Roger Willian e alguns poemas do isolamento

Nascido em Ribeirão Pires, em 1986, Roger Willian se enveredou por todo tipo de arte. Fez curso de desenho, teve bandas de garagem, estudou história da arte, formou-se em design gráfico e trabalhou em instituições culturais. Atualmente, além de se dedicar ao estudo das Ciências Sociais, está vivenciando a passagem da experiência de leitor compulsivo a aventura de se tornar escritor impulsivo. Recentemente lançou seu primeiro livro de poesia, Pirilampo pela editora Algaroba.




sobre os dias da semana

ela chega
vejo estruturado em seus lábios
um sorriso aliviado
nossos corações deitam na rede
bituca entoa o rito
batismo
na pia e no ralo
escorre a espuma do dia
seguimos remendados
comunhão
aromas banham a casa
essa é nossa missa
e lá se vai mais um dia



em algum ponto isolado da Via-Láctea

a sutileza do gesto carinhoso se perde
na aspereza do mundo
exausto flutuo
como em queda refrescante do mais alto edifício
por que ainda reside a sensação
da proximidade impossível do toque
nas ondulações do ar?
a sufocante ideia massificada do herói nos ilude
e persisto na espera
ainda que no declínio
ofereço um sorriso sem destinatário
e mantenho as mãos desocupadas
porque mesmo de frente com o abismo
o eco me devolve o verbo



reflexão de quarentena.

amor caramelo
maldito
de tom, de cor
Inatingível
reviro-me em nado suave
onde tateio as ondas do lençol
e sinto-me um náufrago
agora entendo São Francisco
testando na ponta mais afiada do espinho
da Rosa mais vermelha
ou na queimadura do gelo
do mais impiedoso Inverno
o antídoto para a lascívia
ó implacável distância
a mesma que desenha essa sede
repousada em meus lábios
e alimenta o sonho
de tomá-la num abraço completo
igual o desses filmes
que alimentam nossas fomes
dê-me uma trégua.



cenários frágeis

A solidão que
abarca o mundo
nos impele a uma dança forçada

A máquina trava
e revela os grilhões
Os cenários vem ao chão
divorciando os papéis

Ganha-se de volta
um Corpo
sob um céu escancarado
Postos a uma nudez desoladora

Dançamos
Insubordinados
Rebeldes
Efêmeros

Coloca-se sobre nossa frente
um banquete
E saciamos uma fome
desconhecida

Feitos da mesma carne que
recobre a Terra
Se somos seu entendimento
Sangramos
Choramos
A torrente da dor do mundo.



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O poeta Roger Willian

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Leia também:

Cinco Poemas de Roger Willian



A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 



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