Resenha: 'ainda ancora o infinito' de Roberta Tostes Daniel

O jogo das espreitas, a luz mínima nas caves

Por Marcus Vinícius Santana Lima

Difícil é a apreensão do silêncio. O inventário de seus mapas e corredores, quantos cômodos guarda. Viver no tempo do silêncio e tomar uma barca que navegue no braço das árvores caladas, reatar o corpo às águas que margeiam as horas do sossego. Mas não encontrar o sossego. Pois o corpo se levanta para cair, sucumbe ao “ar, punhal cortando/ a camada dos acontecimentos”. Na queda, a palavra em fragmentos tilinta ao chão, desaloja-se.

Em seu “ainda ancora o infinito”, Roberta Tostes Daniel duela com as palavras, num jogo de entrega e recusa, para desafiar todos os nossos silêncios, o peso das durações, a safra do dia. O ocorrido tende a nos engolir pela catástrofe das horas. Impõe-nos a sondagem do natural, de tudo que passa alarmando o corpo. Nesta sociedade industrializada, de carros disputando as bombas de gasolina, a poesia de Roberta aponta o infinito como lugar ainda desocupado, ainda vago, esperando nossa movimentação. 

É esta sondagem que sua obra nos convida a fazer ao diagramar o gesto do impalpável, a estética do intangível, lavrando a profundidade do que não acaba. Porque depois do fim ainda há “o azul que tabula o infinito”.

A matéria não se esconde aos olhos ou à vontade, o desejo. O desejo monitora os sonhos e advoga pelos sentidos. Daí a boca, matéria e desejo, cujos lábios escondem seu vazio insaciável, ser um dos signos na poética de Roberta Tostes. É por ela que se canta o infinito e se enovela a poesia com seus sustos e pequenas radiações sonoras: "Pela boca do poema/ onde boca já não há,/ e todos os lábios/ murmurem de ti/ o que a brisa soa -/ quase voz”. 

Costurar as sílabas e arquitetar entre elas pequenas alterações, intervenções inesperadas, para que o som da palavra ora se estique ora naufrague, para que a quase voz seja esse lugar ainda habitável, o pequeno esconderijo do murmúrio. Porque se vivemos na época dos grandes discursos e dos gritos virtuais é também preciso que haja, em aliada oposição, o silêncio.

Não o silêncio da conformidade, não o silêncio do dominado. Mas um silêncio revolucionário onde se encontrem as forças da travessia e a reinvenção dos sentidos. É desta morada que a poeta, quase secretamente, fala. A da junção entre boca e silêncio. Entre tempo e espaço. Entre corpo e vazio. Nestes múltiplos encontros, como se uma âncora pesasse suavemente em nossa carne, “A boca abre o impossível dentro, verbo/ impalpável de todas as formas. No entanto,/ tudo suga, tudo deseja, tudo sabe/ pela promessa do gosto”.

Portanto, trata-se de saborear a “novena de silêncios”, abrir fendas nos volumes para que se rasgue “sub-reptícia/ brecha”. Engana-se quem aí ache um deslocamento temporal da poeta aos dias em que se vive. Ao contrário, Roberta aponta os anacronismos necessários para roer a espessura do presente, burlar as leis das expectativas e ver no esquecido, no desacordado, a recuperação do que já foi, do que está indo: “baba/ um tipo/ de uivo”.

Não deixa de alertar: “o tempo é de desamparo, chão de rodas;/ patas e estradas são flores que não vicejam”. Todavia, se vivemos o tempo da animalização política, se as feras assaltam o reino da democracia e rosnam seus ismos como se quisessem domesticar a linguagem, sufoca-la, caberá a nós, guiados pela poeta, não sucumbir, seguir resistindo: “Mas ando como se me encaminhasse ao paraíso./ Aos meus pés, a vertigem dos seixos,/ a aura afogada dos rios”.

Entre o silêncio e a solidão, ainda ancora o infinito, ainda nos pesa o vazio, esse vazio que “coagula” para gerar um novo ato, uma ideia, uma palavra, uma política, um pertencimento, quer dizer, a finalidade de existir.

Marcus Vinicius Santana Lima é poeta e historiador. Publicou dois livros de poesia, O cacto não cresceu (Moinhos, 2018) e ontem estive cálido (urutau, 2018). Tem poemas publicados em revistas de literatura, tais como Enfermaria 6, A Bacana, Gueto, Ruído Manifesto, entre outras. Atualmente, desenvolve pesquisa de doutorado sobre a obra de Jorge Amado.

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'Vapor numa tempestade de neve' de Willian Turner













ainda ancora o infinito, de Roberta Tostes Daniel. 
Editora Moinhos, 112 páginas, 2019.
Disponível no site: Editora Moinhos 







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A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 




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