Lia Testa: sobre colar poemas em papel

Lia Testa gosta de palavras que se encontram em permanente estado encantatório e de envolvimento. busca ritos degustativos de salivas que molham a linguagem numa fala erótica e de erotização. acredita que a poesia está em todos os espaços para recodificar o corpo. tenta viver/estabelecer uma íntima relação de atravessamento com a palavra, pelo desejo/sonho de encontrar seu intenso e incessante tecido (palpável ou impalpável), para chegar a um estado poético possível. toma a sua produção como um “work in process”, impelida de desdobramentos múltiplos, de energias moventes e de imersões. Além de se dedicar à produção poética e à produção de obras-colagens (feitas à mão), é professora de Literatura Portuguesa da UFT, Mestre em Letras e Doutora em Comunicação e Semiótica. Tem trabalhos publicados em revistas acadêmicas e literárias, participa de algumas antologias poéticas e é autora dos livros “guizos da carne: pelos decibéis do corpo” (Poesia Menor, 2014) e “sanguínea até os dentes”




A poeta e artista visual Lia Testa




            nasceu. 

            não queria tirar as garras da pele primeva

temia o voo anorgânico. 

                                      desvencilhava-se se houvesse voos-casulos. 

não havia. 

                                     olhos postos nas peles. thânatos a espreitar. 


desejo de refazer o que se 
                                           de                                 
                                                  s   
                                                         fe   
                                                                  z. 

                          afirma o pouso não pouso.

                                          
                                          pathos. 

                                                       desvios

                                                                     errância. 

                                    clara fenda de|fusão.





Lia Testa
'contra-ataque'
colagem analógica
(2015)
olhar górgono
transforma o
corpo ctônico
pedra perigo
contempla o
dissimétrico
a noite densa
a agressiva luz
a retina queimada
a baça boca oca
aberta sobre as
cabeças sobre os
elos dos olhos  
impiedosos no
desferido olhar
que de cabo-a-
rabo & sem-fim
atira a fera em
fúria na beira do
terrível encanto
do encontro no
terreno pouco
conhecido que
se chama abismo




Lia Testa
'dedos de dédalo no voo'
colagem analógica
 (2015)

découper o sinal de fogo no fumo
na casa dissonante da vespa-mestre
religar o vespeiro nas picadelas infladas
das flores-abelhas que afloram un coup de fúria
imbeles mãos rugem na errância cosmótica das faias
de sol [em lugar do espinheiro crescerá a faia, e em lugar da sarça crescerá a murta]
da flora-potência crescente até mesmo no deserto
contra risos sinistros e venenos sem antídotos
olhai a zona baixa-quente em contra-plongéé
ler o manifesto 343 a livre notação das falas
sem crime nem culpa atentai para as claves da
machine à écrire nas dobras do corpo-tempo:
esse templo carregado de variadas temperaturas





Lia Testa
'escrever por fora por dentro'
colagem analógica
 (2016)

eu e o outro
aqui estou eu e Borges
o outro, o mesmo
noite inútil
madrugada infinda
encontros na esquina
deserta língua

sobrevivo >> disse
sobrevida >> digo
à noite falo: ouça
voz

                     (...)

não cala >> diga
falo fala nada fado

calado teu medo hoje
silêncio
conversamos, tu e eu tu-eu eu e o outro
esquecemos algumas palavras
minha vida antes da morte
conto-a

tua vida escura e brilhante
refletem
- zombeteiro espelha –
riso
o céu – sempre o mesmo
céu
não. de aquário
só nado só
peixe >> tenho dito:

poeta grande pede mar fundo

<< (...) >>

o outrem o mesmo
olvido: o ele, a mim, a nós
quem nos dirá: - quem? que és? inútil
em vão << diga?
a esta altura, adeus!
vejo você aí, você sabe, não sabe?
andando para lá e para cá feito um pêndulo
- você -
percebe?
talvez.
quem nós dirá quem perdeu
perdidos no continuum
quem pode perder o
que nunca encontrou?



Lia Testa
'expansão pós-big-bang'
colagem analógica
 (2015)


ser peixe

ser a guelra

do peixe

a escama

da guelra

do peixe

ser barbatana

de peixe

a escama

que escama

a guelra

do osso

do peixe

ser a cartilagem

que dobra o peixe

ser olhos de peixe

ser olhos boca

ópera de peixe

a carnuda

cavidade

do peixe

ser espinho

espinha que

rasga o peixe

nadadeiras

que escapam

longe

ser o longo

dorso do peixe

em linha curva

ser a zona neutra

do aquário

o opérculo

semicircular

de guelras

arco de arpão

isca de anzol

ser anzol e peixe

ser a isca

na guerra

ser a guerra

do peixe na

água 

o corpo-orifício

o ar da narina

o branco da

fenda branquial

o olfato

ser o nervo

tongue de peixe

de língua

fusiforme

fiando a água

o céu o mar

fluindo na

sonda aquática

onda de voz

raio rima

peixe-mulher

ser medusas

cristais de guanina

maré

em água doce

ser o sal

ser o peixe

de sal

celacantos

do peixe

ser o muco

da truta arco-íris

o truque da água

a moreia de mole

corpo anguiliforme

ser peixe

ser a guelra

do peixe








A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

Comentários

  1. O que você achou desta postagem? Deixe aqui as suas impressões. Isso é importante para o nosso trabalho

    ResponderExcluir
  2. Eu só tenho agradecer pela parceria da revista "Poesia Avulsa", obrigada pelo carinho André Marez. Sigamos com muita poesia & arte, viva!!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário