A la Adélia
lavo panelas roupas e pratos
e me sinto um trapo.
meu homem me engana
com as minas bacanas
vestidas de prata, brinco brilhante
devo dizer
lavo as minhas panelas
e me sinto bela
como diz Adélia?
levanto cansada
carregando a pasta
entro no meu carro
e penso: como era bom
quando o homem provia
o sustento da casa
dos filhos e filhas.
como era bom
quando o homem provia!
amei casei pari
e agora de noite
meu homem namora
as mulheres do vídeo
moçoilas fagueiras
belas rameiras
e eu me pergunto
vida correta pra que?
vontade de mudar o mundo
ser Joana de baixo
como a cada noite
no vídeo se vê.
devo bater
o osso no prato
e não achar um saco?
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Datilografado com emendas à mão.
Sem data. Acervo Unicamp.
Mario Schenberg: Amado Alguém
Disse-lhe um dia: aquela te ama.
Deita-te com ela. Ando cansada
De lhe ouvir confissões a toda hora.
Os olhos cerrados, a fala mansa
Respondeu-me: "E como posso?
Se o que ela pintou de mais humano
Foi uma poça d'água..." Era pintora aquela.
Disse-me um dia: "Vivemos juntos. No Egito.
Uma vida antiga, Sabias?"
Não.
E falávamos de possíveis universos
Das infinitas matérias. Ele dizia:
"Não contes a ninguém... mas acredito
Acredito, acredito."
Hospedou-se em minha casa
Quando o perseguiam. às vezes saía à noite:
Chapéu, charuto, casaco. Ríamos
Dos disfarces absurdos: tão ele.
Todos o reconheciam.
Juntos inauguramos
Um ciclo de palestras na Unicamp:
Física. Poesia. Rigor. Magia.
Amado Mário. Lúcido ao infinito.
Veemente, Humilde.
Igual a todos os gigantes.
No silêncio é que nos entendíamos.
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Datilografado com emendas à mão.
Sem data. Acervo Unicamp.
Esses dois poemas foram retirados da obra Hilda Hilst: da poesia - Companhia das Letras
e fazem parte do capítulo "Poemas Inéditos, Versões e Esparsos"
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| A poeta Hilda Hilst |
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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ]

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