Daniel Perroni Ratto e o matadouro de Pasárgada

Vencedor do Prêmio Guarulhos de Literatura 2019, na categoria, Escritor do Ano, com o livro, Alucinação (Algaroba, 2018), Daniel Perroni Ratto é poeta, jornalista, músico e editor, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA/USP. É autor dos livros, Urbanas Poesias (Ed. Fiúza, 2000), Marte mora em São Paulo (A Girafa, 2012), Marmotas, amores e dois drinks flamejantes (Ed. Patuá, 2014) e VoZmecê (Ed. Patuá, 2016).

Foi cronista do UOL Música, editoria de música do portal Culture-se e do jornal Diário do Nordeste. Faz parcerias de composição com artistas da cena musical brasileira como: Tatá Aeroplano, Douglas Mam, Bleck a Bamba, Daniel Medina, Juli Manzi, etc.

Em 2015, Daniel Perroni Ratto foi um dos poetas selecionados para integrar a “Exposição Poesia Agora”, no Museu da Língua Portuguesa, e, em 2017, na Caixa Cultural de Salvador e na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. Participou, como convidado, em 2017, da XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, onde esteve na mesa “Mercado Editorial” do I Seminário de Escrita Criativa e, também, apresentou seu livro VoZmecê, na Plataforma de Lançamentos da Bienal.

Participou do livro Golpe: antologia-manifesto (Nosostros Editorial, 2017), da Antologia da Resistência – A Poesia Queima (Patuá, 2018), Coletânea 100 Sonetos de 100 Poetas (Inst. Horácio Dídimo, 2019) e da Antologia 70 x Caio (Patuá, 2019). Perroni Ratto é editor da Editora Algaroba. 




O Dia da Ascensão

Na minha condição milenar
de macho-alpha cavalo alazão
tento aprender, me reinventar
abortar essa falha dominação

Com notória concepção
de um frágil despertar
dou-me à tua revolução
à teu direito de se libertar

Esse dia é teu destino
por Direitos Iguais a lutar
Clara Zetkin em ato destemido
instituiu-o a celebrar

Tome o vão de Lina Bo Bardi
Por onde quiser passar
proteste em passo libertino
até o mundo inteiro acordar

Não se deixe amedrontar
com ameaças e agressões
a morte não pode ser
o fim desse caminhar

Não desista da liberdade
dizia Simone de Beauvoir
transforme-a em substância
da sua plena existência

Mande um foda-se
aos que lhe querem subjugar
Faça como Eva e desafie
o status quo a lhe intimidar.




Corpos absolvidos da imaginação

Vagões viram fornos sobre trilhos
Saci com duas pernas sofre bulling
Alunos expulsos pelos chulés
negarão registros aos inelegíveis

Não há dúvida, as tretas desencadeiam
ajudas de custo nas manchetes
As flores de lótus espalham pânico
Os mercados atacam com chibancas

A febre amarela causa mortes
na movimentação neonazista
Diálogo ameaça Estados fortes
como uma música de Cazuza

Homem-diabo costura sua própria boca
Leilões rendem dias felizes
As prisões brasileiras explodem em barbárie
A vaca cai do céu e o lucro é história

Todo mundo tem um lado onde o ganso acaba afogado
e o catador de latas é o primeiro condenado
Quando se reduz a projeção
o falso taxista é caçado
sobra até pro aleijado
divulgar as ideologias de dominação

Eleitores querem novos nomes
Estagiários não servem para acender o rojão
Assaltante tira onda no facebook
e a polícia aperta o botão curtir

Deveria deixar sorrir
quando o Planalto arma uma ofensiva
O mundo amanheceu sarcástico
nas lavanderias de Brasília

Nasceu o diabo em São Paulo
e ele matou o Luan Santana a tiros
PMs invadem Cidade de Deus
para recuperar a espada do He-Man

O mau velhinho é visto de vermelho
no elevador panorâmico do Shopping Iguatemi
batendo punheta enquanto a duende gostosa gargalhava

O Homem-mãe dá leite de seus peitos
aos aloprados moradores do Congresso Nacional
Discos voadores resgatam trabalhadores escravos
nas fazendas oligárquicas do Planalto Central

Padre extermina com seu fuzil estadunidense
quinze infiéis na missa de domingo
Aleluia, irmão!

