José Pessoa e a derrubada dos antigos signos


Nasci e estudei em Belo Horizonte até bacharelar-me em Belas Artes pela UFMG. Logo após o bacharelado fui para a Itália com uma bolsa oferecida pelo governo italiano para cursar a Universidade de Bologna – Faculdade de Letras e Filosofia – onde obtive a Laurea em DAMS (Discipline dele arti, della música e dello Spettacolo) e fui aluno, por dois anos, de Umberto Eco, docente e um dos criadores do DAMS. Depois de alguns anos residindo na Europa, voltei para Belo Horizonte onde obtive o Doutorado em Literatura Comparada também pela UFMG.
A partir da conclusão do Doutorado trabalho como Leitor do D.P.L.P. (Divisão de Promoção da Língua Portuguesa) do Ministério das Relações Exteriores (M.R.E.) onde exerci a função de Leitor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira nas seguintes universidades: Universidade de Bologna, Itália (4 anos), Universidade de Koper, Eslovênia (2 anos), Universidade de Trieste, Itália (4 anos) e, por último, na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique (4 anos), de onde retornei ao Brasil em agosto 2019, depois de terminado o período de 4 anos que, obrigatoriamente, não pode ser prorrogado pelos leitores financiados pelo DPLP. Atualmente resido em Belo Horizonte. Escrevo poesia desde sempre mesmo que, até agora, não tenha nenhum livro publicado.



I

As folhas das árvores mortas
Deste imenso mundo
Produzem a negra tinta
Onde escrevo minha vida.

E a Arábia produz o absinto
Que se recolhe em mim
Recriando em sonhos escritos
A magia de miragens que nunca vi.



II
Levantei a lebre para os outros
Mas todos são caça
Andando atrás de caça
A aliviar seus incômodos
Soltura de ventre afogado no vinho
Regando meu leito de flores rubras.

Vago no largo espaço
Dos joelhos curvados
Em debandada por aberta porta.
E enuncio o maior número de palavras
Alargando as praças públicas
Arrombando os portões da boca
Por onde a dor abriu caminho à voz.

Atroar a terra com gritos
De um amor violento
É aspirar um trono que sustente
O peso do céu transportando
Os montes e arrombando as portas.

Pois como pequeno ídolo
Quero criar um mundo novo
Derrubando os antigos signos
Que empunham o cetro do universo
Quando mulheres se fatigam
Com seus trabalhos de parto.

É mister excitar o amor
Pois toda a hipocrisia
É o dialeto obscuro
De animal monstruoso
Barrando-me o mar
Dique impedindo a ida
De uma grande frota de navios.

Estrutura que chega
Quase às nuvens construindo
O numeroso exército formado
Pela multidão das nações do mundo
Avançando em coluna cerrada.

Mas serão inúteis todos os esforços
Pois o mundo é argila moldando-se
A si mesma com cansadas mãos
Caindo junto a membros
Flácidos que só dançam
O baile dos joelhos curvados.






III
Aprisco bardo de um redil
Curral cercado pelo gado
No recinto do ardil.

Balaustrada cercando
O banco dos advogados
Curral de gestos vertendo
A injustiça pela porta
Onde entram os condenados.

E com cem ramos
A árvore da justiça
Tem cem mãos
Em cada dedo
Empunhando a morte.

Pois a ferida
Delicia os espinhos




IV
A torrente cai no vale
Separando os verdes campos
Da cidade de pedra.

A torrente pinta a linha
Movediça da planície
Quando pés correm
Para a delícia de subirem
Pelas ramas das oliveiras.

Roubar as olivas
Que a terra ressuscita
É ter na boca
Uma páscoa infinita.


V
Duas grandes cascas abertas
Formam uma concha
No centro do mar
Trono de pérolas.

Duas grandes mãos abertas
Formam uma concha
Onde bebo a água
Do universo.

Duas grandes coxas abertas
Mostram-me a caverna
Sereno porto
A meu barco vadio.

E só duas grandes estradas
Se abrem no mundo:

Uma na morte e outra na vida
Que corre perseguindo
Um pequeno fauno ou ninfa
Que tem em si as chaves da delícia.


VI
Deliciei-me com as uvas
Ainda na nascente
Poderoso vinho semente
Em redondos corpos flácidos.

Bolas aquáticas de mar retido
Pela fina parede que arrebento
Lavando a minha boca.

Redondas pérolas
Da concha da terra
Pousada em ninhos de pombas.

Ovos redondos da vida
Rubras, vermelhas,
Verdes campainhas.

Guardadas nos seios de mães
Acariciando pelas vinhas
Seus filhos com perfumados
Beijos de maternal vinho.

VII
Sobre a vida imaginei o óbvio:
Corpos que se amam
Como irmãos na escuridão
De uma negra noite.

Sobre a vida imaginei o óbvio:
Mundo como mar de corpos
Acariciados pelo suor
De rostos que se olham
Luzes brilhando em meio à noite.

Caminho meridiano
Que do centro de minhas mãos
São convulsivas dádivas
Escapadas do movimento
De meus dedos
Que um dia serão caules
De grama pelos campos
Dançando felizes na boca
De desconhecidos amantes.

Mas eu, por toda a vida,
Só retive em meus olhos
A fuligem de fogueiras
Esquecidas pela história
Na noite vazia do mundo

O poeta José Pessoa

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 


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