Vicente Huidobro e a poesia do criacionismo


O poeta chileno Vicente Garcia-Huidobro Fernandéz foi o teórico e incentivador do criacionismo, uma teoria que afirma que “o poeta é um pequeno deus”, tentando gerar o mundo à sua imagem. Essa ideia nasce em grande parte da busca de um “universo independente de símbolos e signos”, nas palavras de Antônio Risério: “Antes de denunciar um traço aristocrático, como Xirau, acho mais interessante notar que Huidobro está em busca da afirmação de um traço distintivo essencial da linguagem poética. No caso, seu distanciamento em face do discurso cotidiano. Se ele defendia a autonomia do mundo poético, nada mais coerente que procurasse definir a especificidade do poema enquanto objeto de linguagem– a autonomia do poético como que exigindo uma configuração lingüística peculiar, um processo especial e específico de construção sígnica, uma semiótica própria.”(Huidobro: A Poesia Como Atentado Celeste, São Paulo: Art Editora Ltda, 1991, p. 15).

Segundo a poética de Huidobro, melhor do que cantar a rosa, é fazê-la florir no poema. O que o afasta da poesia de reconhecimento mais imediato, daquela fácilmente digerível que encanta mais do que desafia. Para esse poeta chileno o adjetivo “quando não dá vida, mata”, por isso é necessário que o poeta crie mundos e desafie constantemente os mundos que já existem.

Considerado também um dos precursores da poesia visual com seus caligramas, ainda em 1912, Huidobro é responsável por uma parte considerável do início das experimentações que, anos depois, serviriam de fundamento para a poesia concreta que, no Brasil, encontrará seu desenvolvimento com Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari.




Monumento ao mar
Tradução de  Domingos Carvalho da Silva

Paz sobre a constelação cantante das águas
Acotoveladas como os ombros da multidão
Paz sobre o mar às ondas de boa vontade
Paz sobre a lápide dos naufrágios
Paz sobre os tambores do orgulho e as pupilas tenebrosas
E já que sou o tradutor das ondas
Paz também sobre mim.

Eis aqui o molde cheio de fragmentos do destino
O molde da vingança
Com suas frases iracundas desatando-se dos lábios
Eis aqui o molde cheio de graça
Porque és suave e estás aí hipnotizado pelas estrelas.
Eis aqui a morte inesgotável desde o princípio do mundo
Até o fim de quem for o último a poder medir o tempo
Porque um dia ninguém mais irá a passeio pelo tempo
Ninguém ao longo do tempo pavimentado de planetas mortos.

Este é o mar
O mar com suas próprias ondas
Como os seus próprios sentidos
O mar tentando romper suas correntes
Querendo imitar a eternidade
Querendo ser pulmão ou névoa de pássaros cativos
Ou o jardim dos astros pendurados no céu
Sobre as trevas que arrastamos
Ou que casualmente nos arrastam
Quando de súbito voam todas as pombas da lua.
E escurece mais do que nas encruzilhadas da morte
O mar entra na carruagem da noite
E se afasta para o mistério dos seus esconderijos profundos
E se ouve apenas o ruído das rodas
E a asa dos astros aprisionados no céu
Este é o mar
Saudando de muito longe a eternidade
Saudando os astros esquecidos
Este é o mar que desperta como o choro de um menino
O mar abrindo os olhos e tateando o sol com o tremor das mãos pequenas
O mar empurrando as ondas que embaralham os destinos.

Levanta-te e saúda o amor dos homens.
Escuta o nosso riso e também o nosso pranto
Escuta os passos de milhões de escravos
Escuta o protesto interminável
Dessa angústia que se chama homem
Escuta a dor milenária dos corações de carne
E a esperança que lhes renasce das próprias cinzas cada dia.

Também nós te escutamos
Ruminando tantos astros colhidos em tuas redes
Ruminando eternamente os séculos naufragados
Também nós te escutamos
Quando revolteias em teu leito de dor
Quando teus gladiadores se batem entre si
Quando tua cólera faz estalar os meridianos
Ou mesmo quando te agitas como uma grande feira em festa
Ou mesmo quando amaldiçoas os homens
Ou te finges adormecido
Aranha tremula em tua grande teia à espera da presa
Choras sem saber porque choras
E nós choramos crendo saber porque choramos
Sofre sofre como sofrem os homens
Que se ouça o ranger de teus dentes na noite
Que te revolvas em teu leito
Que a insônia não te deixe atenazar os sofrimentos,
Que os meninos te apedrejam as janelas
Que te arranquem o cabelo
Tosse tosse rebenta em sangue os teus pulmões
Que tuas ferragens enferrujem
E te vejas calçado como erva de campo.

