Maira Parula e os poemas que não existem

Maira Parula nasceu em Porto Alegre e criou-se no Rio de Janeiro, onde formou-se em Letras pela UFRJ. Antes do surgimento da internet, sempre publicou seus textos em antologias coletivas e jornais e revistas de cultura independentes. Em 2002 criou o blog de literatura Prosa Caótica. Em 2005 participou da antologia de escritores blogueiros, "Blog de Papel". Em 2006 lançou seu primeiro livro solo pela editora Rocco, "Não feche seus olhos esta noite". É tradutora e editora.


quero

Não se assustou quando abri a janela num rompante.
Ficou ali no fio, bico voltado para o céu,
virando a cabeça de um lado para o outro
como se quisesse bronzear a face uniformemente.
Durou o tempo de uma música.
Quando Where do the children play acabou,
partiu com os de sua espécie.

Depois do ensaio, conversei com Ingrid.
Falávamos em inglês,
em português ela só sabia dizer “quero”.
Os fãs pediam autógrafo,
eu pedi um beijo.
Ela deu.
Trememos.
Quando acabou, lamentou
a criação do Muro na Argentina.
Combinamos de nos encontrar mais tarde,
partiu e não nos vimos mais.

Eu voava sobre redes de vôlei cada vez mais altas.



mande notícias do mundo de lá, diz quem fica. 

No quarto vazio me pego dançando Comme un garçon e La chansonnette 
feito uma velha cafetina francesa num pré-guerra qualquer. 
Os sapatos da rua não entram em casa. 
Uso a técnica da maturidade para voltar a ser criança 
no mundo novo que ainda desconheço e bate à minha porta. 
Desenho As madrugadas nunca foram tão silenciosas. 
Um cachorro solitário ecoando no morro lá longe. 
Fecho os olhos e lembro de todas as estradas 
por que passei numa viagem noturna. 
Não penso em nada: neblina asfalto terra bruta. 
Há mortos abandonados entre árvores e prédios. 
Faz calor de um calafrio nas costas. 
Visto o impermeável. 
Espero que você esteja bem.


chumbo

Não sinto mais o gosto cabotino da tristeza: Manuel. Permita-me, não sinto mais o gosto cabotino da tristeza nem do contentamento. Por passar a mão no peito e não sentir mais o diafragma do alto-falante vibrar. Tem uma música tocando ali, muito baixa, muito lenta, para que ninguém ouça. Não choro. Nada disso chega a tuas mãos. O nome da mãe dela era Ivete, lembro agora. Passei dias tentando. Como posso esquecer das coisas assim que lembro delas. A tipografia está uma balbúrdia hoje. O Alvinho, veja você, quer a volta do chumbo em pleno século XXI. Comprou uma linotipo enorme e até prensa móvel. Quer renovar o passado, assim me disse. E que o bafio do chumbo não afetará a saúde de ninguém porque tomou medidas cabíveis de proteção laboral. Não me deixei convencer e exigi meu litro de leite diário já que trabalho nesta condição centenária. Por aqui estão todos animados com a ideia deste revival. Uma proposta artsy, dizem na hora do café com chumbo, deus me proteja. Espero que o poeta Manuel não se zangue por eu ter usado um verso seu no início desta tira de papel, sem hesitar a melhor frase do todo. Eu falava de Ivete, de quem consegui lembrar o nome após muito esforço da memória. Sim, Ivete, que importa. A gráfica fica em Bonsucesso, que é quente como o diabo e ainda o meu português não pode falhar. Alvinho amuou-se comigo ontem porque o verso dele era um dodecassílabo e eu comi o do. O primeiro livro a ser lançado será o dele, para dar sorte violenta, justificou-se na reunião, o sacripanta. Fez uma lista com figuras do momento. Vou confessar uma coisa, comecei estas palavras me sentindo já meio adefuntada, mas à medida que vou escrevendo o meu repertório, esqueço o que me rodeia, o corpo que me mantém confinada na cadeira, os infelizes que me aporrinham, o dia que chega tarde demais. A vida é este copo plástico furado molhando a minha calça, beba mais rápido do que o furo. Escrevo tamanhas miudezas porque tenho certeza de que ela não vai ler nunca. Não é divertido? Um desamparo ficaria horrível de outro modo. Eu me peço fazer assim. Escrever no avulso. Pensar qual o quê. Nada de excessos. Bom, está na minha hora, demorei demais por aqui. Cortei um tantão. Antes de sair Alvinho me oferece uma carona. Chumbo e gasolina. Que diplomata. Meu coração volta a bater quando o carro vira na Avenida Brasil. Lê.




li p
ler p

leio poemas que não existem
jane eyre menina soprou-os no meu ouvido
e só me deixa vê-los em sonhos
três segundos de sonho
para que deles não lembre
para que não fixe na memória
yerma é o que sobra de um verso

jane tem vergonha de seus poemas
de dias claros
me espera dormir
acende a vela
e desce para ver-me
a bertha que arderá sua casa



bamiyan

Senta ao meu lado na cama.
Torce o pano azul sobre prato azul.
Embebe minha febre.

Puxei-a pela mão por passagens secretas.



a sua miopia

Tiro os óculos.
Deito a cabeça no encosto.
Olho torto para a tela.
E.
As legendas são poemas concretos.



ela queria seus poemas em segredo.

Clandestinos.
A Sprache do silêncio.
Mas eles foram lá,
caçaram seu refúgio,
violaram seu túmulo,
remexeram sua gaveta,
escolheram os ossos mais belos,
exibiram-na em praça pública.
O pescoço aos versos não mais inclinado.
Estranha glória.
Em nome de quem assinam as Vaidades pessoais?
Da Poíesis, for sire.
Aplausos para os caçadores
os navegantes
os descobridores
os conquistadores
os colonizadores.
Não foi a primeira
não foi a última.
Eles sempre voltam.

Sobre quem triunfam os Césares?



vale das graças

Amanhã é o dia em que atendo freiras
no meu salão de belezas conventuais.

Uma suave lâmina no buço,
no pelame do Vale das Graças.
Após bóreas drenagens linfáticas,
a bosch para cortes de precisão.

Elas imploram pela vida
no mugido dos carros de boi,
como um cão que late
Deus pela garganta.



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Maira Parula

A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 


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