Marina Tadeu e seus rios voadores

Marina Tadeu é portuguesa mas viveu mais tempo em Inglaterra do que no seu país. Passou 30 anos de vida profissional como jornalista, tendo visto umas coisas pelo mundo. Mudou de carreira há sete anos para se tornar cuidadora de inválidos, portadores de deficiências e idosos. Regressou a Portugal há um ano onde se dedica à tradução, à horticultura e a preparar o seu primeiro original, Nova Origem das Espécies.




Mande sempre

Desfira-o com a certeza
de que o voo do coração
aponta sempre para baixo.



En-terra-dos vivos

Não insistas. Os dedos pétalas
da minha mão que se abre
acabam sempre em malmequer.

Este ano não depilei as axilas
e cutículas sobem pelas unhas
rasas. Crio raízes brancas.

Alinhar só sementeiras de nabos.

Passo uma frase por terra
e desabrocha um prego.



A Cidade

Pela janela do rés do chão
do condomínio futurista
provençal o javali
observa a curva estagnada
do velho lendo Asterix
e enfadado vai à urze desenterrar Uderzo
e um champignon.
O leopardo em Bombaim deposita
um pedaço de carne humana
que encontrou bem delimitado
pelo rectângulo A 27 do parque
de estacionamento do mercado
à porta da mansarda do empreendedor
de desportos de aventura
andando de um lado para o outro
no seu quarto adjacente ao ginásio.
Em Manaus a onça traz o amigo
tucano para a beira da piscina fedorenta
do barão da cocaína em prisão
domiciliária. No ar uma borboleta
de asas iridescentes desenha
um entendimento que desvanece
o mistério: a natureza não se vinga. A
natureza vinga. Se puder.
A corça escocesa surpreende
o turista do macabro
a bater na mulher. Permanece imobilizada
tentando atraí-lo, hipnotizá-lo de terrível doçura
mas com medo de o assustar
que se espante e não a aguentando
se espavore fumegando para a cave.



Traição

Fui má. Lembro-me de que
para não ter de passar
a roupa a ferro
disse-lhe que, porque era maluca
a pilha na cesta com
braços e pernas como despojos
de seres cruelmente esfolados
me dava vontade
de chorar e que me vinha
ao de cima o cheiro nauseabundo
de uma fábrica de curtumes.
Por isso vomitava incorrendo
no risco do bebé e outros
parasitas sortidos
me saírem pela boca.



Dos rios voadores

Um leito de sal num deserto
abissínio junta todas as nossas
perdas humilhações e horrores
em glóbulos voadores que entrechocando-se
impelem o seu irmão a seguir rumo
até ao Amazonas para fertilizar espécies
que irrigam em cada acto de respirar
o maior rio do mundo que está no céu.

Todas estas delicadas forças
que hoje maravilham o turista espacial
explodirão eventualmente fundando algures
o planeta mais vermelho do cOsmos.

Nele tudo é antropomórfico. Grutas
vivas que se encolhem e distendem
dando à luz lagos d’olhos que não
esquecem, criaturas transparentes
com opiniões rastejando ao menor
sinal de ameaça, plantas de espelhos
e cabelos de bom corte, cães
e porcos com tutus e poesia
minhocas incansáveis esculpindo
as mais sedutoras formas clássicas
livros com corações espalmados
batendo nas lombadas escritos
por diamantes que se adensam
e todos respirando de alguma
forma emitirão para os ares a
sua substância própria formando
no céu como um abraço que
envolvendo ninguém toca
o maior rio de sangue do seu mundo



“Cravados nas têmporas como cunhas”

Como deve ser duro
para os nossos queridos
amigos bovinos terem de
suportar ainda antes
da maturidade a
dor de siso
e a dor de corno.

Imagino a mãe vaca
lambendo suave
no prado da ilustração
estampada na lata
de bolachas
rançosas da Avó
Olívia do Lagar
o veludo arrepanhado
pelos borbotos
do seu combalido
mas sorridente vitelo.

Que absurdo, rumina ela,
teres de acatar um dia com este
peso inútil e petulante na cabeça
quando nunca por estas bandas
se avistara um monstro digno
de receber de ti meu filho
umas valentes marradas.



Dos areais fluorescentes

A chuva purpurina
remete a paisagem
ao fundo do seu mar.

Nuvens como cascos
de navios amolgados
passam por cima
de selvas de garrafas
com mensagens afogadas
de letras que se desprendem.

Abrem os gargalos
em pasmo de fascínio.

O seu canto agudo
reverbera imperceptível
no coral
antes da partida.



Como perder um cão de vista

Fim de tarde ventosa por estas
bandas e o cão libertado à frente
escovado por ondulações
invisíveis aligeira o trote
erguendo para a esquerda
e para a direita o focinho às nuvens
sondando o que lhe trazem
os ares: alfazema fumos vários
suor humano pinheiros água
eucaliptos raposas com Covid 21
terra ovelhas rosas palha desinfectantes
Dona Alzira coisas queimadas
feromonas pêras cavalos respectiva
bosta aftershave sangue urina de
ovelha pêssegos lixo guisado
e mijo d’outro mijo d’outro mijo d’outro
mijo d’outro mijo d’outro mijo d’outro



Aula de Ioga

Nunca rever um regresso
sem os óculos de Lolita bem rentes

Não ter muito a ver com estes
Não ter muito a ver com outros

O olho direito é culpado
O esquerdo um pouco inocente

Todas as paredes são brancas
conforme todos os gostos

Aquele coração está frio
Esta mão cada vez mais quente

E só o Sol, olhar de frente.



Como as outras

Penso numa sobrevivente
do genocídio do Ruanda
nem alta e magra nem
gorda e baixa, para todos
os efeitos mediana em forma
sem um quarto só para si.

Com café pintava flores
murchas que inventava
umas com pintinhas em
bolsas cheias de pó
outras deitadas
por terra com corolas
de braços humanos
e dedos abertos de onde
brotavam formas
semelhantes, desfalecidas.

Sabendo que era mulher
e pintava flores nunca
os responsáveis das galerias
de Kigali a incluiram
nos catálogos em que
vídeos de paisagens
de nota urbanizada
eram projectados ao
som de gravações do
chocalhar de esqueletos.

A sobrevivente continuava
apenas encorajando
a pequenada à volta a
usar as mãos peganhentas
para cobrir as flores que
tão cuidadosamente pintara
- o - o - o - o - o - o - o
da sua marca rupestre.



Na piscina d’Hockney

aguardando
pegadas
o trampolim
rígido nas linhas
que o demarcam
mas tão flexível
da imaginação
que salta dá
cabriola e depois
se afunda

esse que é pisado
mas põe a sua
sombra
a tremer

é a verdade



Inaptidão

Tudo o que à manhã
peço
é uma frase
adequada
à noite:

Boa noite
não chega.

Aguardo caminhando
para a frente

sempre
de pé atrás.



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A poeta Marina Tadeu


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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 







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