Ana Cristina Cesar: 5 poemas e 5 fatos


Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro RJ, 2 de junho de 1952 - idem, 29 de outubro de 1983). Poeta, ensaísta, tradutora. Filha de Maria Luíza César e do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz César, um dos responsáveis, com o editor Ênio Silveira (1925-1996), pela fundação da editora ecumênica Paz e Terra. Aos sete anos, Ana Cristina tem seus primeiros poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa. Entre 1969 e 1970, interrompe o curso clássico no Colégio de Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia, para estudar inglês no Richmond School for Girls, em Londres, pelo programa de intercâmbio da juventude cristã. Ingressa, em 1971, na Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Desde a vida universitária, participa ativamente da cena cultural carioca e do movimento da poesia marginal, convivendo com poetas como Cacaso (1944-1987) e intelectuais como Heloísa Buarque de Hollanda (1939). Ainda em 1971, inicia a atuação como professora, em escolas de 2º grau e de idiomas. Após a conclusão da graduação, em 1975, colabora para publicações como Opinião, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, com destaque para Beijo, importante periódico de cultura, com sete números impressos, cujo processo acompanha desde sua criação. Em 1979 lança, de forma independente, o primeiro livro de poesia, Cenas de Abril. Seguem-se Correspondência Completa, uma carta ficcional, e Luvas de Pelica, publicado em 1980. Dessa mesma época datam as primeiras traduções, atividade que se torna objeto de estudo na pós-graduação: em 1981, torna-se mestre em teoria e prática da tradução literária pela Universidade de Essex, Inglaterra. De volta ao Brasil, é contratada como analista de textos pela Rede Globo de Televisão e lança, em 1982, A Teus Pés - reunião de títulos publicados até então e ainda o inédito que nomeia o volume. Aos 31 anos, em 1983, comete suicídio. Após sua morte, o poeta e amigo Armando Freitas Filho (1940) organiza sua obra e promove o lançamento dos livros Inéditos e Dispersos, em 1985, Escritos da Inglaterra, 1988, e Escritos no Rio, 1993.

Comentário crítico

Embora comumente identificada aos poetas marginais da década de 1970, Ana Cristina Cesar emprega os procedimentos comuns ao grupo a fim de criticá-los desde o interior: simula o discurso confessional a partir de falsas correspondências e diários; alcança o tom coloquial parodiando textos da tradição literária.

Ana Cristina Cesar - [Arquivo Ana C.. - Acervo IMS]

Em Final de uma Ode, de Cenas de Abril (1979), o eu lírico afirma: "[...] Quisera / dividir o corpo em heterônimos - medito aqui / no chão, imóvel tóxico do tempo". Se a confissão do desejo sugere a sinceridade autobiográfica, a formulação o inscreve no cânone da poesia portuguesa, dada a referência a Fernando Pessoa, sugerida em "heterônimos", e ainda em outros trechos da composição.
Já Correspondência Completa (1980) é paródia desde o título, pois se compõe de apenas uma carta. A remetente, além disso, chama-se Júlia, numa quebra da identificação entre autora do livro e autora da carta, o que impede, ao leitor, a certeza de uma confissão verdadeiramente autobiográfica. No que diz respeito à linguagem, há ambiguidades e lacunas, colocando para o leitor enigmas, e não a possibilidade de identificação.
A trajetória da autora, que pode ser acompanhada em Inéditos & Dispersos - reunião de poemas escritos desde os nove anos de idade -, revela busca pessoal da expressão poética: os primeiros versos são em geral líricos, metrificados e rimados. Já em A Teus Pés (1982) são longos, apresentando tom de conversa, e frequentemente questionam a sociedade conservadora e o lugar nela destinado à mulher. É o que se lê em Sete Chaves: "[...] Não sou dama nem mulher / moderna".
A existência de uma literatura dita feminina é tema dos ensaios da autora, interessada em problemas teóricos como as relações entre literatura e história, invenção e confissão, originalidade e intertexto. Também nesses escritos se revela a ausência de identificação entre Ana Cristina e a geração marginal: "A limpidez da sinceridade nos engana, como engana a superfície tranquila do eu", escreve ela em O Poeta É um Fingidor.








Estou atrás

do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra.



Flores do mais

Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais



Poesia

jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que
recuam
ausência freqüentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta



Quartetos

Desdenho os teus passos
Retórica triste:
Sorrio na alma
De ti nada existe

Eu morro e remorro
Na vida que passa
Eu ouço teus passos
Compasso infernal

Nasci para a vida
De morte vivi
mas tudo se acasa
silêncio. Morri



Samba-canção

Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone — taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida me desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...


5 fatos sobre a poeta



1. Antes de saber escrever, Ana Cristina já ditava seus poemas à mãe. Por vezes, fazia isso caminhando sobre o sofá e as pausas marcavam o ritmo dos versos e a mudança de linha. Escreveu muito na adolescência, entre 1966 e 1967, e marcava algumas de suas produções com a seguinte indicação: ‘Editora Problemas Universais’

2. Em 1976, já formada em Letras, foi incluída na antologia ’26 Poetas Hoje’, organizada por Heloísa Buarque de Holanda, e seu nome ganha outra projeção

3. Entre 1979 e 1981, fez mestrado em Essex, na Inglaterra. Porque estava lendo ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, foi conhecer a Haworth, a cidade em que Emily Brontë viveu

4. Em 1982, lançou, com o apoio de Caio Fernando Abreu, pela lendária coleção ‘Cantadas Literárias’, da Brasiliense, o livro ‘A Teus Pés’

5. “Com que direito, Deus, com que direito ela fez isso? Logo ela, que tinha uma arma para sobreviver — a literatura — coisa que pouca gente tem.” Quem escreveu isso, em carta, foi o escritor Caio Fernando Abreu, que admirava muito a poeta e amiga que acabava de tirar a própria vida. Ana Cristina Cesar morreu em 29 de outubro de 1983



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A poeta Ana Cristina Cesar

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 



Comentários

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