COLUNA AVULSA: Eu sou um homem branco

Por André Merez

Eu sou um homem branco e falo do lugar privilegiado que um homem branco ocupa. Falar desse lugar me coloca em vantagem sobre outras pessoas, muitas pessoas. Falar daqui me põe ao lado do mundo branco, sim, esse mundo branco que promove o extermínio de outros mundos, os mundos não-brancos. Quando um policial branco, operário do sistema de extermínio do mundo branco, mata um homem não-branco, eu acumulo mais um crime na conta enorme que o privilégio de ser branco traz em seu bojo. A minha fala aqui é endereçada aos homens e mulheres brancos. Não quero me utilizar do meu privilégio branco e falar para ou pelos homens e mulheres não-brancos. E esta é mais uma página em branco, entre tantas páginas em branco que o mundo branco escreve.

Todos os homens brancos como eu mataram George Floyd por sufocamento a céu aberto. O vídeo é insuportável de ver porque o peso do meu corpo também estava sobre aquela garganta, todo o peso de todos os corpos brancos que habitam o mundo branco estavam sobre o pescoço daquele homem no chão. Todos os homens brancos como eu mataram João Pedro Matos com um tiro de fuzil pelas costas. Todos nós apertamos aquele gatilho. E mais outros gatilhos, e mais outros, e mais outros. Sim. Nós homens brancos os matamos, todos nós do mundo branco matamos 1019 homens não-brancos nos Estados Unidos em 2019 e aqui no Brasil matamos quase o dobro disso só nesse mesmo ano. Sim, nós matamos. Nós, homens brancos, nos especializamos nisso. Nós precisamos assumir nossas culpas brancas e admitir que nós estamos cada vez mais matando homens não-brancos.

A mestra em psicologia pela USP, Maiara Benedito, observou que os homens e mulheres brancos e psicólogos têm dificuldade de lidar com questões raciais trazidas por pacientes não-brancos. Maiara constata em sua dissertação que isso ocorre devido a  dificuldade que os psicólogos brancos têm em compreender o racismo estrutural. Maiara é não-branca e informa que enquanto as práticas racistas estiverem intrincadas no modelo social a que estamos habituados, nós homens brancos, sejamos psicólogos ou não, vamos continuar sem compreender o que é e como ocorre no dia a dia esse racismo estrutural. Sim. Enquanto nós, homens brancos, não compreendermos isso, vamos continuar sendo responsáveis sim pelos assassinatos de homens não-brancos.

Nós, homens brancos, poderíamos tentar aprender alguma civilidade com um outro homem branco chamado Jean Paul Sartre, que em seu “Orfeu Negro”, publicado em 1948, disse:

“O que esperáveis que acontecesse, quando tirastes a mordaça que tapava essas
bocas negras? Que vos entoariam louvores? Estas cabeças que nossos pais haviam
dobrado pela força até o chão, pensáveis, quando se reerguessem, que leríeis
a adoração em seus olhos? Ei-los em pé, homens que nos olham e faço votos
para que sintais como eu a comoção de ser visto. [...] Hoje, esses homens pretos
nos miram e nosso olhar reentra em nossos olhos; tochas negras, ao seu redor,
iluminam o mundo, e nossas cabeças brancas não passam de pequenas luminárias
balançadas pelo vento.” (Sartre, 1960: 105)

E mais que isso, indo mais fundo nesse aprendizado, nós homens brancos precisamos observar e compreender o que realmente significaram os protestos incendiários em Minneapolis e o que têm a nos dizer os poetas negros. Como o carioca Éle Semog (Luiz Carlos Amaral Gomes) que fez o grande favor de transformar em poesia uma advertência a nós, homens brancos, sobre a multidão de defuntos não-brancos que estamos empilhando sob as nossas peles brancas:


Razões

Não me oferecem doces,
pois de onde vim
as crianças foram criadas
com pimenta.

A poesia é o meu recanto
a minha fuga.

Mesmo assim, escrevo poemas
como quem joga pedras.

Não tenho nenhum motivo
para reler os búzios,
não quero pensar na sorte
desse 13, muito menos
nos dois artigos da lei.

Não tenho razões
para sorrir à nenhuma princesa,
por isso quando escrevo,
mesmo sobre o mel e as flores
não pretendo ser doce ou lírico.
Em cada verso, sou as marcas
dessa História.

Do mel, sei apenas,
as ferroadas das abelhas
das flores, o perfume
que acorda na memória
multidões de defuntos
do meu povo.

(Semog, 1997)

André Merez é poeta, editor desta revista e escreve esta coluna todas às quintas-feiras.

Ligações externas:
Recomendo a leitura do artigo Figurações do corpo negro do professor Janderson Albino Coswosk e uma visita mais que necessária ao site oficial do poeta e ativista Éle Semog.
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Crédito: Reprodução/Twitter @georgegallowayPrédio em chamas em Minneapolis em mais um dia de protestos pela morte de George Floyd

           


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 



Comentários

  1. Adorei o artigo e indicarei para outros lerem! É para se pensar e agir....

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