Otávio Moraes: e sobre tudo não saber nadar

Otávio Moraes, mora em Minas Gerais e está doutorando em Literatura pela UFMG. Lê, escreve e anda de bicicleta. É editor das revistas Em Tese e Cupim.



e sobre tudo não saber nadar


Já são duas semanas no meu universo em miniatura. Cultivo as plantas e me pego na posição ridícula de ensaiar monólogos as interrompendo no sagrado ofício da fotossíntese. Vislumbro nos detalhes dos moveis a humanidade que me falta. É como se nas ranhuras da estante eu pudesse tresver os traços imprecisos de seu criador. Um humano de lábios rachados pelo inverno, como eu. Farejo nas quinas do quarto e rente ao ralo do banheiro uma mistura de pelos que denuncia a presença pretérita da já saudosa companheira. Um dia mulher presente em corpo, sangue, fluidos e fome, mas hoje uma espécie de esqueleto de pelos. Minha cigarra silenciosa. Ao me lembrar da morte a cada abrir e fechar do computador fui assombrado pela obviedade de que os cigarros costumazes também apontam para essa direção. Comovido pela minha própria covardia finquei meus pés no lar e prometi a mim mesmo, mentiroso vulgar e repetente, que abdicaria das visitas à padaria, local onde se compra cigarro e eventualmente pão. Convivo, portanto, de uma abstinência dupla, os cigarros e as pessoas com as quais fumava. Me detenho nas antigas fotografias, essas formas do passado, cabelos, sorrisos, paisagens, são a realização multicolor dos frangalhos da minha mente. A sensação é de que com todo o silêncio exterior o barulho começa a vir de dentro. Como em um bom conto latino-americano o real casa com o irreal denunciando a realíssima miséria que nos rodeia. Mas no caso é só o real, só minha mente gastando o tempo em construir labirintos. A diferença é que dessa vez tanto Teseu quanto o Minotauro estão cansados de matar. Perambulam pelo labirinto feito sonâmbulos incapazes de se reconhecer. Ariadne resta como um lusco-fusco na cabeça de Teseu, ele não entende o porquê do novelo e tampouco vê sentido na ida e muito menos no retorno. O labirinto é o mundo inteiro. Sim, é esse tipo de ficção sombria que me ocupa a mente. A falta de unidade desse texto é pura verossimilhança. Estou lendo muito, mas o curioso é que a seleção, consciente ou inconscientemente, anda operando como uma porrada. Rimbaud é uma porrada, a poesia em prosa do Baudelaire é um chute na costela e o vovô Luís de Camões me remete a mesma violência, talvez de uma maneira pior por compartilharmos a língua, mesmo que a dele seja empoeirada e a minha repleta de saliva. Em um poema bonito e carola, digno de um poeta beat do século XVI o nosso Luisinho fala da vida enquanto rio e do transcorrer da água como um sem sentido movimento em direção ao nada. A proposta é se afastar dessas águas, afogar o que nos prende nelas e flutuar para um lugar onde o sentido seja anterior a própria busca dele. O problema é não ser católico, ter lá minhas dúvidas e sobre tudo não saber nadar.



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O escritor Otávio Moraes

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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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