Nesse meio tempo, ação!
cyborgs levam suas famílias
aos festejos circenses
Homem rouba um carro
para ir ao próprio julgamento

Movimento estudantil sob ataque
Uma kombi foi incendiada
e no batucar dos atabaques
uma galinha foi a sobrevivente
Fênix

Com seu colar de ônix
uma mulher dá à luz
Sangrada e executada
a peixeiradas

As notícias continuam caluniosas
e um preso acusado de suicídio
é encontrado morto em sua cela

Pedestres são armadilhas
para motoristas em ruas e estradas
Deveriam vestir purpurinas

Sequestrado por seres de outro planeta
avisa que seus captores só negociarão
sem a presença ofensiva da polícia

Na elucidação de surtos passionais
a chuva de meteoros avermelha a noite chapada em
Diamantina
e as camisas dos movimentos sociais

Portas de edifícios te olham
afirmando que a fé faz bem
Sensacionalismo barato abandona teu programa
favorito
quando te avisa que a sogra faz macumba
não espera dar a hora
escala a parede da casa e foge desaforado
pulando fogueiras no telhado

Sem ordem e à espera do progresso
ou de outra viagem à Lua
reagirei ao Golpe e às fake news

Que venha o apedeuta de fuzil
ou a Rainha de Copas
Podem cantar as vedetes da Urca
até comprar balas made in Brazil

Respeito copiosamente sua mutação
para além do calor extremo de suas palavras
sem censura peço licença e atenção
Esse delírio é de estimação, é o cercado das lavras
Da vontade de existir De minha Alucinação.




Santas Profanas

É Admirável, neste Mundo Novo,
a resistência de antigas bruxas,
incríveis forças da natureza
eternizadas em cristais de fogo.

Para cada livro a 232.7 celsius,
para cada crime de pensamento,
haverá um de nós a combater,
a criar mais filosofia divergente.

A diversidade não será calada,
os rituais xamânicos continuarão
produzindo ligações etéreas
entre a práxis, a retórica e o universo.

E, graças ao Deus, ao Alienígena,
aos óvulos da maternidade,
entre clones, cyborgs e igrejas,
surgem novas Santas Profanas.




Minha tia pintou um quadro

Certa vez, minha tia pintou um quadro.
Ela era artista das boas, eu era menino.
Ao visitar-me, da misteriosa Paraíba,
Fincou-o na parede branca, as brumas.

Era uma lua minguante das mulheres fortes
Das bruxas queimadas na Inquisição
E os tons de azul de um universo místico
Faziam-me imaginar suas aventuras e sortes.

Guerreira, suas desventuras em série
A moldaram em resiliente defensora
De tudo o que sofresse a dor da repressão
Feiticeira, uma persona fora de série

Tia Mirtes se exilou no Chile, na ditadura
E correu pelos países da América do Sul
A fazer amizades, amores e filosofias

Chegou na Paraíba de um lindo céu azul
Plantou a revolução e fincou a bandeira
onde nasceu o partido dos trabalhadores

Depois de uma de suas últimas aventuras,
A reconexão com a ilha de suas utopias,
Lá no sítio, no Gereraú, ligava o som do carro,
último volume a tocar Buena Vista Social Club.

Queria ter escrito esse carinho muito antes
Para ver a alegria saltar em seus olhos
E dar-lhe certeza que as lutas mais importantes
Ainda estariam em sua vida, em seus poros

Não deu tempo, hoje a Tia Mirtes partiu
Vai pintar uma lua linda, bem lá de pertinho
Não sem antes revolucionar o universo
E mostrar que a vida é de quem se libertou.




Os pardais devassos do torrão natal

É tanto absurdo
que a fala sai da boca
do mudo

É tanto absurdo
que escuta vozes insanas
o surdo

É tanto absurdo
que as imagens invadem
as córneas do cego

É tanto absurdo
Que a cor do negro
Cega o obtuso

É tanto absurdo
que a criança não tem
mais medo do escuro

É tanto absurdo
Entanto as mulheres sempre serão
as provedoras do mundo

É tanto absurdo
que o pote de ouro do leprechau
Foi roubado pelo mau agouro

É tanto absurdo
Entanto a atração pelo mesmo sexo
é só mais um amor do universo

É tanto absurdo
Seu Manuel
que nem sei mais quantas
estrelas têm na Bandeira
E hoje, Pasárgada é matadouro.



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O poeta Daniel Perroni


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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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