Aires Almeida Santos e a figueira africana

Aires Almeida Santos nasceu no Chinguar, província do Bié. Passou a infância em Benguela e a adolescência no Huambo. Em Benguela fez os estudos primários e no Liceu do Lubango concluiu o 7º ano. Trabalhou em Benguela como contabilista no antigo Grémio das Pescas.

Foi preso nessa cidade em 1941 devido às suas ideias consideradas subversivas pela polícia colonial. Voltou a ser preso anos mais tarde fazendo parte do "Processo dos 50". Esteve vários anos preso sendo solto pouco tempo antes da independência, passando a viver com residência fixa em Luanda, onde exerceu jornalismo.

Tem colaboração literária dispersa nos vários jornais e revistas publicados em Angola, como Jornal de Benguela, O Intransigente, O Planalto, O Lobito, Jornal de Angola e A Província de Angola. Morreu em 1991, na cidade de Benguela.

Está representado em diversas antologias nomeadamente na Antologia de Poesia Angolana, Amostra de Poesia, Poetas Angolanos, Antologia Poética Angolana, Literatura Angolana de Expressão Portuguesa, Poesia africana in revolta. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos e foi Prêmio Nacional de Literatura em 1989.

“Eu comecei a escrever muito novo, por volta dos meus 14, 15 anos. Os primeiros ensaios literários, entre aspas, evidentemente, foram num jornal do Huambo, quando eu ainda frequentava o Colégio Alexandre Herculano. Depois, o gosto ficou sempre. O primeiro original que eu preparei deste livro continha na altura cerca de cinquenta poemas. Circunstâncias diversas fizeram com que desaparecessem vários desses meus poemas... e, como diz o David Mestre, deu muito trabalho, ir apanhar um aqui, outro acolá, outro além... A minha filha chamou a si esse trabalho e ela tem estado a fazer um trabalho de recolha com uns amigos.”.

Mário António refere-se a este poeta, dizendo: “Ayres de Almeida Santos, radicado em Benguela, é um poeta que se confunde, nas suas qualidades e nas suas limitações, com a cidade mestiça que lhe serve de fundo aos seus poemas. A primeira notícia que tive a seu respeito foi através de «Coimbra em África»: Victor Mattos e Sá, na sua já mencionada conferência, considera-o o poeta mais africano do seu conhecimento; o autor do livro, o dr. Almeida Santos, que o ouviu dizer os seus poemas, refere-se-lhe dizendo «o poeta de quem tenho o nome mas não o talento» - e todos sabemos que o ilustre advogado é pessoa talentosa.”

Francisco Soares considera este poeta um caso muito especial “cuja lírica é indissociável da cidade crioula de Benguela. As características técnicas das suas obras (em número pequeno mas espalhadas por antologias do mundo inteiro) assemelham-se às dos poemas de Viriato da Cruz... mas o espaço das referências e o tipo da vivência que pulsa em poemas como «Meu Amor da Rua Onze» impossibilitam o enquadramento pacífico num grupo que se cristaliza principalmente numa revista em que Aires de Almeida Santos nem sequer chegou a participar.”.





A mulemba secou

A mulemba secou
A mulemba secou.
No barro da rua,
Pisadas, por toda a gente,
Ficaram as folhas
Secas, amareladas
A estalar sob os pés de quem passava.

Depois o vento as levou...
Como as folhas da mulemba
Foram-se os sonhos gaiatos
Dos miúdos do meu bairro.

De dia,
Espalhavam visgo nos ramos
E apanhavam catituis,
Viúvas, siripipis
Que o Chiquito da Mulemba
Ia vender no Palácio
Numa gaiola de bimba.

De noite,
Faziam roda, sentados,
A ouvir, de olhos esbugalhados
A velha Jaja a contar
Histórias de arrepiar
Do feitiçeiro Catimba.

Mas a mulemba secou
E com ela,
Secou tambem a alegria
Da miúdagem do bairro;
O Macuto da Ximinha
Que cantava todo o dia
Já não canta.

O Zé Camilo, coitado,
Passa o dia deitado
A pensar em muitas coisas.

E o velhote Camalundo,
Quando passa por ali,
Já ninguém o arrelia,
Já mais ninguém lhe assobia,
Já faz a vida em sossego.

Como o meu bairro mudou,
Como o meu bairro está triste
Porque a mulemba secou...
Só o velho Camalundo
Sorri ao passar por lá!...



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O poeta Aires Almeida Santos


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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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