Hirondina Joshua: há dias em que os olhos acordam sem as mãos

Hirondina Juliana Francisco Joshua (Maputo, Moçambique, 31 de Maio de 1987), mais conhecida por Hirondina Joshua, é uma escritora moçambicana. Uma poeta de destaque na nova geração de autores moçambicanos. É Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).

Livros publicados

Obras individuais
2016. Os Ângulos da Casa. Prefácio Mia Couto. 1a. edição. Moçambique, ed. Fundação Fernando Leite Couto.
2017. Os Ângulos da Casa. Prefácio Mia Couto. 2a. edição. Brasil, ed. Penalux.

Obras colectivas
2005. O Grasnar dos Corvos (Peça de Teatro). Co-autoria.

Antologias
2006. Esperança e Certeza I . Antologia. Moçambique, ed. Associação dos Escritores Moçambicanos, pp. 47-49.
2008. Esperança e Certeza II . Antologia. Moçambique, ed. Associação dos Escritores Moçambicanos, pp. 63-65.
2012. A Minha Maputo É... . Antologia. Moçambique, ed. Minerva, pp. 45.
2014. Alquimia Del Fuego. Antologia. Espanha, ed. Amargord Ediciones, pp. 481.

Projectos Literários
Criadora da coluna Exercícios da Retina ‒ literatura moçambicana; Os Dedos da Palanca ‒ literatura angolana e Letras do Atlântico ‒ literatura portuguesa e brasileira na plataforma cultural Mbenga Artes & Reflexões.

Colaboração em Revistas e Jornais
Dentre as quais destaca-se as revistas Caliban, TriploV, Courier des Afriques e Literatas.
Também colaborou com a revista Missanga, de Moçambique, e actualmente escreve para as revistas Pazes, Raízes, Por Dentro D'África, Ruído e Manifesto, Conti Outra, Zunái (Brazil), Sermos Galiza, Palavra Comum (Galiza), Pessoa, Literatura & Fechadura, Mallarmagens. Tem participado em colóquios, tertúlia e debates sobre literatura, em 2019 participou da 8ª. edição do Festival Literário de Macau (The Script Road – Macau Literary Festival). Em 2020 participou da 21ª. Edição do Festival Literário Correntes d’Escritas em Portugal.

Prêmios
Menção extraordinária no Premio Mondiale di Poesia Nósside, 2014




há dias em que os olhos acordam sem as mãos 

uma menina olhou para os vícios trazidos pela história dos homens. tinha fogo nas bocas que traduziam as músicas, era como se fossem batuques conduzidos pelo corpo humano. a menina na sua solidão desenhava outras histerias do mundo. seria se calhar a única forma de ajustar as coisas. não pensá-las no sentido imediato, comê-las a carne interior. antes que as feridas apareçam. não se podia dizer nada acerca dos antigos: nem acerca da tradição: - ninguém sabia onde se guardavam as dores e as alegrias. então a menina procurou nas pedras. mas lá já acabavam as indagações permanentes do corpo: da alma do corpo, da loucura e da síntese.

às vezes Deus desespera tirando a parte trémula dos dedos das mulheres: - tanto no mar, quanto na terra se morre. em toda parte há morte em formas baixas. fórmulas difíceis. estruturas altas debaixo do sol. - outra menina na janela estremece com o coração. mostra como ele pensa. há dardos impossíveis nas emoções clandestinas. - é um monstro a felicidade quando se toca na margem. 

há dias em que os olhos acordam sem as mãos. as meninas abeiram-se ao redor dos rios. as faces com as suas tenebrosas cores ressuscitam para dançar vagamente a violência da esperança: as crianças ainda por nascer, o céu que teima em não se fazer novamente. lá vai a vida e suas alusões. ilusões vespertinas deitadas no talento do movimento.

há dardos impossíveis nas emoções clandestinas. - o coração mostra como ele pensa: magumba ou peixe prata, estes nomes deixam de insistir com o mundo ao avesso. a menina sentada no ramo, senta sobre os olhos dos homens e pergunta por quê os dias não param de ser dias. por quê os dias trazem dentro de si as noites.

a menina acende as grossas estrelas de Maio, brinca com o frio no gelo impenetrável. nasce todas vezes que ouve sobre guerras, rápidas mortes, tristes vidas. poeira sobre o hemisfério. o sol que grita nas manhãs à espera da lua como se nunca tivesse o sucedido.  - paixão sem paixões. subversão. inversão das mais terríveis.

“I want to tell you about love and loneliness” dois contos sobre a criação das espadas e outro sobre o homem: ou os espelhos aguçados. as meninas sempre sentadas ao redor do chão quadrado. olham e olham. até que perdem a visão. o que pode fazer uma menina trancada aos quadrados? - espero pelos candelabros da vizinhança. sussurra a menina na madrugada branca.  as luzes eram tão nossas que nos escapavam, pensava  a menina. as luzes dobradas encostadas à crosta parecem doutro mundo. continuava ela atrás do caminho que acordara as cidades terrestres: uma em cima e outra em baixo. em experimento. a menina está em estado de regressos. 

- enquanto a palavra tiver sido acabada não restará nenhum grito para ela
dizem que a menina é o verso perdido de deus. nas suas formas irrefutáveis, séculos e aparições.
condenações secretas. 
então por isso se inventou o mundo e o universo. por isso os homens nasceram tortos,
desdentados e barrigudos, com uma visão segregadora. por isso os homens não sabem ver.
por isso eles não sabem ter pena do que está sob suas faces. falta-lhes jeito. 

a menina surgiu dentro dos homens. - ouvi dizer. 
sua margem corrupta é dentro dos homens. continuadamente descobertos nas grandes matérias. 
quando alguém diz que Deus é concordância, diz também que há uma menina a flutuar.
que há uma força incontrolável na servidão. – o perigo de ser embebedada: – o espaço é enorme.
a menina nada tem a  ver com objetivação. - acósmica, ressurge com o tempo enlaçado ao cérebro. com vertigens desafiadoras das estações sedentárias. crê-se nisso da forma mais infundada e pura. a menina tem esse poder de trazer esperança. fazer surgir a água e águia. a menina é a febre do pulmão desamolfadado, com as mesmas fórmulas das palmas. 

há dias em que os dedos acordam sem as mãos. e as meninas acendem as visões templárias.


***

As escadas deslocam-se para onde o Sol dorme. Atravessam as 
idades vivas das coisas. Esquecem-se do meio. Matéria orgânica.
Para cima e para baixo deslocam corpos do silêncio, apoiando-se 
nas lâmpadas e nas grandes campainhas da loucura.
A imagem vai e volta. Solta a brancura da cura do outro lado.
Inclinado um pouco, inclinado o dorso do universo; fala comigo a 
voz dos olhos do mundo.


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A poeta Hirondina Joshua

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 





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