Cândido Rolim: uma paz amarga e ensolarada

Cândido Rolim nasceu na cidade de Várzea Alegre, interior do estado do Ceará, nordeste do Brasil, em 1965. É formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC/RS e reside atualmente em Fortaleza. Alguns livros publicados: Arauto (1988, Ed. Dubolso, Sabará/MG), Exemplos alados (1997, Ed. Letra & Música, Fortaleza/CE), Pedra habitada (2002, Ed. AGE, Porto Alegre/RS), Fragma (2007, Ed. Secult, Fortaleza/CE) , Camisa qual (2008, Ed. Éblis, Porto Alegre/RS) e Sutur (2018, Texto Território, Rio de Janeiro/RJ). Publica poemas, artigos e ensaios em alguns sítios e revistas de literatura e crítica na web.




VIAGENS COM A MÃE

Ia aonde ia o cheiro
os filhos todos sob a
saliva o murmurio das
novenas o rosto na
água fria dos potes
histórias na calçada
aquela vez que me
pôs cuidando algum
passante enquanto
urinava em um canto
mais recuado do
caminho



PERDER UM DENTE

Adeus mó sensível
do hábito
planos de mastigação
rigidez cartilagens
dormiram sob tua
sombra calcária

Anos trituraram esmalte
folhagens nervos fibras
rúmens litúrgicos
tocaram tua margem

Ali onde ainda há
medo balbucio e
a noção rudimentar da
língua



QUASE POÉTICA

Um poema não precisa dizer que
contém desespero raiva e pavor
nem que é composto de palavras
nem que a palavra X foi colhida
nos veios do alheamento etc

De abstrações infames
o mundo tá cheio
“sorriso de quase nuvem" ok
pode até soar bonito mas
não se engane o leitor
aquele da fila do pão quer
saber o porquê não do
sorriso mas da nuvem e
seu bizarro arremedo

Melhor não falar do limbo
sem nunca ter ido lá
exaltar feitos de Eneias sem
com ele haver comido
o mínimo de sal

Diante de alguma danação
meramente retórica fique
sabendo que no inferno
só entra quem tiver convite e
um andrajo apropriado



AGENDA PERDIDA

A rigor não perdeste a agenda
no máximo um ou dois
compromissos perfeitamente
adiáveis

Um dia ou dois uma
dúzia reduzida de nomes cifras
ajustes – e mais da metade disso
dependia da vontade alheia

Volta para casa se houver
e para o acaso
caso ainda te sobre o
imponderável

Sem temor sem programa
sem qualquer data
marcada

E nunca foste inteiro
o bastante para que
alguma coisa te falte



ALGUM ITINERÁRIO

Cheguei exausto na praça do
contabilista e pensei aqui não é
lugar para chorar abraçado a
mistérios

Sentei no último assento da
linha 026 e concluí esse ônibus não foi
projetado por vencidos

Provei da sêmola seca da
padaria nogueira enquanto devolvia
aos bolsos as falanges ameaçadas – um
Inteiro crepúsculo com fermento

Mirei fixamente
onde se acumulam os derradeiros
detritos: ali estava minha
paz amarga e ensolarada



CHEGANDO TARDE AO ACINTE

Poetas irritados dizem
amém
Poetas insípidos  pedem
luvas
Poetas irritados gemem
baixo
Poetas enfarados votam em
branco
Poetas resfriados ob
literam
Poetas finos irritados
ladainham
Poetas de escol
dão piti
Poetas irritados abanam o
nabo
Poetas brancos confabulam
indecisos entre bater
continência ou
beijar mão



SAUDAÇÃO

Aos que deixam a liberdade intacta
aos que percebem o adiantado da hora
aos que respeitam o sono dos equinos
aos que levam copos descartáveis para a
mesa 25
saúdo-vos!



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O poeta Cândido Rolim

A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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