Inês Campos em sete poemas escolhidos

Inês Campos nasceu em Belo Horizonte, onde vive ainda hoje. É poeta e advogada. Em 2017, lançou o livro Geografia Particular, pela Cas’a edições. Seu segundo livro, Roca, foi lançado em 2019 pela mesma editora. Alguns de seus poemas foram publicados também em revistas e coletâneas nacionais. 



mercado

o contrato na banca
dos pescados
quanto o quilo
sem a espinha
quero só os dois lados
sem surpresas na boca
aberta escapando do embrulho
das notícias de ontem
ferver o óleo
o entendimento não é
sem os restos
no prato
o gosto do que se pensou
o tempero dos dedos



movimento

acordar a espinha dos pequenos desejos
o arranque cobrará seu preço
mas antes os pés
somente dois para suportar
o silêncio do entre
um de cada vez
você não diria
eu digo
em minha defesa



todos os nomes

cortar não é sem tinta
carece o canto da mancha
profanar letras
você e a neblina
todos os nomes do carvão
respondem ao vento
o gosto está na tensão do punho
algo de lodo para o claro
a boca a planície
da língua



(sem título)

começo esta carta no leito
do rio retornado
depois do desaparecimento do mundo
com nosso filho nos braços 
e seu hálito 
recolhido
nas linhas da mão

escrevo no couro do tempo vivido
no rio de agora quase um não rio
deixo suas línguas lavarem a dor
escorrida pelos dedos
enquanto a criança bebe do leite 
que um dia fomos



mata-burro 

ela mastigou todas as sementes
arranhou o couro dos cabelos
o suor entre as pernas
o chapisco das costas

recusou a divisão dos dias
caixa de força, fuga do raio
afundou o dedo 
no buraco entre as vigas

não desconfiou de porteiras abertas
o castigo desta liberdade é a espera
e a lembrança entre os ossos



roca

a madureza da uva na grade das horas
as horas devorando a carne
― anoiteço com susto
o tempo dança em minhas escápulas
deixo que morda 
meu sexo ― o instante
soltando a rédea
dos planetas

fazendo da reta espiral
elástica



oca

mas eis que encontra a roca escondida
e a fina agulha à espreita



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A poeta Inês Campos Duarte


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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