Fernando Sylvan: um poeta timorense

Fernando Sylvan – Timor (1917/1993). Pseudónimo de Abílio Leopoldo Motta-Ferreira, escritor de origem timorense. Foi poeta e ensaísta, mas também dramaturgo. Esteve muitos anos ligado à oposição portuguesa no tempo de Salazar e Caetano. Representou, depois de 1975, várias vezes, os escritores Timorenses em fóruns internacionais e criou o Dia Internacional da Língua Portuguesa. A sua poesia tem duas componentes distintas: a de referência timorense com uma estilística entre modernista e panfletária e a de referência genérica e autobiográfica. Desenvolve um conceito dinâmico de Pátria, colocando-o na dependência de um exercício de pensamento, cidadania e fraternidade que lhe permitia reclamar da colonização e do racismo europeus e justificar os processos de independência, desde que fossem autênticos.



meninas e meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?



rota

Não sei se o mar tem voz
Mas a sua voz
Desde pequeno me falava lento.

E eu via nele
O que não existia na memória.
Ninguém sabia
De meus avós e bisavós
Se era quadrado ou redondo
Se tinha vida ou não.

Mas sem saber se tinha voz o mar
Ouvia a sua voz.
E sem saber se tinha vida ou não
Sentia a sua vida.

Foi ele que me disse
Que havia Espaço e Tempo.

E comecei a viajar sem medo da viagem.

E nunca mais parei
Com medo da paragem.



Mensagem do Terceiro Mundo
1971 - Ano internacional contra o racismo

Não tenhas medo de confessar que me sugaste o sangue
E esgravataste chagas no meu corpo
E me tiraste o mar do peixe e o sal do mar
E a água pura e a terra boa
E levantaste a cruz contra os meus deuses
E me calaste nas palavras que eu pensava.
Não tenhas medo de confessar que te inventaste mau
Nas torturas em milhões de mim
E que me davas só o chão que recusavas
E o fruto que te amargava
E o trabalho que não querias
E menos de metade do alfabeto.
Não tenhas medo de confessar o esforço
De silenciar os meus batuques
E de apagar as queimadas e as fogueiras
E desvendar os segredos e os mistérios
E destruir todos os meus jogos
E também os cantares dos meus avós.

Não tenhas medo, amigo, que não te odeio.
Foi essa a minha história e a tua história.
E eu sobrevivi
Para construir estradas e cidades a teu lado
E inventar fábricas e Ciência,
Que o mundo não pôde ser feito só por ti.

(in Mensagem do Terceiro Mundo - 1972)


...

Eu canto e o meu canto se enternece
de ouvir-se no seu eco e ser distante
tal como a estrela-sol quando amanhece
se orgulha de ter luz e ser andante.

Eu canto e o meu canto faz-se prece
e reza-se a si próprio qual amante
que esparge a sua fé como quem tece
os versículos de nova bíblia errante.

Sozinho na paisagem clara e bela
com o manto lustral dos olhos dela
e o que mais inventei e me aqueceu

o canto e a luz e a fé tudo é mais vivo
porque me sinto sempre em mim cativo
do amor que na verdade ela me deu.
O teu sexo fechado
tive de abri-lo com um beijo
como se não estivesse ainda desflorado

(in MULHER ou o livro do teu nome - 1982)



O Ditador


.....................................e coroava-se em cada novo dia.
..........................subia
................subia
O ditador



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O poeta Fernando Sylvan

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 


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