três poemas de Rodrigo Novaes de Almeida

Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro, 1976) é escritor, jornalista e editor, com passagens pelas editoras Apicuri, Saraiva, Ibep e Ática. Atualmente, é editor na Estação Liberdade. Autor dos livros Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018) Carnebruta (Contos, Editora Apicuri e Editora Oito e Meio, 2012), A construção da paisagem (Crônicas, 2012), Rapsódias — Primeiras histórias breves (Contos, 2009) e a ficção A saga de Lucifere (The Trinity Sessions — Cowboy Junkies, Ed. Mojo Books, 2009). É fundador e editor-chefe da Revista Gueto e do selo Gueto Editorial, projetos de divulgação de literatura em língua portuguesa e celeiro de novos autores. E-mail para contato: rnalmeida76@gmail.com




Sobre o que sonham monóceros?


Porque monóceros sonham que nós existimos
— seres pequeninos dormindo sobre uma pedra sonhando
que nós existimos —,
então, nós existimos.
Nós e pedras,
desgarrados dos cursos das águas,
às margens de rios.
Nós e pedras,
e também estrelas e galáxias.
Nós e pedras,
reduzidos às experiências universais de eras;
                                       
                 [mesmo nos séculos em que não aprendemos nada,
                 em que erramos em tudo,
                 em que nunca estivemos tão tristes,
                 e também naqueles em que estivemos todos mortos e bem.]


Mas se monóceros não sonhassem que nós existimos,
se nós não existíssemos,
seria preciso que fôssemos inventados?




Do filho malsucedido


há uma tristeza que não sai de mim
mesmo agora
segurando meu filho pela primeira vez
(foram os livros que me estragaram, reconheço)


um dia terei que dizer a essa criatura desagradável
se ela não morrer nos próximos dias
filho, não leia os livros que li
seja feliz


como essa gente que deixa a televisão ligada aos domingos
e nos dias úteis
engorda o câncer que cresce dentro de si




Guerra civil


Só se lembrarão de como terminou a guerra
não saberão dizer em que momento ela começou
Teria sido com as bombas caindo sobre a primeira cidade a trair a República?
— ou seria ela a última cidade a defender os ideais republicanos?
Não saberão dizer


Antes irromperam os grupos paramilitares nas ruas
Antes nos atingiram o arbítrio e as execuções
Antes sobreveio o esfacelamento das instituições democráticas
Antes se deram os arranjos e a pilhagem
Não saberão dizer


Depois que os poderes ruíram
sobraram os homens de farda para impor a ordem
e estes trouxeram a mordaça e o azorrague
seguiram-se fome, cólera-morbo, malária
Os filhos do solo batidos, emudecidos
Contudo, só se lembrarão de como terminou a guerra
« Tudo aconteceu muito rápido », dirão os mansos




O poeta Rodrigo Novaes de Almeida



__

A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

Comentários

Poetas mais lidos na Poesia Avulsa:

Conceição Evaristo: Cinco Poemas Definitivos

Patativa do Assaré: Poemas de Luta e de Terra

Três poemas de Raul Bopp

Adriane Garcia: Poemas de Quase Amor

Cesare Pavese: Três Poemas Traduzidos

Tarso de Melo: Íntimo Desabrigo

Roque Dalton: Um Poeta Guerrilheiro

Alberto Bresciani em Seis Poemas

Seis poemas visuais de Fabiano Fernandes Garcez

Micheliny Verunschk: Poemas Esparsos