Alberto Bresciani em Seis Poemas

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de Incompleto movimento (José Olympio Editora, 2011) e de Sem passagem para Barcelona (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura - Poesia de 2015). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014), Hiperconexões: realidade expandida (Editora Patuá, 2014), Pássaro liberto (Scortecci Editora, 2015), Pessoa – Littérature brésilienne contemporaine (Revista Pessoa, edition spéciale – Salon du Livre de Paris, 2015), Escriptonita (Editora Patuá, 2016) e Hiperconexões: sangue & titânio (Editora Patuá 2017) . Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.





SOBREVIDA


Contornando
as arestas da pedra
o sobrevivente deixa
a orelha
alerta

É raposa
caçador solitário
faminto
e se contentará
com um inseto

O sobrevivente quer de volta
os passos
o fígado regenerado
outra chance
de ligar pela última vez

O sobrevivente caminha
pelo corredor
abre a janela e vê
que o mundo
não acabou


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DEUSES APRENDIZES


É preciso que o ar
se esconda por dentro do corpo

pelo mais fundo
A pele esquecida de respirar

É preciso uma concha
protegendo

contra emboscadas, cordas
aparando flechas

atiradas contra a máscara
torta e imberbe

É preciso
acordar e acordar

cumprir trabalhos
empurrar as pedras

Do alto de seu trono
Zeus tem prediletos

Deuses meninos também sangram
Não duram para sempre



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FANTASMA


Dobrar o lençol
acalma
mas não mata
o fantasma

No abstrato
de seu corpo
vivem lembranças
São como líquido

infiltrado nas trincas
paredes, descendo
pelas torneiras
São rio, são mar

Não se apaga
a memória da água



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POESIA


Não sabia
que deixava
sobre o altar
a lata de gasolina

E menos ainda
do pavio

e do fósforo



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ESPINHO


A hora é a hora de começar o dia
mesmo que começar seja placebo
para dar pressa ao fim de outro
que não terminou, porque já tinha
três olhos abertos cedo, durante
séculos de não-luz, o coração
aos saltos e cada tarefa esquecida
é outro asteroide feito de sangue
coagulado, raspando as veias,
a marca da vontade ausente, tranca
entre levantar-se e andar, nunca
ser completo, boneco sem braços,
como a imperfeita lista de compras
que jamais será qualquer receita.
E o corpo em fatias e há algo
que estanca e não se sabe o porquê,
uma mulher sozinha, um veredito
de perdição, o espinho



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REPLAY


Como nos filmes que dublam o absurdo
e tudo se repete e se repete, seguimos
cruzando o corredor, dia após dia, nossos
amuletos nos bolsos, enrolados nos dedos
tentando abafar o medo e o som dos passos
esquecer as ameaças que se abrem em pares
e exibem o espetáculo de ossos, entulhos
de memória, nossa pedra encosta abaixo
febre fora do sono, como o peixe no aquário
nadando em círculos ou cão correndo
atrás da cauda, sem resposta


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O poeta Alberto Bresciani

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez [+ informações ] 


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Comentários

  1. Coisa mais linda! Vida longa ao poeta e ao editor!
    Grata iniciativa André Merez!
    Ler as poesias do querido poeta Alberto Bresciani me faz compreender melhor a vida!
    Gradidão!
    Regina Mello

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    1. Coisa linda mesmo, Regina Mello! A poesia do Bresciani é única. Uma grande honra tê-lo por aqui. Muito obrigado pela visita e pelo comentário.
      Um forte abraço!

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  2. A postagem ficou lindíssima. O Poesia Avulsa cada vez melhor. Alberto Bresciani é um dos poetas que mais gosto de ler. Sua poesia fala profundamente de uma espécie de "maldição de ser humano". Acordar, todos os dias, e seguir, e seguir e seguir...

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    1. Olá, Adriane querida!

      Também gosto imenso de ler a poesia do Bresciani. E mais ainda foi minha surpresa no trato com ele durante a inclusão desses poemas. Uma pessoa das melhores. Esta POESIA AVULSA está me dando muita satisfação. Feliz de encontrar um comentário seu por aqui. Forte abraço!

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