeta trucida
o coloquial e seus oficiais.

Se o ofício do dia
é um batismo de sangue,

ele não teme as flores
dementes.

Se a lógica dos abutres
aponta para o óbvio,

o poeta agarra-se
ao mito que nunca morre.



O INESPERADO

O inesperado
é um silêncio
cortante.

Mesmo em garrafa,
é pólvora.

O inesperado
é um bordado
com o nome expatriado abrindo
todas as portas.

O inesperado
me abraça, queima
minha pele e não
dá explicação.

O inesperado
é como o primeiro beijo:

lembra o solfejo
de uma canção
da Billie Holiday.



NONSENSE

A flor dementa
na música argêntea
da palavra.

Vera lúmen
do poema inquietante.

A expectativa
das moiras
é tecer verdades
com cigarras.

Sonoridade lua em Lácio:
declinar
o nominativo ácido.

Ganhar
ou extraviar-se —
o absurdo é delicado.



O poeta Tito Leite
_

A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

[+ informações ] 



Comentários

  1. Sobre teus, Poemas, Tito: Uma navalha que recorta, delicadamente, a Poesia e transforma versos em buquês, perfeitos para enfeitarem a mesa da sala e... às vezes, tremular com as velas, ao lado dos ataúdes! uuauuu Tou Showcada!
    Amei a brincadeira com o latim... língua morta? Não em teus versos!

    ResponderExcluir

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