Resenha: As palavras me escrevem de Hildeberto Barbosa Filho

Por David de Medeiros Leite


Concluo a leitura do livro As palavras me escrevem (Ed. Mondrongo, 2019), de Hildeberto Barbosa Filho; ato contínuo, releio-o. Vou ao prefácio, da professora Sandra Luna, e recorro ao texto das “orelhas”, de Gustavo Felicíssimo. Ambos bons, analíticos e ilustrativos. Porém, algo de inquietação permanece em mim. Ah, já sei: preciso comentar com alguém, emulando impressões. Por outro lado, ocorre-me a ideia de resenhar a obra. Tergiverso. O receio, de não a traduzir em poucos parágrafos, pesa na balança da insegurança. Dou de ombros.
Reafirmo, para mim mesmo: Hildeberto é para ser lido e comentado. Até mesmo porque não creio que alguém o leia e permaneça incólume. Detalhe: isso serve para quem é afeito, ou não, às lides poéticas. Hildeberto Barbosa Filho, de forma despretensiosa, escreve para ambos os públicos. Desejam provas? Provas os dou: “O poema/ é planície,/ pastoral das letras.// Só me serve à dor/ de estar vivo/ para amar a morte/ como única metáfora.”
Duas estrofes que carregam ensinamentos aos afeitos à poesia, ao tempo que dissemina lirismo àqueles que as leem esporadicamente. E, talvez, o mais importante: Hildeberto ensina sem a enfadonha “bossa” professoral, como também poetisa sem açucarar os versos, como sói fazer os ávidos por público. Ou seja, faz poesia manejando os instrumentos literários com equilíbrio e madureza.
Um par de páginas à frente, outro “achado” poético para ser sorvido observando ritmo, pausas, rimas, além de nuances implícitos ou explícitos:

“Envelhecer
é saber menos a medida
das coisas,
passar ao largo do oxigênio
e da luz que as tornam vivas
e únicas,
sabendo a vinagre o miolo de toda
sabedoria.”

Outra vertente hildebertiana que requererá redobrada atenção: a proposital dualidade dos temas, onde taciturnidade e exuberância convivem no mesmo verso, deixando que cada um extraia o que melhor lhe aprouver. E vejam que é extremamente tênue a linha que espaça tão díspares sentimentos. Como, também, merece igual observância a própria temática eleita por Hildeberto, deixando sempre a certeza de que ele absorveu o ensinamento drummondiano naquilo de penetrar, surdamente, no reino das palavras, pois “lá estão os poemas que esperam ser escritos”.
Às folhas tantas, o cerne do livro: “Eu escrevo/ ou as palavras me escrevem/ na leveza da tela?// Há tanta luz/ nos versos que me relatam,/ tanto silêncio/ salpicando meu rosto,/ tantos acordes amputados/ na música que me pauta.// Se escrevo, se/ as palavras me escrevem,/ não importa./ Poesia e poema não têm causa/ nem origem nem cor”.
O atilamento de Hildeberto em transpor-se da seara do papel à tela do computador e, desta, transfigurar o incômodo da intensidade da luz em silêncio a salpicar-lhe o rosto, já pagaria qualquer poema. E, se alagarmos um pouco o entendimento, nos será fácil denotar que as palavras lhe servem de espelho, traduzindo-lhe muito mais que a mera imagem, pois alcançam o âmago de sua alma-sentimento.
Gustavo Felicíssimo, em feliz comentário (para não perdermos o trocadilho), diz que esse livro de Hildeberto, composto de 55 poemas, também pode lido como um “poema-livro, como é o ‘Poema-sujo’, de Gullar e o ‘Livro de Silbion’ do Nejar”. Ouso ratificar que a obra de Hildeberto possui essa unicidade temática e exemplifico: quem teve a oportunidade de ler Nem morrer é remédio: poesia reunida (Ed. Ideia, 2012), pode muito bem seguir com o (ótimo) Dançar com facas (Ed. Mondrongo, 2016) e, na mesma pisada, rumar para As palavras me escrevem, pois terá a sensação de percorrer um único livro. Isso para falarmos em poesia.
Em prosa, a obra de Hildeberto é prolífera. Afinal de contas são anos a fio dedicando-se ao “estudo da poesia, da crítica literária, das relações entre jornalismo e literatura e dos gêneros heterodoxos, como diários, memórias, biografias, cartas e confissões”.
As palavras escrevem Hildeberto, e ele faz versos. E declara o porquê de fazê-los:

Faço versos
como quem nada procura
na escura vertigem
da página em branco.

Faço versos
que não me fazem melhor
nem pior.
Versos que não me dão
qualquer segurança.

Muito menos a esperança
de um dia ser feliz.
Faço versos
para que o silêncio não mastigue
as vogais do meu canto,

ou como quem se encanta
diante do nada, a mais delicada
matéria do poema.”

Por isso, digo-vos: leiam Hildeberto Barbosa Filho. E o façais abertos a aprender com suas admiráveis lições. Lições literárias, lições poéticas, lições de (para a) vida.












*David de Medeiros Leite (Mossoró-RN, 1966): Professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha. Entre outros, publicou os seguintes livros: Incerto Caminhar; Ruminar (Poesia); Cartas de Salamanca; Casa das Lâmpadas. (Crônica); Mossoró e Tibau em Versos Antologia Poética (em coautoria com Edilson Segundo); Sarau das LetrasEntrevistas com escritores (em coautoria com Clauder Arcanjo). Participou das coletâneas Café & Poesia I e II. Organizou em parceria com Laura Barreto e Raí Lopes a coletânea Café & Poesia III.

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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