António Cabrita: seis inéditos do 'Método de caligrafia para a mão esquerda'

António Cabrita (1959) tem vinte e tal livros publicados, em Portugal, Brasil (três livros de ficção) e Moçambique (livros de fábulas, poesia e ensaio). Foi jornalista durante 23 anos e editor (Fim de Século e Íman Edições). Em 2005 emigrou para Moçambique onde, neste momento é professor de Dramaturgia e cronista no semanário Savana. Tem também uma coluna no jornal de Hoje Macau. Escreveu inúmeros filmes. De entre os seus livros destacam-se, Inferno, 2001, três guiões sobre Camilo Castelo Branco, escritos em parceria com Maria Velho da Costa, Bagagem não Reclamada, Anatomia Comparada dos Animais Selvagens (Prémio Pen Clube, de 2018), e a Kodak faliu. também o Dick, o cão da minha infância, 2020, poesia; e A Maldição de Ondina, 2013 (finalista, short list, do Prémio da Póvoa do Varzim, 2013), Éter, 2015 (finalista, short-list, do Pen Clube de 2016), A Paixão segundo João de Deus, 2019, e Fotografar contra a luz, 2020, romanceS. Como tradutor, realça-se a sua antologia de poesia hispânica, As Causas Perdidas, 2020. Os poemas abaixo foram gentilmente cedidos pelo autor e fazem parte do livro inédito 'Método de caligrafia para a mão esquerda'. 




EU SOU O APOGEU DO CHÃO

Diz um morto vaidoso
pela sua corcova:
eu sou o apogeu
do chão.
O vento folheou
a ave
até ao fim,
na sua primeira lição de geografia.
Depois aquietou, ficou transparente,
e aí a asa da ave julgou
ter voltado ao ovo.
Felizmente,
neste poema
não se cogitam eleições.



FADOS

A cada um os seus
fadários. Sangue seco de batalhas.
Torpe me contento numa visita
à Feira da Ladra
em passo de lesma,
com taberna pelo meio
para no manso beberico dum cálice
espreitar a primeira edição
comprada a avantesma.
Uma vez troquei
um canivete suíço
pelo Sócrates de Satie:
um sutiã
picado por tsé-tsé.



NA ESPLANADA 

De olhos fritos no mar,
ao meu lado, um grupo de deputados
chupa a cabeça
dos camarões:
a política é uma língua
que só ganha sentido
na dobragem.
É em vão que mergulhas
o rosto em ti próprio,
só o poderás lavar
noutro rosto –
e nada serve clamar
contra o peso da História,
só no sangue de outro
a tua veia se dessedenta.



AULA DE ESCRITA CRIATIVA

Como é que uma menina estrangulou
outra e ficou impune?
Simples. Eram gémeas
e a coisa passou-se no útero.
Isso não é fazer batota?
A arte não tem bons
nem maus modos, presta-se
apenas a desenfiar outro olhar
sobre o que parecia resolvido,
é como no caso daquela frincha
na ombreira da porta: como a térmita
estava hesitante, deixou entrar na frente
a salalé, mas só a morte tem uma exclusiva
maneira de ser dita.



NOTÍCIA QUE ME TROUXE UM SONHO

O anão bondoso, o que traz a pez,
pisou-me ao passar por mim,
numa cadeia surpreendente de imagens
que alucinou o cós do vento.
O anão bondoso, o que mergulha na pez
o coração dos indiferentes
para o enfeitar com penas de peru
pisou-me sem dó ou apreço como
se eu tivesse extraviado a maçã de Adão
e a minha luta contra a língua
fosse a do atrito contra a asa.
O anão bondoso, parido
na terceira margem do rio, iluminou
com o seu archote a minha glote.



MÉTODO DE CALIGRAFIA PARA A MÃO ESQUERDA

Não a poupes, gasta o mais possível
a tua morte. Sê um perdulário, se a idade
for um fogo que não pudeste extinguir
não te demova a dor. Palpa-a,
deixa que radie, e que esbraseie
como tudo o que envolve a pedra: o ar,
o pavio da pele, o sangue cujo frémito
arboresce a noite; deixa que no interior
da íris, se isole e canse, a recuperar
a simpatia que já foi sua, o apego
de uma cunha à mesa da noite.
Mantê-la debruçada no parapeito
da preguiça é o teu ofício, e nunca
te arrepiem as unhas roídas de sono.



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O poeta António Cabrita

A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

Comentários

  1. Na esplanada

    Adorei, como já vem sendo hábito.

    Já partilho. Beijos uma vez mais

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  2. "Eu sou o apogeu do chão." Salve António. Abs saudosos.

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  3. Gostaria de indicar algum autor para publicação na revista? Deixe sua sugestão aqui nos comentários.

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