COLUNA AVULSA: Morrer é Natural

Por André Merez

Estou no ano de 2020, no Brasil, em isolamento social, durante a pandemia de Covid 19. Isso para quem esteja sob as mesmas condições deveria ser suficiente para o esclarecimento de tudo, mas como as percepções sobre um mesmo momento, em um mesmo lugar variam tanto, deixo aqui situado o que escrevo no tempo e no espaço. Estamos (estou) sob um governo de extrema direita e tudo é como pode ser em um país sob esse tipo de regime. Há um genocídio em curso. Até este momento (terceira semana do mês de maio) já morreram 13 mil pessoas e quase 200 mil brasileiros estão infectados. O presidente e seus assessores minimizam a situação, não apresentam nenhum plano para lidar com o problema e forçam os trabalhadores a voltarem às atividades com o pretexto de salvar a economia, que já não estava a salvo desde muito antes da pandemia. 

Ao que parece há um terço da população que concorda com o genocídio e faz carreatas contra o isolamento social. Essa parcela da população, que promove e participa das carreatas, é formada por pequenos e médios empresários, pertencentes à classe média. Muitos pobres aderem ao discurso de que precisam trabalhar porque não têm clareza sobre o fato de que o governo deveria se responsabilizar pelas vidas e oferecer garantias sociais para que os trabalhadores pudessem ficar em isolamento sem morrer de fome. Os empresários mais altos não participam das tais carreatas e estão bem protegidos em casa, mas fazem reuniões por videoconferência com o presidente e seus ministros para forçar a volta ao trabalho. 

Lutamos (luto), me parece, para manter uma certa normalidade no que fazemos e no que criamos. Não saber o que vai ser o futuro tem duas maneiras de se compreender. Uma é a de sempre, já que o futuro é mesmo essa sombra em que projetamos os nossos desejos e as nossas ilusões, a outra é não saber do futuro, ou mesmo se haverá futuro, porque não sabemos se estaremos vivos no prazo que ingenuamente achávamos que poderíamos estar. Ocorre que tudo o que fazemos agora vem eivado desse não saber se vale a pena ser feito, já que há tanta possibilidade de morte pela frente. Mas não é isto assim sempre? Enfim, fazemos. E sigo estas minhas entradas como se estivesse e como se não estivesse sob as condições em que estou e em que todos estamos.

Li esta semana o Jorge Mautner dizendo que "morrer nunca é uma boa ideia" e ele tem razão. Mautner é velhinho, está com 79 anos. Aldir também era velhinho, Olga Savary estava com 86 e teve que contrariar Mautner sobre a má ideia de morrer. Flávio Migliaccio estava com 85 quando deixou escrito que "a humanidade não deu certo" e também contrariou o Mautner, só que de uma forma bem mais difícil de entender. Enquanto Caetano come paçoca e é filmado pela Paula, Chico apareceu pra agradecer ao prêmio Camões e depois foi fazer o que ele mais gosta de fazer que é ficar na dele e com todo o direito. Outros da mesma idade do Chico, do Caetano e do Mautner não tiveram a mesma sorte e contrariaram o Mautner em casa, na fila do atendimento ou em macas nos corredores dos hospitais superlotados. Sim lutamos, me parece, para manter uma certa normalidade, mas não é normal contar mortos como se contam as moedinhas do troco do pão na padaria.

Morrer é natural, é claro. Mas tratar a morte com indiferença não é natural e nem humano. Mais do que anunciar que alguém morreu como fazem os obituários, é necessário anunciar porque alguém viveu, o que fez e o que deixou como contribuição para quem está vivo. O que fizeram Aldir Blanc, Alceu, Olga e Flávio é justamente o que nos torna humanos e o que impede que tratemos a morte com essa indiferença monstruosa. É sobre o que vai ficar que também se refere o morrer, mas isso é só pra quem tem coração, como esse que o Mario de Andrade deixou antes de contrariar o Mautner: 


Quando eu morrer quero ficar
(Mário de Andrade)
   
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.


André Merez é poeta, editor desta revista e escreve esta coluna todas às quintas-feiras.
__

"O jardim da morte" de Hugo Simberg (1896)

A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

      



Comentários

  1. Compartilho sua aflição. Excelente texto.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela visita, meu irmão! A aflição parece ser de (quase) todos nós.

      Excluir
  2. Maravilhosa e lúcida reflexão. Preferia não estar vivendo tempos tão sombrios, mas já que estou aqui, tb acho que morrer não é uma boa ideia!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela visita e pela leitura, Alcione! O Jorge Mautner está certo! Salve Jorge!!

      Excluir
  3. Excelente texto. Talvez morrer não seja uma boa ideia, mas já não estamos morrendo?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela leitura, Edi! Sim, é exatamente essa a reflexão. Já que estamos morrendo vamos fazer valer a vida!

      Excluir
  4. Tão a calhar, amigo. Obituários anônimos no país do desamor. Mas eu insisto nas singularidades da existência. De alma, nem vegana eu sou. Vivo de prana e luz, não mato nem barata. Texto impecável.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prana e luz são o alimento dos (verdadeiros) leves, Virgínia Maria Finzetto! Obrigado pela visita! Um abraço grande.

      Excluir

Postar um comentário