Sou porém vagabundo e tenho medo que me escutes
Tenho medo de tua vingança
Esquece minhas maldições e cantemos juntos esta noite
Digo-te faze-te homem como eu me faço às vezes mar
Esquece os presságios funestos
Esquece a explosão dos meus roçados.
Eu estendo-te as mãos como flores
Digo-te façamos as pazes
Tu és o mais poderoso
Que eu aperte tuas mãos nas minhas
E que haja paz entre nós
Sinto-te junto ao meu coração
Quando escuto o gemer dos teus violinos
Quando aí e estendes como o pranto de um menino.




A Poesia é um atentado celeste
Tradução de Waly Salomão

Eu estou ausente porém no fundo desta ausência
Existe a espera de mim mesmo
E esta espera é outro modo de presença
À espera de meu retorno
Eu estou em outros objetos
Ando em viagem dando um pouco de minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que me esperaram muitos anos

Cansaram-se de esperar-me e sentaram-se

Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam minha linguagem para expressar-se
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco

Angustioso lamentável
Vou-me adentrando nestas plantas
Vou deixando minhas roupas
Vou perdendo as carnes
E meu esqueleto vai-se revestindo de cascas
Estou-me fazendo árvore Quantas vezes me converti em outras coisas,..

É doloroso e cheio de ternura
Podia dar um grito porém a transubstanciação se espantaria
Há que guardar silêncio Esperar em silêncio




Ja vai Hatchou
Tradução de Floriano Martins

Como um ar de música estive em todas as
partes e nenhuma
Vi o amor e o cavalo antigo

As ondas do mar morrendo de peste
O trem a vida o pranto que resolve seu teorema

O aninhado em uma nuvem que viajava para o leste
Um pássaro que cantava esquecido de si mesmo

No fundo eu te amo
Es mais pálida que a hora e fazes a lenda
Tuas pálpebras é a única coisa que voa
E es muito mais bela que retornar do polo

Durante a noite
Teu coração reluz

Somente tu vives
La fora é o fim do mundo e do violoncelo
Urna lágrima treme a bordo do céu

A terra se afasta e se desinfla
Igual a teus olhos e teu rosto

O quarto se esvaziou pela fechadura




Canção da Morvida 
Tradução de José Jeronymo Rivera

A minha mão direita é uma andorinha 
A minha mão esquerda é um cipreste 
A minha cabeça pela frente é um senhor vivo 
E por detrás é um senhor morto. 

Os mortos perderam toda a confiança 
Nas fundações de nossas casas e de nossas línguas 
E ainda de nossos relógios enrolados no infinito 
Que podemos dizer-lhes 
Eles sobem no telhado da eternidade 
E olham ao longe 
Prendem solidamente as nuvens que estão cheias. 
Tocam o sino do vazio que deve saudar os séculos 
Como um chapéu 
Levam um anel em cada um dos cinco sentidos 
E um pássaro em cada céu 
Estão desterrados da terra enceuados no céu 
Eles descascam a cortiça dos séculos. 

Os vivos alongam seu cipreste 
Para dar bons dias à andorinha 
Se afastam sorridentes até o horizonte 
Sobem cantando até o andar da morte 
Falam em uma língua há muito tempo adormecida 
São póstumos como os ecos da flor do trovão 
E tal como os perfumes 
Trazem o corpo como a haste de um nenúfar precioso 
E não vão mais longe do que um tiro de pistola 
Contam os dias com caroços de frutas 
Que guardam em gaiolas como pássaros 
Contam as estrelas e lhes dão nomes amistosos e mornos 
É preciso não confundir os leitos e não se enganar de prato 
É preciso cantar como um nenúfar precioso 

Um pássaro trina para mil orelhas anônimas 
Uma estrela brilha para mil olhos recém-nascidos 
O pássaro troca de dia com um olhar 
A estrela deposita a morte e segue o seu caminho.




Arte poética 
Tradução de Anderson Braga Horta 

Que o verso seja como uma chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto fitem os olhos criado seja,
E a alma de quem ouve fique tremendo.

Inventa mundos novos e cultiva a palavra;
O adjetivo, quando não dá vida, mata.

Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo pende,
Como lembrança, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O vigor verdadeiro
Reside na cabeça.

Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema.

Somente para nós
Vivem as coisas sob o sol.

O Poeta é um pequeno deus.





O poeta Vicente Huidobro



A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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