Fátima Trinchão: "A grande Mãe" e outros poemas

Nascida na Bahia, município de Euclides da Cunha, veio para Salvador com seis meses de idade, estudou em escolas públicas da capital baiana, vindo a formar-se em Letras Vernáculas pela Universidade Católica de Salvador. Exerce a profissão de professora, em Escolas públicas da capital. Publicou algumas antologias, entre elas HAGORAG, Salvador 460 anos de poesia; Bahia de Todos em Contos, além de publicações nos jornais da capital baiana. Com um site no recanto das letras, fatimatrinchao.net, em que tem a oportunidade também de apresentar além de poesias, contos, artigos e crônicas. Cultora da poesia e das artes em geral, admira a todos os que dedicam-se à tão nobre mister. Os poemas da coletânea abaixo foram selecionados pelo editor desta revista, com a autorização e a imensa gentileza da autora. Para conhecer melhor a obra dessa poeta, sugerimos uma visita ao site oficial de Fátima Trinchão.   





A GRANDE MÃE

Deusa de inefável
amor e doçura,
Mãe de nós todos,
teus filhos somos;
Maria também és!
Mãe de todos aqueles que se aventuram mar adentro,
noite afora,
Na certeza
de uma divina colheita,
uma boa pescaria.
Quando em calmaria,
O seu reino é todo paz !
Do Pacífico Norte,
Do Pacífico Sul,
Do Atlântico Norte,
Do Atlântico Sul,
Do Oceano Índico,
Do Oceano Ártico,
Do Antártico Oceano,
Da grande Kalunga,
Dos Sete Mares da Terra,
Regina Mater.
Marinheiros a invocar-lhe
nas noites longas
De longas tormentas,
Quando imensas e bravas
ondas fustigam as
grandes e pequenas naus,
socorridas sempre a tempo
de louvar-lhe.
Deste desconhecido,
imensurável e belo reino
Das águas salgadas,
Sois Soberana.
Pétalas de rosas brancas
Sempre a Vós Ornar;
Yá de tantos encantos,
Dona de infinitas riquezas,
Rainha de extrema grandeza,
Senhora de Aiocá,
Mãe!



BAHIA COSMOPOLITA

Faz-se manhã extraordinariamente bela
Na bela São Salvador, o sol pujante desperta
Em céu de festa enfeitado, revelado em aquarela,
Naquela velha cidade, naquela cidade tão bela,
Tão fervilhante de gentes, que descem e sobem ladeiras,
Em singular convivência do passado com o presente.

Gentes de todas as graças, gentes de todas as cores,
Gentes de tantos credos, gentes de tantas raças.
Gentes de mis amores, Gente que vem e passa
Gente que ri e cora, gente que chega e parte,
Gente que sonha e chora, no alvedrio da tarde,
Gentes de todas as gentes, gente de tanta gente,
Gente de toda parte, Gente de cá e de lá,
Gente de todo Orixá, Orixás de tantas gentes
Porque todas essas gentes também
têm seus Orixás,
Unos Neles nós estamos.
Maravilha das Maravilhas!
Nesse caldeirão de gente,
Tão diversos e tão semelhantes
o que importa é o ser gente.
E na brisa que o calor ameniza,
É gente de todo o mundo,
É gente do mundo todo,
É todo um mundo de gente!
Bahia cosmopolita,
Tão fervilhante de gentes,
Que descem e sobem ladeiras
Em singular convivência
Do passado com o presente.



FUGAS

AI SEU MOÇO...

Pois é seu moço,
Deixou a casa de palha,
(Brigou com a mulher),
Não cuidou das redes,
Descuidou-se das tralhas,
Pegou o chapéu
E rumou pra riba.
Ali moço,
No meio daquele marzão azul,
Platinado pelo intenso sol de verão,
Nem briga nem intriga.
A canoa avança, frágil,
Balança e avança.
Mar adentro, mundo afora.
Calmamente desliza
Nesse mundão de água,
Nesta angústia danada,
Que só lhe resta rezar.
E a canoa a deslizar,
A deslizar brandamente
Ao sabor da brisa corrente,
E ali dentro vai gente,
gente que quer ficar só,
gente que quer só ficar,
E por lá mesmo se perder,
Se perder e até quem sabe...
se achar,,
E nunca,nunca mais
Voltar do mar..
Ai, seu moço.



O RELÓGIO

A areia fina da ampulheta escorre
por entre os vãos, lá fora.
E o porvir, está mais próximo do que distante.
O grande e extremo segredo, é o agora!

Olho o relógio e o seu pêndulo
Marcando as horas e os segundos
Num ritmo grave e lento,
Num processo diuturno,
Prolongado e ponderado,
Atento e cadenciado ,
Duradouro e permanente,
Enquanto somos presentes.
Clepsidras bem-dispostas,
Num salão hirto e frio,
A escutar, pacientes,
O causídico e seu discurso,
Em defender veemente,
O réu que se quer inocente!
Em tão breve-longa jornada,
O relógio e o seu pêndulo
A marcar intenso, inclemente,
Ativo e acelerado,
Nossos segundos e horas,
Em momentos de paz suprema,
Suprema felicidade,
Que em êxtase, miragem,
Rogamos-lhe humildemente,
Pedindo-lhe que parasse!

Mas os ponteiros
(Ignorando o meu grito),
Avançam, incomplacentes,
solenes, graves, bonitos,
num ritmo cadenciado
rumando ao Infinito.

Tic tac, tic tac, tic tac.



PASSAGEIRO

Justifica-te a pequenez,
Na mais sórdida lhaneza
Consagrando-te a perfídia
Com destreza.
A Talião e sua lei,
Serves com grandeza,
Maculas com força os traços
De beleza,
Cinges-te com as cores da torpeza,
limbando as partes
Puras,
Com presteza.
Para e olha-te,
Viajante que és,
Levanta os olhos aos céus,
Agradece ao Pai Por te amar.
Ao invés de perfídias lançares,
Ao límpido lar ensombrares,
Tece fios dourados de luz,
Nos caminhos por onde Passares.



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A poeta Fátima Trinchão


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

Comentários

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