Adriano B. Espíndola Santos e o conto 'Lance'

Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor dos livros Flor no caos, 2018 (Desconcertos Editora), e Contículos de dores refratárias, 2020 (Editora Penalux). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mbenga, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.



Lance

Nunca fui muito de café. Porém, aquilo entrava pelas narinas, subitamente, que, quando mais, estava dominado; ou alertado da presença de Jenifer. Não sei bem, até hoje, se Jenifer ou Jennifer, ao modelo inglês; enfim, não faz muita diferença, não se fala alongado com várias consoantes, nem perdi tempo em supor a verdadeira intenção de seus amáveis pais interioranos.

Pequenos, entrávamos em paranoias de competição. Chegamos a brigar feio; agarramo-nos no chão casquento, e da confusão as lacerações não partiram de minhas mãos, ou das mãos dela, disso eu sei. Fomos, por isso, proibidos de nos encontrarmos por longos seis meses. Daí, intuo que ela também pensou – martirizei-me pela besteira que tinha feito; rezava ajoelhado no milho para pedir perdão – pelo que não fiz; pelo que pareceu ser.

Com dez anos de idade não se sabe o que se quer, se correr, soltar pipa, jogar bola de gude ou, mais provável, tudo de uma vez. Nossa briga partiu de um lance fortuito, sem importância: o Juarez, um menino da rua de baixo, que mal aparecia pelas redondezas, dessa feita fez o favor de trazer consigo a ínsita danação; provocou, diversas vezes, tanto a mim quanto a ela, que teria uma imagem de minha mãe e de sua mãe na terra rascunhada com um galho seco; que eu estava pisando; que ela teria cuspido. Estou certo de que não vimos nada daquilo; mas acreditamos, principalmente, na força da voz insistente e ameaçadora, e na potência corpórea do garoto de treze anos. Vale salientar, quando se é muito menino, a diferença de um ano que seja já é algo abissal, na altura, na postura, na manha de moleque de rua.

Com essa bobeira, depois de o pestilento ter se debandado com a aproximação de adultos – claro, um grandessíssimo de um covarde –, ficamos nos olhando e, de repente, como cavalos prontos para a largada no jóquei, partimos para nossas casas, em lados opostas do quarteirão, aflitos; sobretudo, envergonhados. E, suponho, com até bastante convicção, que a vergonha nos afastou por mais uns cinco anos, apesar de nos vermos vez ou outra na escola, na pracinha. Olhá-la, de soslaio, era como olhar, do fundo de uma casamata, a passagem de um batalhão prestes a abocanhar comunistas. Faço a maldita comparação porque vivíamos esse período nefasto da história; meus pais diziam: “Cuidado para não ser levado como fulano, sicrano, beltrano, etc., etc., etc. Não faça besteira. Não se meta com comunistas. Compreende o que aconteceu com eles, não é?!”. Olhá-la, ou admirá-la, portanto, era pecaminoso, até perigoso, porque não sabia que amizades teria, que desejos obscuros passariam por aquela linda cachola.

Pude, num ímpeto maluco, chegar perto de Jenifer (tratemos assim, Jenifer; mais apropriado para o nosso português), e despachei umas poucas palavras, ainda com receio: “Não sei se você tem raiva de mim… Acho que pode entender, agora, que não tive culpa de nada. Éramos jovens, meninos, inocentes; influenciáveis…”. Ela manteve o ar habitual. Virou o rosto, como a pensar, e simplesmente respondeu: “Olha, João, se tem uma coisa que nunca fui foi influenciável, como diz. Mas não levo mágoa, não. Pode ficar tranquilo, se é isso que esperava”. Não tive tempo de dizer mais nada. A voz embargou, também. Uma amiga a chamou. Decerto, apressou-se para fugir da enrascada de estarmos só eu e ela.

Apesar de pronunciar que não havia mais mágoa em seu coração, não me senti inteiramente liberado. Parece que falou para se liberar do encontro. Iludo-me, talvez; sou tolo, admito, com esses meus pensamentos vagos que não me levam a lugar nenhum. Carrego uma aparente brandura, que chega a confundir; a que mamãe pondera: “Meu filho, desse jeito, com essas delicadezas todas, não vai arranjar uma namorada”. Mamãe falava de minhas delicadezas por gostar de ler romances e poesias; por gostar de encontrar alguma beleza nas rosas, no jardim e na horta, que cultivava com tanto esmero, a sumir-me no tempo.

Não demonstro isso à Jenifer, para não a assustar; mulheres gostem de homens robustos; eu não sou robusto, grosso ou algo do tipo. Não conseguiria ser. Ainda mais tendo me embrenhado perdidamente nas narrativas cruas dos russos Tchekhov, Dostoiévski e Tolstói. Bom, sei que são de linhagem comunista, pelo menos estavam lá no epicentro do instigante levante soviético. Não sou bobo a ponto de desconhecer a história; e que, se me pegarem com esses contrabandos, seria condenado à prisão, ao degredo ou à morte.

Do quintal (nossas casas se comunicam ligeiramente pelos fundos), sinto o cheiro do café de Jenifer; sei que ela está ali, e isso me acalma. Beberico um pouco do café de minha mãe; de fato, é chafé, como meu pai fala, mas tento me aproximar, por outros sentidos, de quem amo.
Penso em deixar escapulir no seu quintal Noites brancas. Quem sabe uma maneira de segredar a sutileza do que precisa ser dito, nesses tempos confusos; ela saberá muito bem decifrar o meu intento do encontro. Nunca vi mulher mais esperta e inteligente.

Passarei, de modo assíduo, em sua rua, nos horários em que costuma sair. Há uma pequena cantina na esquina, um excelente ponto de observação e, oxalá, de encontro. Sei que frequenta o local esporadicamente; Leônidas, o dono do simpático estabelecimento, me confidenciou; inda foi generoso de dizer os horários, mais ou menos: “Não se fie muito, rapaz, ela é de surpreender”. Eu bem sei.

 Espero que possamos seguir discretos, feito o Sonhador e a Nastienka, alheios aos infortúnios que nos cercam; mas, diferentemente, centrados no desejo mais ínsito de nossos sonhos: termo-nos, entregarmo-nos aos laços indeléveis do sabor carnal e desfazermos as memórias erradas do passado.



__

O contista Adriano B. Espíndola Santos

__


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

Comentários

  1. O que você achou desta postagem? Deixe aqui as suas impressões. Isso é importante para o nosso trabalho.

    ResponderExcluir
  2. Gostaria de indicar algum autor para publicação na revista? Deixe sua sugestão aqui nos comentários.

    ResponderExcluir

Postar um comentário