Marcelo Benini: um poeta essencialmente mineiro

Marcelo Benini nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1970. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/ed. do autor), O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios), Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios) e Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios). Vive em um núcleo rural próximo a Brasília-DF.




Jogo de água e tempo

Segura o tempo como quem agarra a água
O tempo se fecha na mão que afunda
E sai firme, molhada
Mão contra mão, só carne
Cadê o tempo?



Um cão

Sê um cão
Intruso, magro, apartado
Porém, cão
Indiferente a deslouvor e pedra
Inabalável, insistente e tenaz cão
Incomunicável
Recolhido em ser cão
Um cão de pelos áridos
De boca imunda
De olhar desmaiado
Cão.



Tentativas para ausência de chão

Um dia houve um cismar de adélias
Na beira do rio
Os peixinhos se regalaram de sol
Os bem-te-vis, de azul
Sob o sol da tarde as cercas crinavam de éguas
E os arames se resignaram das farpas
Como rosas
Os canários ignoravam os espinhos
Para docemente pegar cabelos baios
E nidificar o mundo
Os canários chegavam o mundo para o amarelo
Do outro lado o rio plangia.



Ante-aurora

Que linguagem
Um zurro
Toda civilização
Ressuma
Em um asno
Noturno.



Stravinsky

Agora temos uma casa
Larga e vazia
Uma casa com um único objeto, no centro da sala
{o piano
Uma casa feita para reunirmos o silêncio
Nenhum outro som do mundo
Apenas a contingência do piano

E com o passar do tempo, se no móvel
{habitassem abelhas
Um pequeno ruído nos incomodaria
Por horas, dias, meses resistiríamos em reconhecer
Nossa impontual virtude.



Casa do tempo

Um dia reparei que os passarinhos
Bicavam minha casa e levavam embora pequenos
Pedacinhos dela
Minha velhice e minha doença contemplam
Agora a ruína
Nunca odiei os passarinhos
Odeio a ruína
Que não presta nem pra passarinho.



O senhor palhacinho

O abstrato traje do senhor palhacinho
Espalha na calçada milhares de bolas vermelhas
Como um pintor que desfigura o sinal de trânsito
O senhor palhacinho pede trocados
Tudo é branco em agosto
Os meninos chutam sem parar as bolas vermelhas
As imensas bolas vermelhas passam sobre os carros
Um homem estende a mão com algumas moedas
Tudo é desfigurado em agosto
Uma bola vermelha atinge uma senhora
Alguém grita por socorro
Os homens da polícia recolhem todas as bolas vermelhas
De volta ao macacão branco do senhor palhacinho
Tudo é ternura em agosto.



Duas raivas

Não terá sido esse gracioso tobogã em teus lábios
Pois andávamos os dois pelo mundo
Levando, cada um, sua raiva
E o que verdadeiramente aconteceu foi que fomos tocados
E é tão bonito agora, quando passeamos de mãos dadas
Como se nossas raivas se esforçassem sobre-humanamente
Por acreditar no amor.



Lida

No grotão de ser sozinho
Perdi a linguagem
Arredei para o lado dos bois
Mata ensimesmada
Abrigo de lâmpada esmorecendo
Guarda de ruídos e palavras dispersas
Sobram as sombras, murmurejam os muros
Gado bravo em cerca velha
Dia tirado dos mateiros
Tear, garimpo, ordenha
O tedioso ofício dos dias
Carcaças de poemas
A um copo de cachaça me empurras
À essa imagem existência
Torrão que é semente e pasto
E uma pontada nos rins.



Problema oblíquo

Tenho um pássaro nas mãos
O que fazer
Soltá-lo e perdê-lo
Ou guardá-lo e perdê-lo?

__
O poeta Marcelo Benini



A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 


Comentários